Episódios com Rafa Kalimann, Juliano Cazarré e a crise masculina: por que tantos homens estão emocionalmente perdidos?


Entre o relato de solidão emocional vivido por Rafa Kalimann na gravidez e o debate provocado por Juliano Cazarré sobre ‘resgate da masculinidade’, pensamos sobre o colapso das referências masculinas contemporâneas, a dificuldade de muitos homens em lidar com vulnerabilidade, intimidade e presença afetiva, e como discursos sobre virilidade, desinformação e ressentimento social atravessam a crise masculina atual. A psicóloga Luiza Scarpa colabora com reflexões sobre masculinidade, maternidade, narcisismo, fragilidade emocional e os impactos de uma educação patriarcal que ensinou homens a reprimir emoções, mas não a sustentar relações afetivas maduras

*Por Brunna Condini

Entre o desabafo íntimo de Rafa Kalimann sobre a solidão emocional na reta final da gravidez e a repercussão do curso ‘O Farol e a Forja’, idealizado por Juliano Cazarré, existe um fio invisível que conecta dois dos debates atuais mais delicados e urgentes sobre comportamento: o colapso das referências masculinas e a redefinição do que significa ser homem hoje. Embora estejam em lados aparentemente opostos da conversa pública — ela expondo uma experiência afetiva real; ele propondo um modelo de reconstrução masculina — ambos os episódios falam, no fundo, de homens que ainda precisam aprender a transformar presença em cuidado, parceria e troca genuína. A discussão da reconstrução da masculinidade pede a criação de novas formas de existência que sejam saudáveis e afetivas.

O debate ganhou novas camadas após a participação de Cazarré em um programa da GloboNews ao lado da psicanalista Vera Iaconelli e do consultor em equidade de gênero e raça Ismael dos Anjos. Durante a conversa, Vera apontou justamente o risco de uma masculinidade que ainda associa valor masculino apenas à força, liderança e autoridade, sem desenvolver maturidade emocional, escuta e corresponsabilidade afetiva. Cazarré defendeu a necessidade de fortalecer homens que, segundo ele, estariam “perdidos” diante das mudanças sociais contemporâneas. Talvez o ponto mais revelador desse embate seja perceber que os dois discursos partem de diagnósticos semelhantes: homens emocionalmente desorientados. Mas chegam a respostas diferentes. Enquanto Vera Iaconelli sugere que a crise masculina exige revisão profunda das estruturas emocionais ensinadas aos homens desde a infância, Cazarré aposta no resgate de referências tradicionais de liderança, espiritualidade e virilidade.

No meio dessa disputa simbólica, o relato de Rafa Kalimann parece funcionar quase como um estudo de caso involuntário da vida real. Porque a dor que ela expôs no documentário ‘Tempo para amar‘, do Globoplay, não nasce necessariamente da ausência física masculina, mas da emocional. Do homem, que muitas vezes, não consegue dividir o peso íntimo da vulnerabilidade, do medo e das transformações que o casal atravessa. Um comportamento masculino normalizado, relativizado e até aplaudido socialmente.

A psicóloga Luiza Scarpa acredita que talvez seja exatamente por isso que o relato tenha provocado tanta identificação coletiva. “Esse desabafo pode ter tocado tanta gente porque revela uma experiência muito contemporânea, que é basicamente a de estar acompanhada e ainda assim profundamente só”. E diz que trata-se menos de abandono concreto e mais da sensação de falta de “amparo simbólico, presença afetiva, alguém capaz de sustentar junto a angústia que uma gestação mobiliza”. E isso, segundo a especialista, continua sendo pouco legitimado socialmente.

Durante muito tempo, isso foi tamponado por aquele ideal da maternidade como algo lindo, divino, maravilhoso. Mas a maternidade também é de uma profunda angústia – Luiza Scarpa

Rafa Kalimann expôs uma solidão que ultrapassa a gravidez e ajuda a revelar a crise emocional masculina em um mundo onde presença já não basta (Foto: Reprodução/Globoplay)

Rafa Kalimann expôs uma solidão que ultrapassa a gravidez e ajuda a revelar a crise emocional masculina em um mundo onde presença já não basta (Foto: Reprodução/Globoplay)

