Kleber Montanheiro revisita legado de Gal Costa nos palcos e critica dependência brasileira de musicais estrangeiros


Diretor de “Gal — O Musical”, Kleber consolidou-se como um dos principais nomes do teatro contemporâneo ao unir direção, figurino e pesquisa estética em torno do legado de Gal Costa. Em entrevista, ele defende a valorização do musical brasileiro autoral e critica a dependência de modelos estrangeiros: “O futuro do musical no Brasil também depende da nossa capacidade de produzir narrativas sobre nós mesmos”. O artista também revisita o Teatro de Revista através da Cia. da Revista, resgatando o gênero como ferramenta crítica e popular. Para Kleber, o teatro segue sendo um espaço potente de intervenção política, memória e construção de pensamento coletivo

*por Vítor Antunes

Ele é um dos grandes nomes do teatro contemporâneo e vem sendo reconhecido por seu trabalho como diretor musical. Um dos seus mais recentes sucessos é Gal — O Musical, montagem que revisita a carreira de Gal Costa (1945–2022). Em um cenário dominado por adaptações de musicais estrangeiros, Kleber Montanheiro acredita que ainda há entraves para a consolidação de obras autorais brasileiras. “Existem entraves, principalmente estruturais. O musical estrangeiro já chega com uma validação de mercado muito forte: títulos conhecidos, músicas reconhecidas pelo público, modelos de produção consolidados e uma percepção de segurança comercial. Isso naturalmente influencia investidores, patrocinadores e até mesmo a expectativa do público. Mas acho importante dizer que o problema não está nas adaptações. Elas têm uma importância enorme para a formação de artistas, técnicos e público. O Brasil desenvolveu uma excelência muito grande na produção de musicais a partir desse contato com a Broadway e outros modelos internacionais. A questão é quando isso se torna a única referência possível de legitimidade.”

E analisa: “Talvez o que falte seja compreender o musical brasileiro não como uma tentativa de reproduzir um modelo estrangeiro, mas como uma linguagem própria. Quando um trabalho nasce a partir da nossa música, das nossas contradições sociais, da nossa oralidade e da nossa forma de construir cena, ele deixa de ser ‘uma versão menor’ de algo e passa a ocupar um lugar autoral. Tenho muito interesse nessa pesquisa — em pensar um teatro musical brasileiro que dialogue com o mercado, com o público e com a sofisticação técnica contemporânea, mas que preserve identidade cultural e pensamento artístico. Porque acredito que o futuro do musical no Brasil também depende da nossa capacidade de produzir narrativas sobre nós mesmos.”

O musical brasileiro autoral ainda enfrenta um desafio de confiança. Existe uma tendência histórica de acreditar que aquilo que vem de fora já nasce maior ou mais sofisticado. E eu discordo profundamente disso. O Brasil possui uma potência musical, dramatúrgica e imagética imensa. Nossa relação com a música é estrutural. Ela atravessa o cotidiano, a política, a memória afetiva e a própria formação cultural do país – Kleber Montanheiro

Kleber Montanheiro é um dos nomes do teatro moderno brasileiro (Foto: Divulgação)

… CORRESPONDER-SE COM UM RAPAZ QUE SEJA O TAL

O artista assina a direção e o figurino do espetáculo que homenageia Gal Costa, e fala como se deu o processo de criação — e a relação com a família da homengeada para a liberação da montagem. “O projeto nasce dentro dessa estrutura, com um cuidado muito grande em relação ao legado artístico e humano da Gal. Uma das diretoras da Paris Entretenimento é Marília Toledo, que além disso é minha parceira artística na direção de Gal. O projeto é dela, e fui convidado por ela para dividir essa direção, além de assinar também os figurinos do espetáculo. Desde o início, o processo foi conduzido com muito respeito à complexidade da Gal como artista. Não se trata apenas de reconstruir uma trajetória biográfica, mas de compreender a dimensão estética, política e cultural que ela representa na música brasileira. A própria relação com a família passa por esse entendimento de preservação e continuidade de um legado extremamente importante para a nossa cultura.”

Ele detalha sobre como se deu o processo criativo: “No meu caso específico, direção e figurino acabam dialogando de maneira muito integrada. O figurino não aparece como ilustração de época, mas como construção dramatúrgica da imagem. Gal sempre teve uma relação muito sofisticada com moda, comportamento, tropicalismo, contracultura e invenção visual. Então o trabalho nasce desse encontro entre pesquisa histórica, elaboração cênica e uma leitura contemporânea da artista. É um processo grande, muito detalhado, e ao mesmo tempo bastante emocional, porque estamos falando de uma figura que atravessa não apenas a história da música brasileira, mas também a memória afetiva de várias gerações.”

Para este ano, o diretor pretende dar continuidade à turnê de Gal. “A ideia é seguir com as temporadas — um projeto que ainda tem um caminho muito forte pela frente, tanto pela dimensão artística quanto pela relação afetiva que o público tem com a obra da Gal Costa. Ao mesmo tempo, sigo aprofundando uma pesquisa que me acompanha há muitos anos: a construção de uma linguagem para o teatro musical brasileiro, principalmente no campo autoral. Tenho um interesse muito grande em pensar o musical não apenas como formato de entretenimento, mas como uma ferramenta de leitura cultural do Brasil, onde música, dramaturgia, imagem e direção constroem pensamento em cena. Também já tenho fechada a direção de um musical americano e de um musical original brasileiro. São trabalhos bastante diferentes entre si, mas que dialogam diretamente com essa investigação artística que venho desenvolvendo nos últimos anos.”

