Cíntia Chagas estreia no ‘Domingo Espetacular’ e leva debate sobre Língua Portuguesa para a TV aberta


Professora de Português e influenciadora com milhões de seguidores, Cíntia Chagas amplia sua atuação ao estrear no Domingo Espetacular, da Record, com o quadro “Calma que eu te explico”. A participação marca sua pluralidade da internet para a TV, em um projeto estruturado com equipe ampla e convidados famosos, voltado à valorização da Língua Portuguesa. Ela também defende a importância da norma culta, debate o uso excessivamente rebuscado da linguagem e critica a queda do hábito de leitura e seus impactos cognitivos nas novas gerações. Cíntia ainda aborda as variações do português entre Brasil e Portugal, destacando a língua como um organismo vivo e diverso

*por Vítor Antunes

Para além de qualquer polêmica, uma professora de Português — e, sobretudo, uma comunicadora. Cíntia Chagas se prepara para uma nova empreitada, embora já esteja acostumada a falar a milhões: ela tem quase 8 milhões de seguidores no Instagram e mais de 600 mil no TikTok. Agora, vai estrear no “Domingo Espetacular”, a revista eletrônica carro-chefe da Record, com o quadro “Calma que eu te explico”, no qual convidados falarão sobre suas relações com a Língua Portuguesa. Entre os nomes confirmados estão Narcisa Tamborindeguy e Luiza Brunet. “Eu estou trazendo a Língua Portuguesa de volta para a TV. Então, a minha responsabilidade é grande. Eu não sou ingênua, sei que a linguagem da internet, na qual eu estou há mais de 11 anos, é diferente daquela que a TV adota, então é óbvio que eu vou me adaptar. Sou muito grata à Record por haver dado a mim um quadro no Domingo Espetacular”.

Ela detalha a estrutura que lhe foi conferida pela emissora. “Eu tenho mais de 30 pessoas na equipe e uma mansão alugada no Morumbi”. O quadro ainda não tem data de estreia definida. “Estamos acabando todas as gravações primeiro e aí, como o programa tem sempre a minha presença e a de um convidado famoso, nós precisamos conciliar as agendas. Eles são escolhidos a dedo e passam não só pelo meu crivo, mas também pelo da diretoria. Nós preferimos esperar mais dias para ter a pessoa X a fazer com alguém que a gente ache que não tem o perfil que nós desejamos”. Ainda de acordo com Cíntia, o programa terá oito episódios e, até agora, cinco já foram gravados.

Eu sei que eu glamorizei a Língua Portuguesa. O brasileiro passou a falar que português é chiquíssimo – inclusive, o correto é esse, chiquíssimo, e não chiquérrimo – Cíntia Chagas

Cíntia Chagas aborda a Língua Portuguesa em programa na Record (Foto: Jana Vieras)

A comunicadora fala sobre como enxerga a missão de levar a Língua Portuguesa para dentro da casa das pessoas: “É emocionante, porque o português esteve na minha sala de várias formas. A primeira, pela influência que eu tive na minha casa. Venho de uma família em que as pessoas gostam muito de ler. A segunda, pela própria escola, onde lecionei, pelos deveres de casa, pelas tarefas. E a terceira, pelo professor Pasquale [Cipro Neto, idealizador do programa da TV Cultura “Nossa Língua Portuguesa” e ex-colunista do jornal Folha de S.Paulo]. Eu entendo que, de formas extremamente diferentes, nós dois conseguimos o mesmo feito. O Pasquale chamou atenção para a Língua Portuguesa com o jeito dele sério, tradicional. E agora eu, com o meu jeito peculiar de ser. E, especialmente, sendo uma mulher falando”. Cíntia diz que a expectativa é de que os próximos episódios do programa sejam gravados ainda neste mês.

A verdade é a seguinte: nós precisamos de exemplos. Pasquale me mostrou que era possível levar o português para a TV e eu vi que era. Eu também espero ser exemplo para mais professores e revelar que eles podem ir além – Cíntia Chagas

Cíntia Chagas tem cerca de 8 milhões de seguidores nas redes sociais (Foto: Jana Vieras)

O CÉU DA LÍNGUA

No último mês, virou notícia o fato de que um rapaz de 18 anos processou a Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular, órgão ligado à Universidade de São Paulo) por ter sido punido com nota zero na redação do vestibular. O jovem usou uma linguagem excessivamente erudita, que não dialogava com a proposta temática do concurso, o que gerou uma discussão sobre a fetichização do rebuscamento na escrita. “Eu vou parafrasear Evanildo Bechara (1928-2025), um dos nossos gramáticos mais importantes: a língua culta, a língua considerada erudita, é extremamente necessária”, diz Cíntia.

E acrescenta: “Sem ela, nós não compreenderíamos autores como Machado de Assis (1839-1908) e tantos outros, os clássicos. Nós não podemos nivelar a Língua Portuguesa por baixo em nome de um populismo. Ainda que a variante informal seja necessária, ainda que nós falemos corriqueiramente de modo informal, a verdade é que nós precisamos de uma linguagem mais culta, mais formal, mais erudita para alcançarmos patamares mais altos na vida, sejam esses patamares intelectuais, profissionais, sociais ou até literários. Nós precisamos dominar as variantes, e a erudita não pode ser demonizada. Ela não é a fonte do preconceito linguístico.”

