40 anos do ‘Xou’: relembre os bastidores conturbados da saída de Xuxa da Manchete e sua ida para a Globo em 1986


A estreia do Xou da Xuxa na Globo, em 1986, foi cercada por polêmicas que vão muito além do sucesso do programa. A transferência da apresentadora da Manchete para a Globo envolveu uma disputa milionária de salários, demissões em massa na antiga emissora e acusações de bastidores turbulentos durante a produção. Relatos da época apontam conflitos de Xuxa com cenários, figurinos e direção, além de atrasos e desentendimentos na fase de testes. Meses após a estreia, a Globo foi autuada pelo Juizado de Menores por manter crianças em gravações noturnas fora das normas legais. Outro tema controverso envolve o desaparecimento de parte dos registros dos primeiros anos do programa, cujo destino permanece alvo de especulações até hoje

*por Vítor Antunes (com pesquisa de Sebastião Uellington Pereira)

Um curioso parque de diversões conduzido por uma apresentadora e modelo. Há uma coisa que é pública no que diz respeito à estreia da “amiguinha Xuxa” na TV: fala-se muito sobre os bonecos do Mauricio de Sousa e a cenografia de Reinaldo Waissman — mas aqui trataremos dos assuntos pouco lembrados da estreia de Xuxa na Globo e de sua saída da Manchete. O Xou da Xuxa fez com que a apresentadora virasse um fenômeno pop não só no Brasil, mas na América Latina entre as décadas de 1980 e 1990 — e um nome fortíssimo ainda hoje, 40 anos depois. No próximo dia 30 de junho, o Xou da Xuxa completa quatro décadas de estreia. Relembre os polêmicos bastidores que levaram Xuxa da Manchete à Globo.

Xuxa e os baixinhos no então Clube da Criança, na Manchete (Foto: Reprodução/Manchete/Biblioteca Nacional)

QUEM VAI FICAR COM A ‘MANECA’?

Ela toma Toddynho todo dia de manhã, se amarra no Leonel Brizola, admira Marilyn Monroe e Brigitte Bardot. Tem adoração pelos Três Patetas, pelos Trapalhões e pelo Mauricio de Sousa.” Assim a definia Lilia Newlands, em perfil publicado na Tribuna da Imprensa. Já no Globo, Olivia Gonçalves a descrevia como “naturalista, não fuma e não bebe nem refrigerante, não come sal nem açúcar e desde os 8 anos não come carne” — o que hoje se entende como vegana. À época, um hábito excêntrico. Hoje, naturalizado. No fim de dezembro de 1985 já começaram os rumores de que Xuxa – que ainda atuava como modelo e ‘maneca’ ou seja, manequim, segundo a gíria da época – deixaria a Manchete e iria para a Globo. “Eles têm algumas ideias para trabalhar comigo, sobretudo depois do show com os Trapalhões [que Xuxa fez no Scala, em julho de 1985]. Mas será apenas uma conversa”, disse ela naquele fim de ano, enquanto ainda preparava seu programa de Natal pela extinta emissora dos Bloch.

A Globo chegou com artilharia pesada para tirar Xuxa da Manchete, na época em que o Clube da Criança já era a maior audiência da casa. A Manchete pagava à Xuxa Cr$ 50 milhões. Diante da cantada da Globo, subiu o salário para Cr$ 100 milhões. A Globo, por sua vez, ofereceu Cr$ 250 milhões. Houve uma contraproposta — mas Xuxa, ao Jornal dos Sports, foi direta: “Não quis ouvir a contraproposta dos Bloch.” Para se ter ideia, o salário mínimo da época era de Cr$ 600.000,00. Quase 417 salários mínimos. Corrigindo para o ano-base de 2026, usando apenas a quantidade de salários mínimos, a Globo ofereceu o equivalente a R$ 675.957,00. Na época, Xuxa ainda era a namorada de Pelé — e se queixava de vê-lo pouco.

Antes da Globo, antes do Xou e antes do sucesso: Os 40 anos da estreia do Xou da Xuxa (Foto: Reprodução/Manchete)

A intenção da Globo era combater o Bozo na faixa, já que o Clube da Criança, da Manchete, era vespertino. Com a saída de “Xu”, toda a equipe que estava na emissora foi demitida — com exceção de Marlene Mattos. Para ocupar o lugar da loura, os nomes que se ventilavam eram os de Myriam Rios, o de uma “Menina Luciana” — que não foi possível identificar — e de Lucinha Lins. Lucinha acabou sendo, de alguma maneira, a substituta. O Clube da Criança encerrou e cedeu lugar ao Lupu Limpim Clapa Topo.

O cenário que todos hoje conhecem como a nave espacial — um dos elementos mais marcantes do programa — foi descrito inicialmente pelo Correio Braziliense como um disco voador. Previsto para estrear em 9 de abril, em 13 de junho ainda não havia data confirmada, mesmo com edições já gravadas. Em entrevista a Ferreira Netto, às vésperas da estreia, Xuxa disse que a chegada à Globo celebraria uma nova fase na carreira, “embora dando continuidade ao que já vinha fazendo”. Ela já recebia seu salário da emissora — mas ainda não havia assinado o contrato. “Xuxa precisa assinar o contrato até esta sexta-feira, 09/05/1986”, registrou o jornalista.

Lançamento do álbum Xou da Xuxa, de 1986 (Foto: Divulgação)

Ainda em abril daquele ano foram gravados os primeiros pilotos — que, segundo o repórter do Correio Braziliense, “de nada adiantaram. Xuxa reclamou de tudo. Desde os cenários até as roupas que deveria usar no programa. Nada serviu.” E mais tarde complementou: “A estrela chegou atrasada, não concordou com o esquema de produção, tampouco aceitou ser dirigida. Isso criou um clima muito ruim na emissora.”

