“Tiazinha não teria espaço hoje”: Suzana Alves fala da hipersexualização que viveu nos anos 90 e lança livro sobre fé


Suzana Alves lança o livro “Por Trás da Máscara”, no qual revisita a fama como Tiazinha, os impactos da hipersexualização e sua conversão à fé evangélica. Ela afirma que a obra nasceu da necessidade de transformar dores e conflitos de identidade em propósito, abordando temas como cura emocional, espiritualidade e reconstrução pessoal. Suzana também avalia que personagens como Tiazinha dificilmente teriam espaço hoje, diante das mudanças no debate sobre exposição feminina e comportamento. Ao refletir sobre fama, dinheiro e hiperexposição, ela diz que as conquistas materiais não trouxeram felicidade duradoura e destaca o valor da segurança emocional, familiar e espiritual. A ex-estrela dos anos 1990 ainda comenta que deseja dialogar com a Geração Z por meio de uma fé “com verdade e não como performance”

*por Vítor Antunes

Ela é, inegavelmente, uma marca dos anos 1990. A cara que passou anos escondida sob uma máscara — e que máscara: fetiche puro, latex, fantasia coletiva de uma geração. Hoje, munida da palavra de Deus e completamente sem disfarce, Suzana Alves, a ex-Tiazinha, lança um livro que revisita a própria história e o seu encontro com o sagrado: “Por Trás da Máscara“. “O que me motivou a escrever este livro foi, acima de tudo, a necessidade de transformar dor em propósito. Durante muitos anos, as pessoas conheceram personagens, imagens e versões de mim, mas poucas conheceram a Suzana de verdade. Eu senti que era tempo de abrir o coração e contar a minha história com sinceridade — não para justificar o passado, mas para mostrar que existe cura, restauração e recomeço. Esse livro nasceu também por amor ao meu filho e à nova geração, para que entendam a importância de viver uma vida alinhada com Deus.”

Suzana revela como a confusão entre personagem e identidade real marcou seu corpo, suas emoções e sua fé. Mais do que um testemunho, o livro é um chamado ao despertar: quantas máscaras assumimos para sobreviver, agradar ou sermos aceitas? E quanto isso nos afasta de quem realmente somos diante de Deus? Ao longo de 21 dias, a autora conduz o leitor por um caminho de restauração interior, cura do passado e reconstrução da identidade à luz da Palavra. Editado pela Provérbios Editora, são 221 páginas.

A atriz e empresária fala sobre como o encontro com a espiritualidade evangélica foi revelador — ainda que ela tenha percorrido outros caminhos de fé antes de chegar até ele. “Antes de me aproximar da espiritualidade evangélica, sim, eu passei por outras buscas espirituais. Acho que existe um vazio dentro do ser humano que só Deus consegue preencher completamente, mas até entendermos isso, muitas vezes tentamos encontrar sentido em diferentes lugares. O que eu buscava era paz, pertencimento, respostas para dores emocionais profundas e uma verdade que sustentasse minha alma. Hoje eu entendo que minha busca sempre foi, no fundo, uma busca por Deus.”

Suzana Alves debate a hipersexualização da personagem que a marcou (Foto: Daniela Toviansky)

Mesmo durante o período da Tiazinha, a fé nunca esteve totalmente ausente da minha vida. Existia dentro de mim uma consciência espiritual muito forte, embora muitas vezes confusa e misturada aos conflitos que eu vivia naquele momento. Em meio à intensidade da exposição pública, eu ainda tinha momentos de oração, questionamentos profundos e uma busca interior silenciosa. Hoje eu consigo olhar para trás e perceber que Deus já estava me alcançando, mesmo quando eu ainda não compreendia isso claramente – Suzana Alves

Para Suzana, o debate hoje é mais aprofundado — especialmente no que diz respeito à questão feminina e aos corpos das mulheres. Na sua avaliação, uma personagem como a Tiazinha — que vivia seminua, com máscara de BDSM e chicotinho, voltada para um público adolescente masculino que a desejava e um feminino que a replicava — não teria espaço nos dias de hoje. “Sim, olhando hoje com mais maturidade, eu entendo que existia uma hipersexualização muito forte da minha imagem. Naquela época, muitas coisas eram naturalizadas pela cultura e pela televisão, e nós mesmos não tínhamos a dimensão emocional e social disso. Sobre a Tiazinha existir hoje, acredito que o mundo mudou muito. A televisão mudou, o comportamento mudou e a discussão sobre exposição feminina também amadureceu. Talvez uma personagem como aquela não surgisse da mesma forma hoje. Ao mesmo tempo, vejo que a hipersexualização não acabou — ela apenas migrou para outros formatos, especialmente nas redes sociais.”

