*por Vítor Antunes
Discreto. Arredio. Distante. Por anos, alguns desses adjetivos rondaram o nome de Gabriel Braga Nunes como sombra. No entanto, tivemos acesso a um ator que prova o contrário — e nem de longe dialoga com os rótulos que tentaram lhe imputar ao longo de três décadas. Sim: em 2026, o ator completa 30 anos de carreira. Para ele, trata-se de uma leitura simplesmente inexata. “Eu não sou exatamente uma pessoa reservada, definitivamente não sou. Essa é uma impressão errada que a imprensa foi estereotipando. Tenho mais interesse pelo trabalho das pessoas. Acho que ela tem de melhor, então eu sempre tive mais interesse pelas entrevistas profissionais do que pela vida privada das pessoas. Acho que esse interesse naturalmente se reflete na minha relação com a imprensa”, explica.
Hoje em dia, eu sou muito satisfeito com esse momento profissional, em que eu tenho autonomia de trabalho, estando apenas no teatro. Isso eu digo assim, em caixa alta e sublinhado, porque eu dou muito valor: Autonomia na minha profissão. Esse sempre foi um dos sonhos meus. E hoje eu estou exercendo esse sonho – Gabriel Braga Nunes
Como parte das celebrações dos 30 anos, Gabriel concentra energias na montagem de O Filho — que virou fenômeno de agenda. “Como a temática do espetáculo está gerando muito interesse, a gente tem viajando o Brasil todo e, depois, vamos a Portugal. Eu não tinha previsto isso ainda, de ter um espetáculo que de cara já tivesse mais de um ano com agenda fechada”, conta.
Trinta anos depois da estreia na televisão, Gabriel Braga Nunes atravessa a própria trajetória sem nostalgia excessiva nem apego aos rótulos que insistiram em defini-lo ao longo do tempo. Entre o teatro, a música (ele tem uma banda), o balé, e a memória de novelas que marcaram diferentes fases da dramaturgia brasileira, o ator revela uma busca permanente por liberdade criativa — ainda rara num meio guiado pela pressa e pela lógica industrial. Mais do que celebrar uma carreira longeva, Gabriel parece interessado em algo mais complexo: permanecer artisticamente inquieto, disposto a experimentar e consciente de que, para além do sucesso ou da exposição, o que sustenta sua caminhada continua sendo o desejo de criar.

Gabriel Brana Nunes em “O Filho” (Foto: Divulgação)
Escrita pelo francês Florian Zeller e dirigida por Leo Stefanini, O Filho mergulha, entre outros territórios, no universo da saúde mental. E Gabriel não tem dúvida sobre o peso social do que leva aos palcos. “É muito importante essa peça em razão de ela ter um serviço social, que é trazer a discussão de saúde mental para as famílias brasileiras. Não há quem tenha filho e saia do nosso espetáculo sem refletir sobre as relações familiares. A falta de perspectiva dos tempos que a gente está vivendo pode ser pesada e até fatal para os nossos jovens. Então, nesse contexto, você pode colocar a crise climática e toda a falta de perspectiva que isso acarreta também. Além da chegada da inteligência artificial e toda a falta de perspectiva para os empregos no momento da vida em que o jovem está justamente escolhendo a sua área de atuação”.
Os psiquiatras com quem nós conversamos, psicólogos e psicanalistas, são meio unânimes em apontar os algoritmos de rede social como muito perigosos para os jovens que estão no processo de descoberta pessoal – Gabriel Braga Nunes
PAI E/EM TEMPO
A paternidade tardia — vivida de propósito — é outro capítulo que o ator narra com orgulho evidente. Quase 30 anos ininterruptos de novela, e ele escolheu ser pai depois dos 40. “Eu fui pai depois dos 40, de propósito. Quis ser pai num momento que eu já tivesse bem estruturado e que pudesse dar bastante atenção dentro de casa. Sempre sonhei em ser pai, mas eu fiz questão de ser um pai presente, atento. Participei das fraldas, da primeira infância toda. Estava em casa, rastejei no chão com as duas bebezinhas, depois fiquei de cócoras com as crianças pequenas. E hoje jogo bola com a minha filha que está fazendo 12. Tenho espaço na vida para isso. Isso me enche de orgulho. Eu fiz 25 novelas num espaço de 25 anos. Foi um volume de trabalho muito grande”