Só consideramos texto aquilo que produz sentido, que alcança a comunicação. E, na redação em questão, apenas ocorreu uma junção de palavras arcaicas, o que invalidou o sentido do texto. Não havia objetivo comunicativo, não houve atendimento ao tema proposto, apenas um encadeamento aleatório de palavras difíceis. Logo, ele mereceu a nota recebida – Cíntia Chagas

Num momento em que se lê cada vez menos e frequentemente percebida como algo cansativo para alguns, Cíntia acredita que isso se deve a uma geração mais ansiosa. “Estamos ansiosos até na escrita, perdemos a paz de espírito necessária para ler. Ler é uma atitude solitária. Logo, se não consigo ficar sozinha, longe das redes sociais, vou aos poucos perdendo a minha capacidade crítica e cognitiva. Eu estou certa de que a diminuição do QI está associada à escassez de leitura, e a Língua Portuguesa escrita é uma maneira muito bela de nos comunicarmos. E o pior: se não escrevo, se não tenho contato com a palavra, com a leitura, eu também passo a ter dificuldade para argumentar. Então, estamos caminhando a passos largos para o emburrecimento da nossa sociedade.”

Cíntia Chagas: “Não se pode vulgarizar a Língua Portuguesa” (Foto: Jana Vieras)

Tanto no Brasil quanto em Portugal é recorrente o debate sobre o quanto falamos “português” ou “ao estilo brasileiro” e o distanciamento entre as variantes. Especialmente é discutido se o Brasil teria se afastado a ponto de configurar um novo idioma. Cíntia acredita que se trata apenas de uma variação linguística. “Nós sofremos a influência das línguas indígenas, africanas e por aí vai. Então, temos uma amplitude cultural e linguística enorme. De fato, o português falado aqui está cada vez mais brasileiro, e não vejo um problema nisso. As variações da Língua Portuguesa precisam ser respeitadas, porque constituem uma consequência de colonizações. E a língua é viva. Então, talvez muitos diriam: ‘Ah, você deveria lutar pelo português de Portugal, que é mais erudito, ou pelo português do Brasil, que é mais contemporâneo’. Quanto a mim, eu acho que há espaço para todas as variações do português, e elas devem ser respeitadas. Não acho que estejamos falando um idioma próprio, mas que estamos nesse processo”.

Do ponto de vista cultural e, consequentemente, vocabular, o português brasileiro se difere bastante do português de Portugal. Entretanto, no que se refere à sintaxe da língua, à estrutura, estamos longe de ter duas línguas distintas – Cíntia Chagas

CONTEÚDO

Com quase 8 milhões de seguidores e abordando temas como Língua Portuguesa, comportamento e mulheridade, Cíntia diz não fazer uma grande curadoria dos assuntos que trata e afirma ser movida exclusivamente pela vontade de comunicar. “O sucesso das minhas redes sociais vem exatamente da ausência de curadoria. O público direciona e a minha resposta varia de acordo com o meu humor — e eu costumo ser ácida, autêntica. Tanto é que eu já tive muitos problemas em 11 anos de Instagram — tanto em razão de hate como de falas das quais me arrependi. É mais de uma década de vida exposta na internet. Considero, porém, que tive mais ganhos do que perdas.”

Cíntia Chagas se indpira em pensamento de Clarice Lispector (Foto: Jana Vieras)

Por muitos anos, mulheres não podiam assinar livros, ainda que fossem autoras. Maria José Dupré (1898-1984) só passou a ter seus livros assinados dessa maneira após sua morte, pois era creditada como Sra. Leandro Dupré, inclusive em obras de grande sucesso, como “Gina” e “Éramos Seis’. Inspirada em Clarice Lispector (1920-1977), Cíntia define sua trajetória a partir de uma frase da autora, presente no conto Amor.

“Eu chorei tanto, tanto, tanto quando reli esse conto recentemente que até o levei à minha terapia. Ele diz: ‘No fundo, Ana sempre teve a necessidade de sentir a raiz firme das coisas, e isso um ar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos viera cair num destino de mulher. Com a surpresa de nele caber, como se o tivesse inventado. Por caminhos tortos vieram a cair num destino de mulher’. Isso mexeu muito comigo, porque seria como se todas as mulheres tivessem um só destino, a casa”.

E acrescenta: “No trecho que diz ‘no fundo, ela sempre teve a necessidade de sentir a raiz firme das coisas’. Raiz firme é o quê? É a família. E isso um ar perplexamente lhe dera. E aqui ela coloca em dúvida quão firme é essa raiz que as mulheres tanto procuram. Aí, para mim, essa é a frase: ‘Por caminhos tortos vieram a cair num destino de mulher’. Esse conto mexe muito comigo, porque eu fico pensando o seguinte: se a minha avó, que era uma mulher tão trabalhadora, tão inteligente, tivesse obtido a chance de escolher um destino que não fosse o destino de mulher, quem teria sido a minha avó? Hoje, as mulheres — não todas, mas muitas — podem escolher um destino que não seja o destino de mulher.”

Chamada de polêmica, Cíntia Chagas parece habitar justamente o ponto em que a palavra deixa de ser confortável e passa a incomodar — não por excesso, mas por precisão. Entre a norma que defende e a liberdade com que se expõe, constrói uma presença que não se resolve fácil, nem pretende. E talvez seja esse o traço mais humano de sua trajetória: o de alguém que, ao falar tanto sobre a língua, acaba revelando, nas entrelinhas, a própria tentativa de se dizer — com todas as contradições que isso implica.