SENAI CETIQT: análise sobre o ‘Conecta Indústria: Confecção 360º’ e a integração entre gestão, inovação e produtividade


Promovido pelo SENAI CETIQT, o evento “Conecta Indústria: Confecção 360º” reuniu empresários, especialistas e profissionais do setor em torno de debates voltados à qualificação produtiva da indústria de confecção brasileira. Estruturada a partir de palestras e trocas de experiências, a iniciativa evidenciou a crescente necessidade de integração entre gestão, inovação e eficiência operacional no segmento. Na abertura, o gerente do Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e de Confecção (IST), Bernardo Barbosa, ressaltou o compromisso institucional do SENAI CETIQT com o desenvolvimento de soluções alinhadas às demandas contemporâneas da cadeia têxtil e de confecção. Ao longo da programação, temas como modelagem estratégica, redução de retrabalho, reorganização de processos produtivos, aumento de produtividade e valorização do fator humano foram apresentados como elementos centrais para a competitividade industrial

No Brasil, falar da cadeia têxtil e de confecção é lançar luz sobre uma estrutura produtiva que sustenta milhões de empregos, movimenta R$ 215 bilhões por ano e permanece como uma das poucas cadeias industriais completas do Ocidente: da fibra ao varejo. E existe um fenômeno profundo acontecendo na indústria de confecção: a transformação do vestuário em ativo cultural e econômico. A moda contemporânea deixou de responder apenas à lógica estética para operar dentro de um sistema de símbolos, pertencimento e comportamento social. Isso altera radicalmente a dinâmica das confecções. Hoje, não basta fabricar; é preciso interpretar desejo, antecipar tendências, produzir significado e operar velocidade emocional, entre tantos outros pontos importantíssimos. Nesse cenário, o setor passa a disputar atenção em um mercado onde algoritmos, redes sociais e plataformas digitais influenciam diretamente os ciclos produtivos.

Em um momento em que a indústria de confecção brasileira tenta equilibrar produtividade, inovação, sustentabilidade e sobrevivência econômica diante das pressões globais do fast fashion, encontros como o Conecta Indústria: Confecção 360º, promovido pelo SENAI CETIQT, evidenciam a importância de reconstrução estratégica de um setor que compreende, cada vez mais, que eficiência industrial deixou de ser apenas questão operacional para se tornar inteligência sistêmica. Envolve inteligência de processos, organização industrial, ergonomia produtiva, qualificação humana, dados, comportamento de consumo e capacidade estratégica de adaptação como pilares inseparáveis da competitividade contemporânea.

O próprio formato do evento Conecta Indústria revela uma mudança significativa na forma como o setor de confecção começa a pensar seu presente e futuro: 360 graus. A integração entre empresários, consultores, estudantes e especialistas aponta para o entendimento de que inovação não nasce mais de setores isolados, mas da circulação contínua de conhecimento entre formação técnica, pesquisa aplicada e experiência prática de mercado. A programação foi estruturada em três momentos centrais, com foco em conteúdos aplicáveis à realidade das empresas e no fortalecimento da produtividade, da qualidade e da gestão industrial.

Conecta Indústria: Confecção 360 graus (Foto: Divulgação)

Conecta Indústria: Confecção 360 graus (Foto: Divulgação)

Os números recentes da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) ajudam a compreender a dimensão desse desafio. Enquanto o segmento têxtil cresceu 6,8% em 2025, a confecção avançou apenas 0,7%, revelando um descompasso importante dentro da própria cadeia produtiva. Essa diferença revela gargalos relacionados à gestão operacional, modelagem, desperdício, retrabalho, qualificação técnica e baixa integração tecnológica em grande parte das confecções nacionais.

O debate contemporâneo sobre confecção não pode mais ser separado da discussão sobre trabalho, rastreabilidade e sustentabilidade. A roupa barata globalizada frequentemente esconde cadeias invisíveis de exploração de trabalho e impactos ambientais severos. Nesse contexto, a indústria brasileira tenta reconstruir sua legitimidade econômica associando produção à responsabilidade socioambiental. Os indicadores recentes sobre sustentabilidade mostram uma tentativa clara de reposicionamento estratégico. Esse movimento é ambiental, mas também mercadológico. Em um mercado saturado por excesso de produto, rastreabilidade e responsabilidade passam a funcionar como diferenciais competitivos. Outro aspecto decisivo é o impacto social da confecção no mercado de trabalho brasileiro.

Como sempre pontuo e aqui reitero, o consumidor contemporâneo não compra apenas roupa; compra narrativa, pertencimento e posicionamento simbólico. A indústria de confecção passa então a disputar não apenas mercado, mas imaginário coletivo. A peça de roupa se converte em linguagem política, estética e identitária. Nesse ambiente, criatividade deixa de ser acessório da indústria e passa a ocupar o centro da cadeia de valor.