A expectativa era substituir o Balão Mágico, já bastante esfalfado naquele fim de 1985 — Simony havia saído, indo mais tarde para o SBT, então TVS, e o Fofão, personagem de Orival Pessini, para a Band. Divulgado inicialmente como “Show da Xuxa”, o programa passou a ter data prevista de estreia para 21 de junho. Wilson Rocha, autor de episódios do Sítio do Picapau Amarelo, foi designado para escrever o roteiro. O programa estreou no fim de junho. Em agosto, já marcava 40 pontos de manhã.

“A tarde foi de pura festa para as crianças que lotaram o teatro. E não era para menos, porque se tratava da primeira gravação do programa da Xuxa, batizado como Xou da Xuxa — uma brincadeira na língua do xis: xou significa sou, e não tem nada a ver com show, como se imagina a princípio – O Globo,  08/06/1986

Outtake do primeiro álbum de Xuxa na Globo (Foto: Reprodução/Facebook/Xuxa)

Ainda em 1986, estimava-se que Xuxa fosse fazer o musical Peter Pan — coincidentemente, música de Rita Lee que compunha o álbum de estreia da loura, lançado em agosto daquele ano. Também se cogitava que naquele mesmo ano sairia seu primeiro filme, Xuxa no País das Maravilhas, com Pelé e Paulo César Grande no elenco. A própria Xuxa, porém, era cautelosa: “Ainda é cedo para falar sobre Xuxa no País das Maravilhas. Não assinei contrato. É um projeto do Vitor Lustosa, gostei do enredo — mas quero saber quanto daquilo vai poder ser realmente feito. Porque se disserem que a grana só dá para 50% do roteiro, eu não faço. Tenho meu nome para cuidar, não é mesmo?” O primeiro filme solo da apresentadora só veio a acontecer dois anos depois, em 1988, com Super Xuxa Contra o Baixo Astral.

Em outubro de 1986, o Juizado de Menores tirou algumas crianças das gravações noturnas do Xou. Cem delas foram desligadas do programa quando cinco comissários do Juizado autuaram a emissora: havia crianças menores de cinco anos no elenco — o que era proibido — e os menores só podiam gravar até as 20h. Eram 22h30.

Criança é tão colorida, transparente, calma… Me vejo com brilho ao lado delas. É claro que todos nós temos problemas, mas eu acho que tenho o dom de sufocar o adulto que existe dentro de mim quando quero. Eu, que adoro animais, em alguns instantes sinto, ao lado dos bichos, a mesma paz que encontro na criança. E os meus bichos acreditam em mim, andam soltos no pátio. Os pais precisam saber como é fácil conquistar as crianças e se tornar uma – Xuxa, ao Jornal O Globo, em 12/12/1986

Xuxa apresentando o Xou, em 1986 (Foto: Divulgação/Globo)

O QUE HÁ DA ESTREIA?

A prévia do programa foi muito conturbada. A própria Xuxa descreveu o peso daquela transição n’O Globo de 7 de junho de 1986: “Reconheço que ainda não me recuperei assim com cem por cento do estresse todo que foi a mudança de emissora. Imagine: se a gente fica ansiosa quando muda de casa, de lugar de trabalho, mais ainda. Principalmente porque eu estava na Manchete há três anos, foi lá que eu comecei, tinha todas essas coisas. No dia da estreia do programa, 30 de junho, acordei às seis da manhã e não consegui tomar café. Várias pessoas assistiram ao programa comigo e, até o primeiro bloco de intervalo, ficou todo mundo calado, tenso, com os olhos grudados na televisão.”

Boa parte dos primeiros programas de Xuxa na Globo não tem paradeiro definido. Segundo a dissertação O vídeo é uma fantástica máquina do tempo: a preservação e a rememoração do arquivo de entretenimento da Rede Globo, de Gabriel Sarturi (UFSM), o material dos primeiros anos simplesmente sumiu. Em entrevista concedida ao pesquisador, Bruno Weikersheimer, ex-produtor do Vídeo Show, levantou uma hipótese que nunca foi confirmada: “Eu lembro que, quando eu pesquisava, a gente tinha muita dificuldade de pesquisar os anos de 1986 e 1987, só começava a partir de 1988. E aí, quando teve o especial de 20 anos do Xou da Xuxa, em 2006, eu entrei em contato com uma pesquisadora da época, que até me mandou uma planilha de tudo o que estava sendo feito, e ela me falou que o material de 1986 estava com a Xuxa Produções — que na época, parece, o Boni deu o material para a Marlene e não guardou. O que a Globo tinha guardado era do meio de 1987 em diante; o de antes, ela tinha dado para a Xuxa. […] Agora, se é verdade ou se não é, eu não sei, eu não posso afirmar.”

Xuxa em fotos posadas para o Karaokê da Xuxa (Foto: Andre Wanderley)

Relembre as atrações da primeira semana do Xou da Xuxa:

  • Segunda, 30/06/1986 — Trem da Alegria e Dr. Silvana
  • Terça, 01/07/1986 — Os Abelhudos
  • Quarta, 02/07/1986 — Lançamento da primeira música do novo álbum (O Globo da época não registrou qual delas seria)
  • Quinta, 03/07/1986 — Jerry Adriani e Gabriela
  • Sexta, 04/07/1986 — Biquini Cavadão
  • Sábado, 05/07/1986 — Absyntho