Por onde anda Markinhos Moura? 40 anos após “Meu Mel”, cantor não recebeu pelas vendas dos LPs no Brasil


Quarenta anos após o sucesso de “Meu Mel”, Markinhos Moura relembra os bastidores do hit que marcou os anos 1980 e revela que nunca recebeu os valores que considera devidos pelas vendas do disco, apesar da enorme consagração comercial. O cantor afirma que trava há décadas uma disputa judicial envolvendo os direitos de intérprete após a venda do acervo da gravadora Copacabana. Também critica a exclusão de artistas populares das narrativas sobre a música dos anos 1980 e comenta o preconceito que enfrentou ao longo da carreira. Markinhos revela o período difícil que enfrentou depois de diagnosticado com síndrome do pânico que o afastou dos palcos nos anos 1990. Fala ainda sobre reconstrução profissional e a nova relação com o público nas plataformas digitais. “Até hoje eu não recebi um centavo das vendagens do disco Meu Mel”, dispara o artista

*por Vítor Antunes

Markinhos Moura estreou no programa de Irapuan Lima — o Chacrinha do Ceará. Não tardou para aparecer no Chacrinha que o Brasil inteiro conheceu. O sucesso foi imediato com a sua música, a sua voz polivalente, o carisma e a veia popular que nunca escondeu. Neste ano, o cantor celebra quatro décadas do seu maior hit, Meu Mel, lançado em 1986 e estouro absoluto em 1987. “A música ficou conhecida comigo, mas ela já havia sido lançada no Brasil e não havia acontecido nada — na gravação do Tob, do Balão Mágico. Depois, essa música ia ser gravada pelo grupo Grafite. Até a gente chegar àquele disco, que seria o último pela gravadora Copacabana. O disco tinha que dar certo, porque depois dele eu estaria na rua. O arranjo de Meu Mel, inclusive, é com os músicos do Roupa Nova”, relembra.

Mas Markinhos traz uma informação importante — e amarga. Mesmo com o disco tendo vendido muito, especialmente o compacto, ele afirma não ter recebido os valores devidos. “A minha gravadora, a Copacabana, foi vendida e passou metade do acervo para a Universal e para a Sony. Até hoje eu não recebi um centavo das vendagens do disco Meu Mel. Porque quando ele foi lançado em compacto, pegaram músicas de outros discos, botaram no compacto, fizeram uma capa com os dizeres ‘incluindo Meu Mel’. Ela já era sucesso nas rádios, eu já estava fazendo programas de TV. Vieram apresentar as contas e mostrar quanto havia vendido até aquele momento — e era uma vergonha, porque eu sabia que já tinha passado de 150.000 discos vendidos.”

Markinhos Moura em primeiro lugar com a música mais ouvida em 1987 (Foto: Reprodução/JB)

A briga começou ali. “Eu e o meu empresário colocamos um advogado para fazer uma auditoria. Durou anos e ficou um tempo paralisada quando eu fui para o exterior. Quando voltei, reativei e ganhei a causa, porque os direitos que pleiteio são os meus direitos de intérprete. O que acontece é que, até agora, não recebi o dinheiro. E isso se arrasta há 40 anos. Os advogados continuam trabalhando, continuam tentando entregar as intimações — e eles simplesmente não encontram as pessoas. O oficial de justiça não consegue localizá-los para entregar nada em mãos. É uma loucura! Se este fosse um país sério, eu já teria recebido. Eu não acredito que vá receber.”

Entre 1986 e 1987, Meu Mel estourou no Brasil. Mas a música que entrou na trilha sonora de “Brega e Chique”, da Globo, foi a versão em inglês — e não a versão em português que havia incendiado o país. A faixa Music foi tema de Nívea Maria. Acontece que Music… não era conhecida no Brasil. Para o cantor, a preferência pela versão em inglês foi inexplicável — e não foi engolida sem protesto. “Eu acho que foi sacanagem mesmo do Mariozinho Rocha“, dispara. Mariozinho Rocha era o diretor musical da Globo e da Som Livre, e era ele quem cuidava das trilhas.

