Com humor e crítica social, atriz Aquela Miranda lança livro sobre crise, ansiedade e dores dos millennials na web


A atriz e criadora digital Aquela Miranda lança “Bug nos Millennials”, livro de crônicas que mistura humor, crítica social e nostalgia para retratar as angústias da geração nascida entre 1981 e 1996. Conhecida na internet por satirizar os “tilelês”, os “nepobabies” e a gourmetização da vida cotidiana, ela transforma experiências pessoais em reflexão sobre ansiedade, hiperconectividade e instabilidade financeira. “Acho que uma das dores dessa geração é a de não ter conquistado um lugar de segurança, de sossego”, afirma. Com muitos seguidores nas redes, Miranda também tem a televisão como próximo passo na carreira

*por Vítor Antunes

Ela apareceu na internet brincando (com muita elegância) tanto com os artistas que a web batizou de “tilelês” (aqueles alternativos e excessivamente conceituais) quanto com os “nepobabies”, filhos de famosos que se “arriscam” na profissão dos pais. Depois vieram os restaurantes de culinária afetiva que cobram fortunas por coisas simples, e também um olhar que une nostalgia e crítica social para a geração millennial — composta por pessoas nascidas entre 1981 e 1996. A atriz Aquela Miranda está lançando o livro “Bug nos Millennials“, um trocadilho com o bug do milênio que apavorou o planeta no fim de 1999.

Miranda analisa a dor da geração millennia: “Uma delas é de não ter conquistado um lugar de segurança, de sossego. A hustle culture — essa lógica de alta produtividade, de estar sempre correndo atrás de alguma coisa — dominou tudo, porque tudo pode se perder a qualquer momento. A referência que alguns dos nossos pais tinham, de que bastava fazer uma faculdade, estudar, para vencer, não se sustenta mais. Não são poucos os que ainda moram com os pais; ao contrário, são poucos os que conseguiram comprar um apartamento ou uma casa própria. Todo mundo vivendo de aluguel, nessa instabilidade, nessa ansiedade de não saber se vai conseguir pagar no mês seguinte, se vai ter que mudar, se a bolha imobiliária vai estourar ou não. Isso tudo só aumenta a ansiedade de todo mundo.”

O livro, segundo ela, é de perspectiva, de vivências. “Crônicas e observações minhas, com um lugar de humor também, de sarcasmo. O que é de fato real é que a gente viveu a transição de um mundo analógico para o digital, e isso trouxe efeitos profundos — não só no sentido de ‘vou usar o celular toda hora’, mas no de sermos a geração mais medicada, a que mais toma remédio psiquiátrico, a que mais tem burnout. Talvez por conta dessa hiperconectividade, a galera da Geração Z esteja migrando para os dumbphones — aqueles celulares que a gente usava na adolescência, como o Nokia tijolão ou o flip, sem internet. Eles estão começando a perceber que é nocivo ficar tanto tempo online, tanto tempo diante de uma tela. E existe esse revival dos anos 2000: referências de moda, de roupa, de tecnologia.”

Antigamente você tinha um CD com 12 músicas — não tinha tanta coisa disponível. Acho que não ter um excesso de opções fazia com que as pessoas fossem um pouco menos ansiosas do que a gente é hoje. Hoje é tudo muito à mão, tudo muito fácil de pesquisar, de procurar, de ter. Então, talvez exista essa nostalgia tão grande. É um retorno para se conectar com humanos. Óbvio que tem um hype, uma coisa meio cool, uma estética vintage, esse lugar hipster — mas tem também um lugar em que você tira uma foto e ela é só uma foto. — Aquela Miranda

Aquela Miranda: “Hoje tudo está mais à mão e gera ansiedade” (Foto: Emanuel Orengo)

MINHA PEDRA É AMETISTA

Um dos personagens que mais faz sucesso na internet de Miranda é a Ametista — que brinca justamente com o fato de ser “tilelê”, “nepobaby” e completamente alheia à realidade. “Essas personagens que criei em algum momento no meu perfil são inspiradas em várias pessoas que conheci. Tem um lugar de crítica social, de exagero, de crítica a uma elite, a uma classe mais privilegiada que tem hábitos, tem manias e tem crianças muito absurdas, descoladas da realidade social, sem consciência de classe”.

Sobre a mercantilização da culinária afetiva — esse fenômeno que passa, invariavelmente, pelo campo da folclorização —, Miranda é direta: “Foi mais uma observação minha, indo aos lugares. Em São Paulo é muito assim, e talvez eu tenha frequentado lá mais do que no Rio. Mas no Rio também existe, e lá acho que é ainda mais forte essa questão da gastronomia, do querer vender um ovo orgânico da vovó Maria, lá do interior de Minas — só que a vovó Maria está ganhando 50 centavos e você está cobrando R$ 50. Essa disparidade também fica muito vazia no discurso, puramente comercial.”

Aquela Miranda critica a gourmetização culinária e a articifialidade dos artistas (Foto: Emanuel Orengo)

Ainda que seja muito presente nas redes sociais, Miranda ainda não fez TV, mas tem isso no horizonte. “Acho que é uma porta de entrada legal. Muita gente ainda só vê TV, especialmente as pessoas das classes C, D e E. Mas entendo também que há muita concorrência, muita gente querendo furar essa bolha, fazer TV, fazer novela.”

Não dá para ficar só esperando algum produtor te ligar — e isso é muito angustiante. Comecei a escrever, e essa é uma habilidade que tenho e que sei que nem todos os atores conseguem ou têm segurança para exercitar. Tem gente que realmente não gosta, não quer, não sabe ou acha que não faz bem. — Aquela Miranda

Aquela Miranda também pensa em investir nas novelas (Foto: Emanuel Orengo)

Entre o humor afiado das redes sociais, a crítica à elite desconectada da realidade e as angústias de uma geração atravessada pela hiperconectividade e pela instabilidade econômica, Aquela Miranda transforma observação cotidiana em crônica social. Em “Bug nos Millennials”, a atriz e criadora digital amplia para o papel o olhar irônico que conquistou a internet, ao mesmo tempo em que revela uma geração marcada pela ansiedade, pela nostalgia e pela necessidade constante de reinventar caminhos para existir — inclusive fora das telas.