GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela dificuldades da Globo para competir com TikTok e Kwai


O GloboPop surge como tentativa da Globo de entrar no mercado de vídeos curtos, mas entrega uma experiência desordenada e pouco funcional. Sem curadoria inicial ou personalização, o usuário se depara com um fluxo aleatório de conteúdos, reunindo vídeos diversos que não dialogam entre si. Predominam materiais reciclados, com pouca produção original e segmentação ineficaz. Falhas de usabilidade, ausência de tendências e indefinição de identidade comprometem sua relevância no ambiente digital

GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela despreparo da Globo para competir com TikTok e Kwai

*por Rodrigo Otávio

O atual momento da cena da comunicação brasileira é marcado por renovação acelerada, forte competitividade e, sobretudo, fragmentação. As plataformas de vídeo e redes sociais, como YouTube, Kwai, TikTok e Instagram, consolidaram-se ao permitir não apenas a produção e o compartilhamento de conteúdo, mas também a atuação de algoritmos sofisticados que segmentam, com relativa precisão, as preferências do usuário. Logo no primeiro acesso, esses aplicativos oferecem trilhas de interesse — política, humor, esportes, entretenimento — que ajudam a calibrar o consumo e a moldar a experiência individual. Nada disso acontece no GloboPop, plataforma de vídeos lançada pelo Grupo Globo em abril. O site HT baixou e teve uma experiência com o app – que é confuso. Já no download e após o login, não há qualquer tipo de escolha de temas ou curadoria inicial que permita ao usuário orientar o algoritmo. O resultado é uma experiência na qual o GloboPop apresenta uma sequência aleatória de vídeos, sem unidade ou coerência.

Durante a navegação, a plataforma oferece conteúdos de naturezas completamente distintas: vídeos de futebol, reportagens do G1, trechos de novelas, recortes do Jornal Nacional e conteúdos exclusivos produzidos por influenciadores.

O conteúdo não dialoga entre si, é disposto lado a lado sem critério claro e acaba dando origem a uma navegação heterogênea, em que a mistura não resulta necessariamente em uma experiência satisfatória

GloboPop (Foto: Divulgação/Globo)

Boa parte do conteúdo disponível no GloboPop é reciclada da própria Globo, enquanto apenas uma pequena parcela é de fato original, produzida por influenciadores vinculados à plataforma. Esses conteúdos são organizados em “palcos”, uma tentativa de segmentação que, na prática, não se sustenta. O do programa “Em Família” reúne conteúdos previamente exibidos no Instagram ou na televisão, e os conteúdos produzidos por influenciadores fica restrito àquele perímetro. No espaço dedicado a uma ex-participante do Big Brother Brasil, predominam vídeos reaproveitados do Gshow. Até mesmo jornalistas como Renata Vasconcellos aparecem categorizados como “influenciadores”, com páginas que, por vezes, contam com vídeos extraído de telejornais.

A ferramenta de busca também se mostra ineficaz, em razão da baixa variedade de conteúdo disponível — e, principalmente, pelo fato de que todo o material é previamente selecionado e produzido dentro do ecossistema da Globo. Não há diversidade orgânica, tampouco a possibilidade de descoberta genuína, elemento central em plataformas concorrentes.

O GloboPop não é uma rede social. É um espaço de mídia social curada, onde o público encontra conteúdos de interesse coletivo organizados com responsabilidade editorial. A experiência foi pensada para quem quer se informar, se emocionar e se divertir sem o risco de esbarrar em conteúdos impróprios ou descontextualizados – Patricia Fontes, head de produtos digitais de entretenimento.

Patrícia Fontes e Rodolfo Bastos, diretores do GloboPop (Foto: Divulgação/Globo)

Outro ponto crítico é a ausência de formatos que hoje dominam o consumo digital. As chamadas “novelinhas verticais”, extremamente populares no Kwai e no TikTok, e que a própria Globo produz, simplesmente não existem no GloboPop — o que revela uma desconexão com tendências consolidadas. Além disso, diferentemente do TikTok, o aplicativo não permite uma navegação temática intuitiva, como categorias claras de “notícias”, “humor” ou “influenciadores”. Também não é possível visualizar facilmente a duração dos vídeos nem identificar com precisão a data de publicação — falhas que comprometem a usabilidade e a transparência da experiência.

É preciso reconhecer que se trata de uma iniciativa relevante dentro de um cenário em que outras emissoras tradicionais demonstram ainda mais dificuldade. O SBT, com o +SBT, caminha a passos lentos rumo à irrelevância digital, enquanto a Record, com o RecordPlus, e a Band, com o BandPlay, permanecem presas a modelos que competem mais diretamente com o Globoplay do que com plataformas de vídeos curtos. Nesse contexto, o GloboPop ao menos tenta ocupar um espaço ainda pouco explorado por seus concorrentes diretos. porém, a tentativa da Globo de se inserir de forma mais contundente no ambiente digital por meio do GloboPop parece atabalhoada e reveladora.

GloboPop é uma plataforma da Globo (Foto: Divulgação/Globo)

Ainda assim, a plataforma sofre de um problema estrutural: tenta ser múltiplas coisas ao mesmo tempo sem conseguir consolidar nenhuma identidade. Busca reproduzir o dinamismo do TikTok e do Kwai, mas não é uma rede social – como a própria Globo afirma. Flerta com o modelo do YouTube, mas não permite a criação de conteúdo por usuários nem promove interação significativa entre eles. Falta-lhe, portanto, um eixo estruturante claro. No estado atual, a plataforma carece de ajustes significativos para se tornar relevante em um ecossistema digital que já é, por definição, altamente competitivo e exigente.

Há um esforço evidente de dialogar com novas formas de comunicação, mas a execução indica uma tentativa de “reinventar a roda” sem compreender plenamente as dinâmicas que sustentam o sucesso das plataformas nativas digitais – especialmente quando inventa uma “rede social” que não conecta, e uma plataforma de vídeos cujos concorrentes são mais interessantes.