Markinhos Moura conta que não queria gravar Meu Mel. A resistência era de fundo — e reveladora. “Eu não queria gravá-la por ser popular. Eu tinha outra consciência das coisas, outra visão. Meus ídolos são a Elis, o Milton Nascimento. Eu queria ser inatingível como eles — quando eles queriam ser populares. Eu entrei na Cova dos Leões muito novo, sem entender nada. Quando eu comecei a bater o pé, as coisas começaram a ficar um pouco nebulosas para mim.”

Embora não tenha previsão de lançar música nova, Markinhos não está com a carreira parada. Neste ano fez uma mini-turnê pelo Piauí, em cinco cidades. Na semana que vem, começa a gravar mais uma temporada do Canta Comigo, da Record. “Eu tenho algumas coisas para fazer pela Secretaria de Cultura, alguns shows em São Paulo. Faço de vez em quando o Bar Brahma, que é justamente para as pessoas que ficam com vontade de me ver. Uma única apresentação por mês. As pessoas fora dos grandes centros são carinhosas. Eu gosto de pegar a estrada. Tem muita gente que diz: ‘Você demorou muito a vir. Você parou de cantar por quê?’ Eu respondo: ‘Gente, eu não parei de cantar. Vocês só vão saber que eu parei quando receberem um alerta do Jornal Nacional dizendo que eu fiz minha passagem — fora isso, não parei, não.'”

Capa do compacto de Markinhos Moura com “Meu Mel” (Foto: Reprodução)

O cantor também reflete sobre como era diferente fazer carreira na era do rádio. “Antigamente, você via de cara quando a coisa começava a dar certo — via a reação nas rádios. Porque nas rádios eram pessoas que pediam. Não que não houvesse dinheiro por trás, havia também, porque a gente tinha que fazer sorteios. Mas até as pessoas te conhecerem demorava muito. O meu primeiro compacto é de 1983. Só fui estourar muito depois. Era rádio, televisão, rádio, televisão — a minha vida era essa. Eu não tive adolescência. Fui trabalhando até ter o resultado que eu também não esperava.”

Eu estou reconstruindo a minha página no YouTube, tenho uma audiência bem grande no Spotify, as pessoas veem muito as minhas coisas. Mas eu sei que para atingir o top 50, o top 5, só com muito dinheiro. Tudo depende do algoritmo. Há de se ter uma estrutura, com pessoas ali consumindo — Markinhos Moura

Ele prossegue dizendo que a monetização que os artistas recebem está completamente descolada da realidade. “A monetização que vem do Spotify, do Deezer, da TV — em vez de eu ganhar, elas é que ganham. É um jogo meio sujo. Eu já recebo monetização, sim, mas nada que se pareça com o que corresponderia a estar no top 50 ou no top 100 das paradas de sucesso”.

Markinhos Moura e Monique Evans (Foto: Acervo Pessoal)

O cantor conta que, na época de Meu Mel, tentaram imprimir nele a imagem de galã — algo que ele recusou com a mesma firmeza com que recusou o rótulo de brega. “Eles queriam passar para as pessoas aquela coisa angelical sempre, aquele cantor de terninho, blazerzinho, um galãzinho. Eu nunca fui galã, nunca tive o exterior lógico de galã. Eu dizia: ‘Eu quero cantar outras coisas.’ Na época do lançamento, a gente carregava o estigma de cantor brega. Eu nunca aceitei esse título. Falei: ‘Gente, como é que eu posso ter sido comparado com a voz da maior cantora do Brasil e ser brega?’ Eu não sou brega. Nunca aceitei. Mas nada melhor do que o tempo.”