Scarpa lembra que a chegada de um filho costuma desmontar estruturas emocionais profundamente arraigadas. “A mulher deixa de ocupar apenas o lugar de parceira e passa a viver transformações físicas, psíquicas e simbólicas muito profundas. O corpo muda, existe um desconhecimento do próprio funcionamento, inclusive esteticamente. Surgem expectativas, medos, questões sobre que mãe ela quer ser para a criança”. Mas a gravidez também desloca homens, ainda que muitos não consigam nomear o que sentem. “A masculinidade nunca foi uma posição tão sólida quanto parece. Ela é muito mais imaginária. E justamente por precisar parecer tão sólida, acaba exigindo confirmação contínua, performance, reconhecimento”, analisa. Talvez por isso tantas masculinidades entrem em crise diante de experiências que escapam ao controle:

A presença emocional exige tolerar desamparo. E muitos homens foram subjetivamente organizados para fugir disso – Luiza Scarpa

Debate sobre masculinidade

E talvez seja exatamente aí que o debate sobre masculinidade se torne mais complexo do que a polarização das redes sociais permite enxergar. O problema já não parece ser apenas o homem autoritário do passado, mas também o homem emocionalmente imaturo do presente, tantas vezes incapaz de sustentar relações, paternidades conscientes e vínculos afetivos adultos e consistentes. Durante muito tempo, a ideia de que ser homem significava prover, proteger e suportar foi construída por estruturas patriarcais, necessidades históricas de sobrevivência e valores culturais e religiosos que colocavam o homem como chefe, defensor e sustentador da família. A masculinidade passou, então, a ser associada à força, liderança e capacidade de suportar dores e pressões sem demonstrar fragilidade, modelo que deixou marcas e consequências até hoje.

“Muitos homens cresceram em um regime emocional em que intimidade profunda era vivida quase como uma ameaça narcísica”, explica a psicóloga. “Falar de medo, dependência, insegurança ou fragilidade podia ser percebido como feminização, perda de potência, humilhação. Mas isso é profundamente humano”. Muitos cresceram ouvindo que vulnerabilidade diminui autoridade, que fragilidade é fraqueza e que cuidar emocionalmente seria um território quase exclusivamente feminino. Não é. Nunca deveria ter sido.

Rafa Kalimann e o cantor Nattan no no documentário 'Tempo de Amar' do Globoplay (Foto: Reprodução/Globoplay)

Rafa Kalimann e o cantor Nattan no no documentário ‘Tempo de Amar’ do Globoplay (Foto: Reprodução/Globoplay)

Mas o século XXI desmontou parte dessas estruturas. As mulheres passaram a ocupar outros espaços, as relações se tornaram mais horizontais e a figura do homem emocionalmente distante começou a ser questionada. Hoje, espera-se também presença afetiva, participação real, escuta e maturidade emocional. É justamente nesse ponto que muitos homens parecem viver uma espécie de desencontro histórico. “Os homens estão realmente emocionalmente desorientados, sem referências simbólicas claras”, frisa Luiza. “Eles cresceram sob um modelo patriarcal imaginariamente estável: o homem provedor, forte, racional, silencioso, que não pode chorar. Só que esse modelo já está em colapso há muito tempo”.

O problema é que muitos homens chegaram à vida adulta sem repertório para isso. Não aprenderam a nomear emoções, a lidar com frustração afetiva, a pedir ajuda ou a construir vínculos sem recorrer à fuga ou à rigidez. E, diante dessa ausência de ferramentas emocionais, parte deles oscila entre dois extremos: ou tenta se agarrar a modelos tradicionais de masculinidade, ou se sente perdido sobre como existir nas novas dinâmicas afetivas.

Essa queda produz efeitos muito ambíguos. Por um lado, abre espaço para que homens falem das suas dores, da paternidade, da saúde mental, da fragilidade. Por outro, produz uma angústia narcísica muito intensa. E quando o narcisismo entra em crise, surgem movimentos defensivos perigosos – Luiza Scarpa

‘Resgate da masculinidade’

Talvez por isso discursos sobre ‘resgate da masculinidade’ encontrem tanto eco atualmente. Eles falam diretamente com homens que sentem ter perdido referências em um mundo em transformação. A questão, é que, muitas vezes, parte dessas narrativas ainda reage às mudanças sociais tratando sensibilidade, escuta e igualdade como ameaças à masculinidade, e não como possibilidades de expansão dela. “Não dá para voltar ao modelo dos anos 1950. A sociedade mudou, as mulheres mudaram, e esse modelo não funcionou”, aponta a terapeuta.

