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No ar como a Amélia em ‘’Orgulho e Paixão’’, Letícia Persiles reflete sobre feminismo, maternidade, caminhos da arte e muito mais

Depois do sucesso em ‘’Além do Tempo’’, Letícia Persiles retornou às telinhas como a doce Amélia, uma mulher além do seu tempo que se envolve em um triângulo amoroso, na trama inspirada nas obras da escritora Jane Austen, ‘’Orgulho e Paixão’’.

Publicado em 11 de junho de 2018 | Por Thaissa Barzellai

As tatuagens tão marcantes não são as únicas coisas que a atriz Letícia Persiles carrega em si. Mãe, atriz, cantora, escritora e, inerente a todas essas facetas, feminista. Hoje, a atriz participa de debates e manifestações em prol do direito das mulheres. No entanto, nem sempre foi assim. Como muitas mulheres, apesar de na época estar ciente da realidade desse grupo social em uma sociedade patriarcal, Letícia percebeu que ainda reproduzia atitudes e pensamentos machistas e foi só quando se inseriu na discussão feminista que isso mudou. ‘’Hoje eu vejo essa discussão muito mais aberta, consigo perceber o quanto o machismo está dentro da gente, está na nossa estrutura e cultura. Por mais que há 10 anos eu pensasse que estava à frente como uma mulher livre, eu ainda repetia essas atitudes. Não é um pecado, mas, a gente tem que estar atenta aos nossos pensamentos e ações diárias. Por isso, eu digo que é importante a gente discutir o feminismo em todos os ambientes. O movimento só traz benefícios para todos nós, em termos de igualdade, de organização de sociedade e pensamento. Ele só traz avanços’’, declara.

Presente em diversas manifestações, inclusive nas últimas que foram realizadas no dia 8 de março no Centro do Rio de Janeiro, Letícia faz questão de levantar a bandeira e caminhar ao lado de outras mulheres. Para ela, o sentimento de união transmitido durante os protestos é uma das melhores coisas da vida. ‘’É muito gostoso. As manifestações são muito prazerosas, sabe? Você vê uma multidão de mulheres com os seios à mostra desfilando na Avenida Rio Branco com gritos de guerra… têm poucas sensações melhores do que essa na vida. É um momento muito esclarecedor e reconfortante’’, conta. No entanto, Letícia acredita que apenas se denominar feminista não é o suficiente para o sucesso da luta. ‘’É claro que levantar a bandeira é importante, e eu sempre tento fazer isso. Porém, eu acho muito mais necessário colocar tudo isso em prática ao invés de só gritar os hinos de protesto’’, explica a atriz que sempre faz questão de se corrigir quando reproduz uma atitude opressora no cotidiano.

Em ”Orgulho e Paixão”, Letícia vive a história de Amélia, uma mulher doce e além do seu tempo. (Foto: Divulgação)

O ativismo de Letícia Persiles reflete muito na arte que ela produz, influenciando, principalmente, nos papéis que ela decide interpretar. ‘’Eu acho que o ator não deve ter receio de interpretar um papel x ou y. Mas é claro que às vezes uma produção ou roteiro que vai muito contra ou defende uma ideologia muito contrária a minha eu não concordo em fazer. Se eu achar que fui convidada para um trabalho que explora a mulher como objeto, eu não vou aceitar’’, declara. Na pele da Amélia na novela da Globo das 18h ‘’Orgulho e Paixão’’, folhetim de Marcos Bernstein inspirado na obra da escritora inglesa Jane Austen, Letícia traz à tona a história de uma mulher do início do século XX que tenta ir além do seu tempo em um momento no qual surgem os primeiros ensaios feministas. Como a doce Amélia, a atriz vive um triângulo amoroso com Jorge (Murilo Rosa) e Ema (Agatha Moreira), de modo a ir contra valores e costumes esperados por uma mulher na época. No entanto, apesar de gostar de Jorge, a personagem de Letícia decide colocar em diversos momentos a fraternidade entre mulheres acima do amor que sente pelo rapaz. ‘’A Amélia tem uma parceria tanto com o Jorge quanto com a Ema, de não querer atrapalhar, sabe? Não tem esse espírito de competitividade’’, conta.

Letícia caracterizada como a prostituta Carla. (Foto: Divulgação)

Como atriz, Letícia Persiles tem a oportunidade de interpretar mulheres complexas, abordando questões pertinentes ao movimento. Em 2014, Letícia deu vida à prostituta Carla na série do Multishow ‘’A Segunda Vez’’. Para se preparar, ela acompanhou de pertinho a realidade do dia a dia dessas profissionais, que transformaram a visão que ela tinha com relação à prostituição e regulamentação da atividade no Brasil, pauta muito presente nas vertentes feministas, principalmente entre as liberais e radicais. ‘’Muitas prostitutas são muito felizes na profissão, outras já nem tanto. Agora, é importante a gente pensar porque a questão da prostituição é muito delicada, é a profissão que mais merece regulamentação. É muito fácil essa profissional ser abusada, já está muito suscetível ao abuso, até porque existe paralelamente à figura da prostituta e do agenciador. Essa mulher cai nesse lugar de objeto de forma muito rápida. Tem que ter, sim, uma regulamentação séria para que essas mulheres possam trabalhar no que elas querem sem serem abusadas’’, declara.