O tempo muda tudo. Eu passei a me orgulhar de ser popular, porque não sou oriundo de nenhum movimento. Não sou dos anos 1970, dos anos 1960, não venho de festivais. Talvez seja um pouco por isso o preconceito que enfrentei. Mas ao longo do tempo fui vendo que essa música revolucionou a vida de muitas pessoas.” — Markinhos Moura

Ele prossegue: “Foi quando eu gravei o último LP pela gravadora, em 1990 — aquele em que estou nu na capa, o Sem Pudor. Foi para me desnudar daquela imagem que estavam construindo de mim e me distanciar da linha popular que estavam cavando. Eles queriam repetir a fórmula de Meu Mel — e isso não funciona, porque fórmula não existe. Alegavam que era um disco impróprio para colocar nas lojas. Isso em pleno 1990, já tendo acabado a censura. Diziam que as mães tinham vergonha de comprar aquela capa para as filhas. Foi uma bela sacanagem que fizeram comigo.”

MALEDICÊNCIAS

Pelo menos desde o fim da pandemia, Markinhos teve o nome associado a posts maledicentes na internet, insinuando que ele estaria vivendo com dificuldades e passando por apertos financeiros — o que não é verdade. “Os primeiros posts dessa natureza me irritavam muito. Eu mostro o dia a dia do artista de verdade — porque nós não estamos o tempo todo de lantejoula, de paetê e de cabelo feito. E jamais, mesmo que eu tivesse uma vida de ostentação, eu faria postagens exibindo coisas, como a maioria faz. Eu dei uma entrevista há mais de 15 anos em que isso já era dito: eu morava num apartamento pequeno, alugado. Eu não sou rico, não tenho herança, não sou filho de família rica. Se eu não trabalhar, não tenho como sobreviver. Pode ser que amanhã isso mude — pode ser que eu tenha até avião, algo que não me interessa ter de jeito nenhum. Mas não me falta nada. Tudo que eu quero, eu tenho. Tenho um teto. Estou ótimo. Maravilhosamente bem — com todas as dificuldades do mercado, de tudo. Mas isso não afeta só a mim. Afeta muitos artistas.”

O que me decepciona é a gente que faz matéria colocando como título ‘Markinhos Moura, ídolo nos anos 80, hoje na pior’. Gente, eu nunca disse que estava passando fome, que estava na rua, que estava devendo — porque nunca aconteceu isso. Passei o sufoco da pandemia como todo mundo, mas nunca passei fome. Nunca fiquei na rua. O meu nome é limpo. E nunca aceitei ir a programa de televisão ficar chorando as pitangas. Até fiz lives na pandemia, porque todo mundo fez — e não é vergonha para ninguém — Markinhos Moura

Aponta que, o início dos anos 1990, foi essencialmente duro. “Depois de 1990 eu fiquei doente — tive Síndrome do Pânico e passei um ano me tratando. Eu perdi tudo. Não tinha como trabalhar. Me tratava em um centro kardecista, o Pronto Socorro Espiritual Ramatis. Passei quase dois anos sem trabalhar. Fui vendendo tudo, saí do apartamento enorme que eu morava no Flamengo. Vendi os móveis, fui morar num apartamento menor, porque eu simplesmente não conseguia trabalhar. Os shows marcados foram desmarcados. Eu não me via no palco.”

Foi de dentro desse abismo que veio a virada. “Eu estava me tratando aqui quando recebi um telefonema de um amigo que morava comigo e cuidava das minhas coisas — artísticas, financeiras, tudo. Ele disse: ‘Olha, pintou uma viagem para você fazer para a China, para inaugurar um complexo de entretenimento em Hong Kong.’ Foi um momento muito importante para o meu restabelecimento, para a mudança de conceitos que eu tinha. Lá fiquei seis meses. Depois fui para o Japão, onde fiquei um ano. Foi muito importante esse tempo fora do Brasil.”