Não podemos demonizar os homens, mas também não dá para idealizar uma suposta essência masculina perdida que precisa ser resgatada – Luiza Scarpa

Juliano Cazarré fala na Globonews e defende encontro para homens (Foto: Reprodução/GloboNews )

Juliano Cazarré fala na Globonews e defende encontro para homens (Foto: Reprodução/GloboNews )

A compreensão atual das ciências sociais, da psicologia e dos estudos de gênero aponta justamente para esse ponto: quando homens são educados a associar masculinidade à autoridade e à repressão emocional, a agressividade frequentemente passa a ocupar o lugar da vulnerabilidade. É nesse terreno que se estruturam não apenas violências explícitas, mas também formas sutis de controle, desigualdade e silenciamento dentro das relações. Scarpa chama atenção para um aspecto particularmente delicado desse processo: a incapacidade de alguns homens de permanecerem emocionalmente presentes diante da dor do outro. “Quanto mais o outro precisa da presença afetiva, mais alguns homens se ausentam subjetivamente”, observa. “E não necessariamente porque não amem, mas porque a vulnerabilidade do outro convoca a própria vulnerabilidade que eles passaram a vida inteira tentando recalcar”.

Por isso o debate contemporâneo sobre masculinidade seja tão urgente. Não se trata de ‘enfraquecer’ homens, mas de construir modelos masculinos mais saudáveis, emocionalmente funcionais e capazes de viver relações baseadas em corresponsabilidade.

As mulheres passaram a demandar não apenas parceria funcional, que é o mínimo, mas reconhecimento subjetivo do que vivem e sentem. Não basta mais estar ao lado; é preciso presença psíquica – Luiza Scarpa

Juliano Cazarré e Vera Iaconelli em debate na Globonews (Foto: Reprodução/GloboNews )

Juliano Cazarré e Vera Iaconelli em debate na Globonews (Foto: Reprodução/GloboNews )

Possivelmente, a crise contemporânea da masculinidade não seja apenas sobre homens. Mas sobre a incapacidade coletiva de transmitir afeto, responsabilidade emocional e maturidade relacional como valores humanos, e não exclusivamente femininos. No fim, entre o relato de solidão de Rafa Kalimann e o projeto ideológico de Juliano Cazarré, emerge uma pergunta inevitável: o que faz um homem hoje? Talvez o maior desafio contemporâneo para os homens seja a inteireza diante da intimidade, da vulnerabilidade e da responsabilidade emocional que toda relação exige. E para isso, precisam romper o pacto de silêncio que perpetua desigualdades, rever privilégios e assumir responsabilidade na construção de masculinidades mais saudáveis, maduras e conscientes.

Entre a vulnerabilidade masculina e a reação às mudanças

Nos últimos dias, o debate sobre masculinidade ganhou contornos ainda mais delicados ao misturar sofrimento emocional legítimo, disputas narrativas e desinformação. Após relatar a solidão emocional vivida na gravidez, Rafa Kalimann defendeu Nattan ao afirmar que o cantor cresceu sem referência paterna, trazendo à tona uma questão real: muitos homens foram formados dentro de estruturas afetivas frágeis, sem aprender intimidade emocional, escuta ou elaboração de sentimentos. Mas existe um risco perigoso em transformar explicação em ‘absolvição’. Compreender a origem de determinadas dificuldades masculinas não pode significar normalizar ausências, negligências emocionais ou discursos violentos.

O debate envolvendo Juliano Cazarré ampliou essa tensão. Após críticas sobre o uso de dados distorcidos em discussões sobre violência de gênero, reacendeu-se uma questão central do nosso tempo: como acolher vulnerabilidades masculinas sem transformar frustração emocional em ressentimento social ou reação às mudanças provocadas pelas mulheres e pelas novas dinâmicas afetivas? No fundo, talvez a grande crise contemporânea esteja justamente aí: muitos homens foram ensinados a existir sem repertório emocional, mas agora precisam correr atrás do prejuízo. Mãos à obra! Porque tudo se aprende.