Suzana Alves comenta a hipersexualização da personagem que viveu nos anos 90 (Foto: Daniela Toviansky)

Embora tenha marcado uma geração — a dos millennials, compreendida entre 1991 e 1996 —, Suzana acredita que a atual, a Geração Z, é medida por outra régua. “A geração Z não quer discursos moralistas, ela quer verdade. Essa geração percebe rapidamente quando alguém está vivendo apenas uma aparência. Falar de Deus hoje exige vulnerabilidade, humanidade e coerência. Não é sobre apontar dedos, mas sobre compartilhar experiências reais, dores reais e mostrar que Deus continua sendo atual, amoroso e transformador.”

Acho que a fé precisa ser apresentada com verdade e não como performance – Suzana Alves

Diante da hiperexposição e do dinheiro conquistado na época, Suzana faz uma análise. Para ela, as conquistas financeiras foram importantes — mas definitivamente não são marcador de felicidade. “O sucesso trouxe conquistas financeiras importantes, sim, mas também muitos aprendizados. Quando se vive um fenômeno tão grande, existe uma ilusão de permanência. Eu tive momentos de estabilidade, mas também enfrentei desafios, perdas e recomeços. A vida artística é muito instável. Hoje, mais do que pensar apenas em sucesso financeiro, eu valorizo segurança emocional, espiritual e familiar. Existe uma diferença muito grande. A fama daquela época era mais construída no tempo. As pessoas acompanhavam trajetórias, existia uma relação mais duradoura entre o público e o artista. Hoje, com as redes sociais, tudo acontece muito rápido: a ascensão, a exposição e também o esquecimento. Ao mesmo tempo, vejo que a essência continua sendo o que realmente permanece. Quando algo toca emocionalmente as pessoas, atravessa gerações.”

Suzana Alves: “A hiperexposição deixou marcas” (Foto: Daniela Tovianski)

A hiperexposição deixou marcas, sim. Nenhum ser humano passa ileso por um nível tão intenso de julgamento, projeções e invasões. Houve dores que precisei elaborar durante muitos anos, especialmente relacionadas à identidade, autoestima e pertencimento. Mas também acredito que as dores podem se transformar em ferramentas de empatia e cura quando enfrentadas com coragem e verdade – Suzana Alves

Estabelecendo um comparativo entre o doce e o amargo da fama — e o que vive hoje —, Suzana é direta: “Quando olho para a minha história, o mais doce foi perceber que, apesar de tudo, Deus nunca desistiu de mim. Foi construir minha família, me tornar mãe, encontrar propósito e compreender que minha vida não precisava terminar na personagem que o público conheceu. O mais amargo talvez tenha sido viver muitos anos tentando corresponder às expectativas externas enquanto me distanciava de mim mesma. Mas até isso hoje ganha sentido, porque entendo que minha trajetória pode ajudar outras pessoas a encontrarem cura, identidade e esperança.”

Para Suzana Alves, mesmo havendo vivido aquela vida, ela foi suficiente para redefinir a sua história hoje (Foto: Daniela Toviansky)

Entre máscaras, holofotes e silêncios, Suzana Alves parece hoje reescrever a própria narrativa sem o verniz da fantasia que a transformou em símbolo de uma era. A personagem que um dia ocupou capas de revista, programas de auditório e o imaginário popular agora dá lugar à mulher que escolheu expor não o corpo, mas as cicatrizes. “Por Trás da Máscara” surge, assim, menos como acerto de contas e mais como travessia. Porque, no fim, permanece a constatação que atravessa sua trajetória: a máscara mudou, o palco mudou, o tempo mudou. E Suzana também.