Markinhos Moura segue trabalhando (Foto: Divulgação)

ATOR

Mesmo sendo um cantor de carreira consolidada, Markinhos gosta de conciliá-la com o trabalho como ator — e faz questão de lembrar que começou pelos palcos. “Eu comecei como ator em Fortaleza, e o cantor veio junto porque as primeiras peças que eu fiz exigiam música. Aí perceberam que eu cantava — eu já cantava na escola, dia das mães, dia do índio, dia de não sei o quê, tudo me chamavam para fazer. Fiz uma minissérie que ainda não foi lançada nos streamings, chama-se Sala dos Professores, com um elenco maravilhoso. Ainda não foi lançada”. Na década passada, Markinhos esteve no elenco de Angel, peça escrita por Vítor de Oliveira e Carlos Fernando Barros, num personagem criado sob encomenda especialmente para ele.

O cantor aponta que há muita gente que olha para os anos 1980 apenas pela perspectiva do rock — quando a década foi muito maior do que isso. “Tem uma coisa que me incomoda muito e eu gostaria de falar. Quando se fala nos anos 80 — que naquela época eram tidos como a década musicalmente perdida, que nada iria resistir, que as pessoas iriam esquecer —, os documentários, os livros, as mil coisas que existem sobre o assunto só falam no Rock BR. Como se só existisse o Rock BR. Como se não existissem Rosana, Adriana, Dalto. Ninguém fala da Lady Zu, caramba! Eu acho isso uma tremenda sacanagem, uma falta de respeito, porque a gente levava o mesmo público que eles levavam — centenas de pessoas para os rodeios, para os lugares mais longínquos. Nós temos histórias incríveis para contar.”

Embora seja gay, Markinhos tornou pública a sua homossexualidade apenas recentemente. Não que fosse exatamente discreto — mas o patrulhamento nos anos 1980 era intenso. “Falar, eu não podia falar muito. Havia um certo patrulhamento — da própria gravadora, dos meus empresários. A forma de eu mandar mensagens subliminares foi vindo aos poucos, exatamente com a figura andrógina que eu criei. Porque eu queria ser, na verdade, um misto de Elis Regina (1945-1982) e Ney Matogrosso. Eu tinha a voz parecida com a dela e comecei a usar coisas mais extravagantes. Claro que eu sentia a reação nos shows, principalmente em lugares onde os homens eram muito machistas — mas as mulheres sempre me apoiaram. Até hoje.

Markinhos Moura se apresentando nos Anos 1980 (Foto: Acervo pessoal/Tratada por iA)

Eu não havia verbalizado antes a minha natureza sexual, primeiro porque achava que não tinha obrigação nenhuma. Segundo, porque sempre respeitei muito a minha família e a minha mãe, principalmente. A minha mãe sabia tudo de mim, claro. Mas nunca chegou para perguntar nada. Nunca me julgou em nada. A minha forma de dizer era nas roupas brilhosas, extravagantes, na maquiagem — eu já me maquiava —, no cabelo loiro, nas capas que aos poucos fui fazendo do jeito que eu queria, até chegar ao Sem Pudor. O meu ativismo era esse.”

Eu não sabia que ia passar esses 40 anos ainda sobrevivendo de Meu Mel. Para mim tinha acabado. Lancei outros CDs independentes, inclusive muito bons, mas não sabia que ia ficar com Meu Mel até hoje na minha vida.” — Markinhos Moura

Mesmo que tenhamos começado este texto celebrando os 40 anos de Meu Mel, é no olhar voltado para o próprio repertório que Markinhos revela outras camadas de sua trajetória. Entre as canções que gostaria de ver mais conhecidas pelo público, ele destaca Sem Pudor e Saudade e Solidão, músicas que, segundo o artista, carregam partes essenciais de sua identidade musical. Ainda assim, ao revisitar a estrada percorrida, o tom que prevalece é o da gratidão. “As músicas ‘Sem Pudor’ e uma outra chamada ‘Saudade e Solidão’. Mas, de todo modo, eu agradeço muito ter tido Meu Mel na minha vida. E saber também do que eu sou capaz”, resume Markinhos. Afinal, certos sucessos marcam uma época, mas é a soma de todas as canções que revela, em definitivo, a extensão de um artista.