Gabriel Braga Nunes atua em peça que debate saúde mental (Foto: Divulgação)
ENTRE O PRECÁRIO E A GLÓRIA
O ator estreou em Razão de Viver, do SBT — nunca reprisada —, e recentemente se viu de volta à tela com a reapresentação de Terra Nostra, de 1999, na Edição Especial. O reencontro com o jovem de 27 anos que ele foi rendeu uma reflexão generosa. “Recentemente reprisou Terra Nostra. Ali eu tinha metade da idade que eu tenho hoje. Eu estou com 54, eu tinha 27 — era exatamente metade da minha vida. E isso aconteceu dois anos depois de eu fazer Razão de Viver, minha primeira novela. Em Terra Nostra agora eu não me reconheço muito. Eu considero que eu melhorei de lá para cá. A maturidade veio para mim no sentido de me trazer mais liberdade, mais segurança, mais autoconfiança. Eu me considero hoje um homem mais autoconfiante do que eu era na época de Razão de Viver e de Terra Nostra.”
Depois de protagonizar Essas Mulheres, na Record, veio o primeiro papel central numa novela de peso da emissora — a “novela das oito”, Cidadão Brasileiro, escrita por Lauro César Muniz. Uma obra que ele guarda com carinho especial. “Em 2006, sendo protagonista de Cidadão Brasileiro, estive numa obra com uma facilidade de decorar texto, de compreender as cenas, porque era um raciocínio muito parecido comigo. Foram personagens que eu gostei demais. Eu guardo esse momento da vida com um enorme carinho.”
E acrescenta: “O protagonismo, porém, tinha um preço. “Cidadão era um trabalho enlouquecedor, era uma carga horária muito grande, a gente não dormia. Cheguei a algumas jornadas de 24 horas de trabalho. A gente tinha estúdio em São Paulo e cidade cenográfica em Bragança Paulista. Ia de helicóptero para gravar no mesmo dia e a fazer e cidade cenográfica. Foi muita aventura. É uma experiência muito vertical, ficar sem dormir por um personagem” – diz o ator. Na época dizia-se, inclusive que ele chegou a ter estafa em razão do ritmo intenso.

Gabriel Braga Nunes e Bel Kutner em “Razão de Viver” (Foto: Reprodução/facebook/Bel Kutner)
Gabriel não tem problema em lembrar de trabalhos menos épicos que Cidadão Brasileiro e Essas Mulheres — e como a saga Mutantes, ícone trash dos anos 2000, e de Por Amor e Ódio, obra obscura e esquecida da retomada da Record na dramaturgia no final dos anos 1990, quando o objetivo era fazer dramaturgia religiosa para levar fiéis à Universal. “Por Amor e Ódio foi interessante porque era um protagonista que levava a história. A Record não tinha estrutura nenhuma. Não tinha nem estúdio. Tudo era feito em locação. Então, as condições técnicas comprometiam muito”. Praticamente não há registro da trama, sequer em vídeo. Estima-se que a novela tenha sido apagada.
Já a saga Mutantes fez sucesso estrondoso — mas o bastidor tinha seu custo. “Era uma novela de efeitos especiais, escrita e pensada assim. Era muito lento de se fazer, muito trabalhoso. Tínhamos cargas horárias enormes para fazer um voo de vampiro, por exemplo. A gente ficou muito cansado nesse período. Foi bastante exaustivo. No meio disso tudo, eu saí no meio de Mutantes e acertei de fazer a outra no horário, que era Poder Paralelo. O grande protagonista dessas duas novelas eram os efeitos especiais. Tanto que o que faz as pessoas lembrarem são os efeitos especiais, e não a história.”

Lucélia Santos, Gabriel Braga Nunes e Tuca Andrada no capítulo 2 de “Cidadão Brasileiro” (Foto: Reprodução/Record)
E é justamente aí que entra uma reflexão mais funda — sobre o que a televisão permite, e o que ela cobra. Essa lógica da TV nem sempre possibilita construir um personagem como o teatro ou o cinema permitem. O ator aproveita para explicar um pouco do seu método de criação — que em alguns momentos foi julgado. “Durante muitos anos eu achava que fazia mais sentido você estar de peito aberto para a experiência do trabalho do que chegar muito elaborado e acabar tendo que mudar ou jogar fora o que você tinha feito. Como uma novela é aberta, de que maneira formar um conceito se a dramaturgia está aberta? Se nem o autor tem um conceito fechado numa obra aberta, como que um ator pode chegar dizendo: ‘Meu personagem é isso’?. Era um pouco nessa linha que eu pensava televisão e novela. Quantas vezes eu quis fazer coisas diferentes e não pude… — o artista não tem tanta autonomia.”
Mas Gabriel Braga Nunes não é só novela. Há paixões que correm em paralelo há anos — e que hoje dividem a agenda com o mesmo peso. “Há cinco anos, eu tenho um show de rock que eu faço, que também era um sonho muito antigo. Eu montei uma banda e tenho um espetáculo que mistura Shakespeare com rock and roll. Eu musico sonetos do Shakespeare e faço um espetáculo de teatro que é uma mistura de poesia com rock”, conta, referindo-se ao show musical híbrido Logo a Escuridão Vem Nos Fazer Descansar. “Além do show e da peça, eu participo de um espetáculo de dança também, com a companhia Studio 3. É um espetáculo sobre a parte sinfônica da obra do Tom Jobim (1927-1994). E eu até me arrisco numa coreografia ali, de balé.”

Gabriel Braga Nunes apresenta junto com a sua banda, uma atração que remonta aos sonetos de Shakespeare (Foto: Acervo Pessoal)
Trinta anos de estrada ensinaram também o que ainda falta construir. E o desejo que ele carrega para os artistas do país é definitivo. “Eu gostaria de conseguir empreender com mais facilidade. A carreira do artista é muito estaca zero a cada ano. Isso me dá um desgosto. Tenho muito orgulho de ser um empreendedor hoje, mas é difícil nas artes você empreender — você tá sempre na estaca zero. As classes artísticas brasileiras são muito fortes, têm muita energia. A arte brasileira… é um desânimo que a gente não consiga empreender, que a gente não consiga produzir muito mais do que a gente produz. Era para ser um país muito mais produtivo na área cultural.”
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