A interpretação não é o único lugar no qual Letícia pratica a sua arte. Na banda ‘’Cabaré do Xote Moderno’’, a atriz explora a musicalidade brasileira, cuja base é o cancioneiro nordestino, por meio de uma mistura entre acordeão, violino, castanholas, entre outros instrumentos. Apesar de não ter nenhum disco lançado, apenas o single ‘’No Altar’’ – interpretado pela atriz em na novela ‘’Além do Tempo’’, exibida em 2015 -, o grupo reuniu composições autorais lançadas pela atriz no álbum do primeiro conjunto do qual fez parte, ‘’Manacá’’, e clássicos do forró, como os de Gonzaguinha, em um espetáculo que se modifica a cada apresentação com a colaboração do público. ‘’O Cabaré tem a ideia de ser um coletivo. Ele não é formado só pelas músicas, ele tem a formação que puder ter no momento, sabe? Sempre tem alguém que se apresenta no dia ou um convidado ali na hora. A ideia é fazer um show participativo mesmo. O cabaré está sempre com as portas abertas’’, explica. Com o apoio financeiro coletivo online, a banda pretende registrar os ensaios abertos em forma de clipe. ‘’Nós queremos juntar esse dinheiro e fazer um live section, que é um novo conceito de show que é parecido com um ensaio aberto, onde as pessoas podem participar. A ideia é registrar e gerar um conteúdo audiovisual, como se fosse um clipe’’, conta.

Projeto ”Cartas de amor e saudade”, que une disco e livro, foi produzido a partir da experiência que a atriz teve após o nascimento do filho. (Foto: Reprodução)

Além dos projetos realizados com a banda, a atriz, que sempre teve um contato íntimo com a música por conta da mãe que tocava piano em casa, também voa solo. Inspirado na experiência como mãe de Ariel, 9 anos, o projeto ‘’Cartas de Amor e Saudade’’ une um disco, lançado em 2013, de músicas compostas por ela mesma e um livro – cujo conteúdo é de recortes, textos, fotografias e colagens -, lançado em 2017. Juntos, eles formam um diário sensorial e atemporal sobre esse momento da vida da artista. ‘’O livro tem uma metalinguagem que completa com as musicas. Ele é muito interpretativo e muito ilustrativo. Mas ele não é uma obra literária, não conta uma historia de inicio, meio e fim. É uma cosa mais sensorial mesmo, é como se você saísse de viagem e levasse um caderninho, sabe? Só que é uma viagem muito louca que vai e volta no tempo, ela não é linear’’, afirma.

Por ser um projeto independente e totalmente artesanal devido à falta de incentivos, toda a divulgação e comercialização dele ficou por conta da atriz através da sua conta no instagram. Contudo, apesar das dificuldades, tudo valeu a pena quando Letícia começou a receber feedback de pessoas que admiravam o seu trabalho. ‘’Claro que o projeto já existia pra mim, eu já estava realizada em ter aquele diário ali comigo, mas é muito legal quando você vê outras pessoas interessadas, porque não é um produto que está no mercado’’, diz. Para ela, a melhor parte dessa experiência toda foi poder se comunicar com pessoas de todo país, como na época das cartas. ‘’O que eu mais gostei de fazer foi a parte do correio. Eu adoro correio. Tanto que isso fica claro no nome do projeto. Eu gosto da ideia da carta viajar no tempo, no espaço, é uma informação que demora pra chegar e quando chega já aconteceu outra coisa. É muito diferente dessa comunicação de whatsapp e email que banaliza a comunicação.’’ Com uma bagagem tanto no teatro quanto na música, Letícia resolveu transformar o projeto em uma apresentação na qual recita os textos do livro após interpretar as canções do disco acompanhada apenas do som do acordeão.

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Mãe intensa de Ariel, como a atriz descreve a relação com o filho, Letícia Persiles, assim como a maioria das mães, viveu um período de descoberta durante e após a gravidez. ‘’O momento que você descobre que você está grávida e depois todas as etapas que vem depois, realmente, transformam o seu ponto de vista com relação ao mundo porque você passa a ser o mundo de outro ser. Eu acho que a maternidade traz um auto conhecimento que é fundamental para as mulheres’’, conta a atriz que faz questão de levar para a educação do filho as questões atuais, como feminismo e direitos LGBTQ+. Letícia ainda completou dizendo que só consegue se manter tão presente na vida do filho por conta da flexibilidade da profissão, um privilégio que, infelizmente, não contempla todas as mulheres do mercado de trabalho.

Seja na televisão, no teatro, na música ou até mesmo dentro de casa, Letícia Persiles sempre arranja um jeito de dar voz à sua arte. No entanto, devido à atual conjuntura sociopolítica brasileira, a cultura sofre um momento sombrio, de modo que manifestações artísticas sofrem com a falta de incentivo. Para ela, a arte tem como função abrir espaços e gerar coletivos de resistência. ‘’Eu não quero dar opinião pessimista não, mas a arte tem que ser ferramenta de resistência senão tem alguma coisa errada. O artista tem que estar atento ao entorno para poder bater de frente com o que a gente considera errado e injusto. Isso é inerente à arte, tem que ser. A arte que é feita hoje é com esse espirito, porque é tudo contra ela. Se a gente não começar pensar coletivamente a gente não vai conseguir realizar os nossos projetos artísticos e culturais’’, reflete. Apesar das tão visíveis dificuldades nesse segmento, a atriz e cantora planeja dar continuidade aos projetos da banda ‘’Cabaré do Xote Moderno’’ e do livro que faz parte do ‘’Cartas de Amor e Saudade’’, mas com relação a novos voos, Letícia foi bem direta: ‘’É um dia após o outro, acho que a gente tem que ter planos, mas ter calma e paciência.’’ Desculpa, Letícia, mas já estamos ansiosos para saber o que vem por aí!

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