CONECTA INDÚSTRIA-CONFECÇÃO 360º E IST

A abertura conduzida por Bernardo Barbosa, gerente do Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e de Confecção (IST), enfatizou o papel estratégico do IST para o fortalecimento da indústria de confecção brasileira ao atuar diretamente no desenvolvimento tecnológico e na inovação. Reconhecido como um dos maiores centros latino-americanos de produção de conhecimento aplicado aos setores têxtil e de confecção, o SENAI CETIQT reúne estrutura laboratorial, pesquisa aplicada e serviços tecnológicos voltados às necessidades reais da indústria. Quando instituições como o SENAI CETIQT aproximam pesquisa aplicada das necessidades reais do mercado, elas assumem um papel estratégico e tornam-se mediadoras da modernização industrial brasileira.

Bernardo Barbosa, gerente do Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e de Confecção (IST)

Bernardo Barbosa, gerente do Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e de Confecção (Foto: Divulgação)

Conforme você pode conferir, no site do SENAI CETIQT, por meio do IST, empresas do setor têm acesso a consultorias técnicas, ensaios laboratoriais, avaliação da qualidade de materiais e produtos, otimização de processos produtivos, adequação de modelagem e vestibilidade, além de suporte em temas ligados à sustentabilidade, inovação, indústria 4.0 e eficiência operacional.

Os laboratórios do IST possuem infraestrutura moderna e equipe técnica qualificada, o que possibilita a realização dos serviços metrológicos de ensaios físicos e químicos em materiais têxteis, medições colorimétricas e calibrações de instrumentos óticos alinhadas aos avanços tecnológicos da cadeia têxtil, confecção, moda e afins. Como diferencial, os laboratórios possuem rastreabilidade a laboratórios nacionais e internacionais. O portfólio integrado de consultorias do IST tem como objetivo fortalecer o desenvolvimento sistêmico do segmento industrial. Apresenta soluções que partem da criação chegando até a comercialização dos produtos, focadas na redução de custos de projeto e na melhoria do desempenho de processos e produtos.

MODELAGEM COM QUALIDADE

A palestra da consultora Patricia Dinis, designer de moda e responsável pela pesquisa SIZEBR –  Pesquisa de Caracterização Antropométrica Brasileira (SIZEBR) com o mapeamento da diversidade dos corpos da população brasileira -,  teve como tema “Modelagem com qualidade: como reduzir o retrabalho e ganhar qualidade na confecção“. Foi extremamente elucidativa sobre um dos pontos sensíveis da cadeia de confecção: a modelagem como núcleo importante da produtividade industrial. Frequentemente reduzida ao campo criativo ou técnico-operacional, a modelagem exerce influência direta sobre custos, escalabilidade, ergonomia, experiência do consumidor e eficiência fabril. Em uma indústria marcada historicamente por altos índices de retrabalho, desperdício têxtil e falhas de encaixe, discutir qualidade de modelagem significa discutir sustentabilidade econômica. Cada erro técnico dentro de uma modelagem gera um efeito cascata que atravessa corte, costura, prova, logística e devolução de produto.

Conheço o trabalho de Patricia Dinis e o SIZEBR dialoga com um país que possui uma das populações corporalmente mais diversas do mundo, marcada por intensas miscigenações regionais e diferentes estruturas físicas. Ainda assim, grande parte da indústria nacional continua trabalhando com tabelas de medidas limitadas ou insuficientemente atualizadas. Isso produz um efeito silencioso sobre consumo, logística reversa e experiência do cliente. A roupa que não veste adequadamente deixa de ser apenas um problema ergonômico para se tornar um problema econômico e simbólico.

Consultora Patricia Dinis, designer de moda e responsável pela pesquisa SIZEBR -  Pesquisa de Caracterização Antropométrica Brasileira

consultora Patricia Dinis, designer de moda e responsável pela pesquisa SIZEBR –  Pesquisa de Caracterização Antropométrica Brasileira

A pesquisa de campo abrangeu todo o Brasil, mensurando em torno de 10 mil pessoas, entre 18 e 65 anos, nas cinco regiões do país, percorrendo 16 estados e 27 cidades. Para a realização das medições foi necessário organizar um intenso e estruturado programa de treinamento para a equipe, e montar uma delicada logística para que o 3D Body Scanner pudesse viajar pelo país. No caso das mulheres, os biotipos são retângulo, ampulheta, colher, triângulo e triângulo invertido. A pesquisa traz ainda dados sobre a predominância dos tipos físicos na amostra tomada. De acordo com o estudo, 76% são do tipo retângulo, 8% são triângulo, 6% são ampulheta, 5% são colher e 5% são triângulo invertido. A partir daí pode-se tomar padrões de medidas para busto, cintura, quadril e quadril alto. Patricia já frisou em outros encontros:

A construção de modelagem é muito importante e estratégica para uma marca porque, a partir do momento em que o consumidor vê uma roupa e ela agrada visualmente – o primeiro impacto é na vitrine, seja física, seja virtual –, e decide fazer a prova daquela peça, o seu desejo é que ela vista bem tal como visualizou na vitrine. A marca que consegue trabalhar a vontade de concretizar esse desejo, ganha um cliente fiel. Se aliar estética com uma boa modelagem, o cliente vai permanecer na marca a vida toda – Patricia Dinis

Em uma indústria de confecção cada vez mais pressionada por eficiência produtiva, redução de desperdícios, fidelização de consumo e adequação às transformações do comportamento corporal contemporâneo, a modelagem deixou de ocupar um lugar meramente técnico dentro da cadeia produtiva para assumir posição estratégica no desenvolvimento industrial da moda. A fala da consultora Patrícia Dinis evidencia precisamente essa mudança de paradigma ao defender que a modelagem deve ser compreendida não apenas como ferramenta de construção estética, mas como eixo estruturante da competitividade das empresas de vestuário.

CONSULTORIA DO SENAI CETIQT E REALIDADES DO SETOR

O evento seguiu com uma roda de conversa com empresários atendidos pelo programa Brasil Mais Produtivo, que oferece oportunidade para as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) de todos os estados aumentarem sua produtividade, reduzirem custos operacionais e impulsionarem o faturamento. Por meio da transformação digital e da melhoria de processos e gestão, as empresas participantes conseguem otimizar suas operações e economizar recursos, gerando resultados financeiros expressivos.

Roda de Conversa durante o 'Conecta Indústria: Confecção 360 graus'

Roda de Conversa durante o ‘Conecta Indústria: Confecção 360 graus’

Os empresários como Viviane Magalhães, da Íres Confecção (Nova Friburgo), Joyce Mendes, da Brilho e Bronze, e Matheus Guardiano, da Grillus Confecção compartilharam os desafios enfrentados no dia a dia e os avanços conquistados a partir da consultoria do SENAI CETIQT, evidenciando, na prática, os resultados do programa, como reorganização de processos, melhor aproveitamento de recursos e maior controle produtivo. Há um aspecto estrutural particularmente relevante nesse contexto: em grande parte das empresas de confecção, os ganhos mais significativos de competitividade não decorrem, necessariamente, de grandes investimentos industriais, mas da reconfiguração dos processos produtivos e organizacionais.

FATORES PSICO E SOCIOMOTIVACIONAIS NAS EMPRESAS

A palestra conduzida pelo consultor Luiz Leão com o tema “A lacuna invisível na confecção industrial” ampliou ainda mais essa discussão ao abordar o impacto dos fatores psico e sociomotivacionais na produtividade industrial. Esse talvez seja um dos pontos da transformação contemporânea da indústria de confecção. Historicamente, o setor foi construído sobre uma lógica industrial extremamente mecanizada, onde produtividade era frequentemente associada apenas a ritmo, repetição e volume. A discussão sobre aspectos psico e sociomotivacionais representa uma mudança importante de mentalidade. Hoje, empresas compreendem que clima organizacional, pertencimento, reconhecimento e estabilidade emocional possuem impacto direto sobre eficiência, qualidade e retenção de talentos.

Luiz Leão e o tema “A lacuna invisível na confecção industrial” (Foto: Divulgação)

Luiz Leão e o tema “A lacuna invisível na confecção industrial” (Foto: Divulgação)

Em outubro do ano passado, o SENAI CETIQT também nos proporcionou uma imersão no universo de possibilidades sobre a relação entre felicidade e ambiente de trabalho, com ênfase na promoção do bem-estar nas organizações. Este foi o ponto central do 1º Fórum Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho, evento voltado a líderes empresariais, profissionais de Recursos Humanos e gestores de sustentabilidade, com o propósito de analisar como é possível construir ambientes corporativos mais saudáveis, humanos e sustentáveis – temática que assume caráter primordial diante das transformações e os desafios contemporâneos.

Antropólogo e gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável da instituição, Marcelo Ramos conduziu o encontro de um projeto sobre desafios atuais enfrentados pelas empresas na atração e retenção de talentos, as mudanças na Norma Regulamentadora de Riscos Ocupacionais (NR-1), com a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o papel do bem-estar no trabalho como uma estratégia de gestão de pessoas.

Essa discussão ganha ainda mais importância em um setor marcado por alta rotatividade, desgaste físico e pressão operacional constante. A indústria de confecção depende intensamente de capital humano especializado. Diferentemente de cadeias altamente automatizadas, a costura, a modelagem e diversos acabamentos ainda exigem habilidades manuais complexas. Ignorar o componente humano significa comprometer produtividade de maneira estrutural. O debate levantado por Luiz Leão insere a confecção brasileira em uma tendência global que passa a enxergar saúde emocional e engajamento das equipes como ativos industriais estratégicos.