*por Vítor Antunes
Ela chegou à televisão ainda muito menina, em Malhação, e depois viveu seu primeiro grande papel em O Beijo do Vampiro (2002–2003). A personagem da atriz mirim de 13 anos era uma vampira perspicaz e articulada, filha de Mina (Cláudia Raia), que formou um triângulo amoroso com Zeca (Kayky Brito) e Bia (Cecília Dassi), disputando o amor de Zeca com a personagem de Dassi. Hoje, Juliana Lohmann se descobre numa nova habilidade: a psicanálise. Não que tenha abandonado a primeira profissão, aquela que a fez conhecida, mas investindo num talento que sempre esteve à espreita. “Eu estou me formando em psicanálise. A primeira vez que fiz análise na minha vida foi com 11 anos. Logo no meu primeiro dia de trabalho, vivi uma situação de muita pressão e acabei achando melhor buscar uma análise, uma psicóloga. Tive uma Síndrome do Pânico. Aquilo me mudou para sempre. Minha avó paterna é psicanalista. Então, quando eu era pequenininha, ia a reuniões de psicanalistas e observava a conversa sobre temas interessantes”.
Sobre clinicar, Juliana reconhece que ainda é cedo para saber. “Estou com três caminhos que têm me deixado muito feliz e ainda não sei aonde isso vai chegar. Um é a atuação, que faço desde muito nova. O segundo é a direção de atores, que também tem sido muito legal. E há ainda o caminho da psicanálise, mais filosófico, do qual tenho gostado muito. Mas ainda estou organizando isso na minha cabeça.”

Juliana Lohmann em “O beijo do Vampiro” (foto: Divulgação/Globo/recuperada e tratada por iA)
Quanto às novelas, não há pressa — nem desejo. “Fazer novela não é minha prioridade. Acho que vivi bastante isso; foi muito importante enquanto constituição de quem eu sou. Se surgisse algum convite, talvez eu topasse, mas não é algo que procuro, não faz parte do meu desejo nesse momento. Meu lugar agora está muito mais nos estudos, na leitura, na psicanálise, na direção do que na atuação em si. Fama, novela — não fazem parte do meu desejo hoje. Encontrei outros prazeres, outras formas de contar histórias, e isso me dá mais paz interior, mais alegria, mais conexão comigo. Tudo que vivi na televisão foi bom, foi importante. Agradeço por todas as experiências — mas está longe de ser prioridade na minha vida.”
Ela pondera sobre ter trabalhado duramente quando ainda era criança: “Olhando para trás, percebo o que foi. Analisando a cabeça de uma criança dentro desse lugar de criação de personagem — e da própria fama —, é algo que realmente mexe na constituição psíquica da pessoa. Então, hoje em dia consigo perceber o quanto isso me moldou muito mais do que na época em que eu vivia isso. E havia essa particularidade do trabalho e o quanto ele ajudava lá em casa, financeiramente também. Então isso também faz parte de quem eu sou — dentro de todas as glórias e as dores.”
MAR DE DENTRO
Até o próximo dia 10 de maio, Juliana Lohmann e Carol Garcia estarão em cartaz com Animal Dentro, peça dirigida por Luiz Fernando Mário Lúbi e Érica Montanheiro. A montagem estreou no último dia 25 de abril no Teatro Artur Azevedo, no Alto da Mooca, em São Paulo. O espetáculo propõe um olhar sobre o feminino e suas subjetividades. “Tudo que faço hoje tem alguma conexão com a psicanálise, porque é o assunto que mais me tem interessado nos últimos anos. Quando eu e Carol nos reunimos para fazer esse projeto, pensamos no fato de que há uma recorrência em nos confundirem. Já vieram falar comigo achando que eu era Carol — e vice-versa. Esse lugar da perda de identidade era um assunto que eu achava interessante de trazer. Falamos também sobre amizade, sobre amizade entre duas mulheres. Queríamos fazer uma peça para quem já consome teatro, mas principalmente para quem não consome. Fomos tecendo essa ideia da amizade entre essas duas mulheres que vai se desenvolvendo ao longo do tempo. O que há na nossa amizade, ali, é o nosso jogo cênico. A gente começou a escrever e, de repente, quando percebemos, já havíamos escrito um monte de coisa.”
A atriz aponta que a escrita sempre foi presença constante em sua vida. “Eu sempre amei ler e gostava muito de escrever. Tinha muito esse desejo de escrever as minhas coisas. Mas a gente vai ficando mais velho — e eu fui perdendo um pouco essa intimidade com a escrita, deixando mais de lado, ficando só na leitura. Agora, com esse espetáculo, sinto que recuperei isso. Foi muito gostoso voltar a escrever.”

Juliana Lohmann aponta que ainda há muito espaço para ser conquistado pelas mulheres (Foto: Bre Quevedo)
Ela observa que ainda há muito espaço a ser conquistado pelas mulheres. “A gente ainda tem muito poucas mulheres escrevendo, dirigindo, tendo controle sobre projetos artísticos. Acho que avançamos bastante, mas nem de longe chegamos onde precisamos. Dentro do lugar do feminino há vários recortes interseccionais — de classe, gênero e cor. Falando da perspectiva de uma mulher branca, de classe média, acredito que houve um grande avanço. Mas ainda sinto que é muito raro — e mais ainda quando se trata de outros gêneros, outras classes, outras cores. Tenho trabalhado muito em equipes de direção e, na maioria das vezes, essas equipes são majoritariamente masculinas. Quando há uma diretora, uma mulher, sinto que é realmente mais desafiador para ela sustentar aquele lugar de autoridade — justamente porque, ao redor, os homens têm dificuldade de ceder esse espaço.”
A gente ainda tem que arregaçar muito essa manga e e continuar. Porque realmente não são as mulheres que ganham mais. Há toda uma estrutura e caminho pela frente a percorrer – Juliana Lohmann
A uma mulher cujo ofício tem como matéria-prima a emoção, nada mais justo que perguntar: o que a emociona? “O humano me emociona — no sentido de entender o que leva uma pessoa, ou um personagem, a ser da maneira que é. Entender a subjetividade de cada um, entender sua história de acordo com sua cultura, seu tempo, sua época, sua idade, todas essas interseccionalidades que mencionei antes — entender a posição do sujeito no mundo. Isso me emociona tanto na psicanálise quanto na atuação. Estar em cena investigando isso, e também ver bons atores fazendo magistralmente isso: traduzir no corpo uma subjetividade inteira. É tão interessante, acho tão bonito — isso me emociona muito, muito.”

Juliana Lohmann está mais voltada à psicanálise (Foto: Bre Quevedo)
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