Kleber Montanheiro sugere que haja um teatro que retrate melhor a brasilidade (Foto: Divulgação)

OBA!

Boa parte dos espetáculos de Teatro de Revista encerrava assim — com um “Oba!” celebrativo. O gênero sempre foi um retrato muito direto do Brasil. Kleber estimulou o nascimento da Cia. da Revista, que surgiu de uma pesquisa aprofundada sobre essa linguagem. Como atualizar o gênero hoje, considerando que, embora essencialmente brasileiro, o Brasil sempre o tratou como menor? “Talvez justamente por isso ele tenha sido, durante muito tempo, visto dessa forma. Existe uma tradição no nosso pensamento cultural de valorizar aquilo que se aproxima de uma ideia de ‘alta cultura’, enquanto linguagens populares, híbridas, musicais e irreverentes acabam sendo tratadas de maneira superficial. Mas o Teatro de Revista nunca foi superficial. Ele falava sobre política, comportamento, desejo, poder, classe social e atualidade com uma velocidade que poucos gêneros conseguiam acompanhar”.

O diretor, então, explica que a ideia de trazer de novo à tona o teatro de Revista era atualizá-lo e não repetir uma fórmula idêntica do passado. “A pesquisa da Cia. da Revista nasce exatamente dessa tentativa de revisitar essa linguagem sem transformá-la em peça de museu. O nosso interesse nunca foi reproduzir uma estética antiga de maneira nostálgica, mas compreender a estrutura do gênero e perceber como ela ainda pode dialogar com o presente. A fragmentação narrativa, a relação direta com o público, o humor como crítica, a música como comentário político e a convivência entre o popular e o sofisticado continuam extremamente contemporâneos. Ao longo desses anos, fomos aproximando essa pesquisa de outras linguagens — do musical contemporâneo, da dramaturgia brasileira, da cultura pop, da cena performativa, da construção imagética e da própria discussão sobre identidade brasileira”.

A atualização do Teatro de Revista passa justamente por entender que ele nunca foi apenas entretenimento. Ele sempre foi um mecanismo de leitura do país. E talvez exista algo importante nisso hoje: revisitar um gênero brasileiro sem a necessidade de legitimá-lo a partir de referências estrangeiras. Entender que nossa linguagem popular também produz sofisticação, pensamento crítico e elaboração estética complexa – Kleber Montanheiro

Kleber dialoga frequentemente com questões sociais contemporâneas. Para ele, o teatro ainda é uma ferramenta eficaz de intervenção política. “Ele talvez seja uma das poucas linguagens que ainda preservam uma experiência coletiva real. E isso, por si só, já é profundamente político hoje. Não apenas pelo conteúdo de um espetáculo, mas pela possibilidade de reunir pessoas no mesmo espaço, no mesmo tempo, diante de uma experiência que exige presença, escuta e confronto de ideias. A potência política da cena não está em oferecer respostas prontas ou confirmar discursos, mas em criar deslocamentos. Em provocar pensamento. Em tensionar percepções que muitas vezes chegam cristalizadas pelo excesso de informação e pela velocidade do nosso tempo. Quando penso em trabalhos como Tatuagem, Cabaret, Nossos Ossos ou mesmo em projetos mais recentes, existe sempre um interesse em discutir o indivíduo dentro de estruturas maiores: o corpo político, a liberdade, o desejo, a memória, a violência simbólica, os mecanismos de exclusão e pertencimento. Mas isso nunca aparece separado da linguagem. A política também está na forma. Está na maneira como a música opera dramaturgicamente, como a cenografia organiza o olhar, como a imagem constrói discurso. O teatro continua sendo uma ferramenta de intervenção porque ele ainda produz experiência sensível. E talvez seja justamente isso que falte hoje: menos opinião imediata e mais capacidade de elaborar pensamento através da experiência humana.”

Kleber Montanheiro redefiniu o tetro de revista para a contemporaneidade (Foto: Divulgação)

Entre pesquisas, partituras, figurinos e discursos sobre identidade cultural, Kleber segue construindo um teatro que se recusa a existir apenas no palco. Seu trabalho atravessa memória, política, música e imagem como quem tenta decifrar o próprio Brasil em cena — um país contraditório, popular, sofisticado e profundamente musical. Ao revisitar linguagens historicamente subestimadas, como o Teatro de Revista, e ao defender a potência autoral do musical brasileiro, ele reafirma a arte como espaço de elaboração coletiva e permanência. Porque o teatro acontece no instante, mas não termina nele. Ele segue existindo na memória, nos registros e nas leituras que se constroem ao redor do trabalho. E talvez seja justamente aí que resida sua força mais duradoura: na capacidade de continuar ecoando muito depois do último aplauso.