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Nathalia Dill fala sobre as nuances de sua personagem em Orgulho e Paixão e o lado feminista da protagonista, inspirada na obra de Jane Austen

A atriz fará a personagem principal da próxima novela das 6, Elisabeta, que foi inspirada na figura icônica da mocinha do livro Orgulho e Preconceito. A partir deste tema, ela soltou o verbo sobre questões de igualdade de gênero que estão muito presentes na imagem na relação da principal com a mãe e o rapaz por quem está apaixonada na trama

Publicado em 6 de março de 2018 | Por Ana Clara Xavier

A nova novela das 6 promete arrancar muitos suspiros do público e, ao mesmo tempo, potencializar algumas reflexões importantes. Uma das grandes responsáveis por esta característica marcante de Orgulho e Paixão é a própria personagem de Nathalia Dill, Elisabeta. O papel é livremente inspirado em uma das mocinhas mais citadas quando o assunto é a literatura de Jane Austen, Elisabeth, figura presente no romance Orgulho e Preconceito. “Apesar se ser um romance, existe uma crítica muito grande feita nas entrelinhas pela escritora. E isto é potencializado na Elisabeta do Marcos Bernstein. Há um contraponto bem grande, pois ela é romântica e, ao mesmo tempo, não concorda como a sociedade é estabelecida, quer trabalhar e ver o mundo. A personagem, na dramaturgia, está vivendo a época da industrialização, então é afetada por várias esferas”, contou Nathalia. Para fazer esta personalidade, a atriz fez o dever de casa desde outubro do ano passado, quando já tinha colocado o livro na sua cabeceira para ler todos os dias à noite. Ela garantiu que desde um primeiro momento já tinha uma vontade de fazer a Elisabeta. Dessa forma, se baseou muito nesta leitura e nos capítulos da trama para fazer esta interpretação. “Confesso que fiquei com vontade de assistir ao filme e acho que vou fazer isso agora, porque já gravei muitos capítulos, então já foi. Não tem mais como me inspirar na atriz do longa”, confidenciou. A preparação para esta narrativa contou ainda com aulas de etiqueta e passeios a cavalo.

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Elisabeta pode ser descrita como uma figura bastante colorida. Ao mesmo tempo em que tem um espírito aventureiro, que a faz ir contra a sociedade, ela é bem humorada, inteligente e divertida. “Tem o drama, o romance e a comédia. Os embates com o Darcy e a mãe são muito ritmados, o que deu para imprimir uma teatralidade muito legal. Esta disputa ideológica não a torna ranzinza e sofrida. Ela tem uma língua afiada, de quem não leva o desaforo para casa, o que é muito bonito, significante e difícil de fazer. Tanto eu como o diretor, Fred Mayrink, e o autor, Marcos Bernstein, estamos mostrando esta personagem como uma pessoa ligada o tempo todo a tudo. Como atriz, tento fazer isto também observando outros atores, a locação e o cenário para estruturar e conseguir jogar com todos os elementos o máximo possível”, afirmou a atriz.

Esta personagem histórica caiu como uma luva para a atriz, já que ela compartilha sentimentos muito parecidos com o da protagonista. “A época dela era muito atrasada para as mulheres da mesma forma que ainda é”, lamentou. Nathalia Dill é militante da causa feminista e sempre falou abertamente sobre o tema. A insatisfação com a forma como a sociedade está estruturada é algo que perdura até hoje. Enquanto naquela época não querer se casar já era uma afronta ao sistema, atualmente a igualdade salarial e o fim do assédio são temas que causam polêmica. “É uma luta muito grande porque é preciso ir contra uma estrutura. Qualquer novidade é muito doída e sofrida. O fato dela não abaixar a cabeça nas situações e não aceitar o status quo como já são coisas que me inspiram. Quanto mais conseguir colocar esta energia nela será melhor”, comentou.

Elisabeta deixa claro para rodo mundo que é
dona do próprio nariz e, contrariando a sociedade, não quer se casar (Foto: Fábio Rocha/Gshow)

De acordo com a artista, esta característica de confronto aos padrões machistas da sociedade acontece desde que o mundo começou. “Todas as mulheres sempre estiveram à frente de seu tempo porque os anos sempre estão atrasados para elas, assim como para outras minorias. Quando a gente está ouvindo o nosso desejo e querendo viver os nossos sonhos, naturalmente, já estamos nos destacando. A Elisabeta é vítima da época como todos nós somos”, sugeriu. Além disso, esta imposição da sociedade no ramo dos relacionamentos amorosos, segundo Nathalia, continua até hoje para o gênero feminino. “A vida pessoal nunca foi desvinculado das mulheres. É muito mais perguntado para as atrizes, por exemplo, se elas terão filhos do que para os homens. Difícil ver uma chamada de um artista dizendo ‘quero engravidar com a minha esposa’, não tem. O lar sempre esteve mais no entorno da sociedade e por isso fica mais difícil de desatrelar. Acho que por isso sempre parece que falta um pedaço para nós”, complementou.

De acordo com Nathalia, é exatamente a partir desta ideia de quebra de paradigmas que o casal Elisabeta e Darcy acaba se formando. “Os dois estão fora do lugar deles, deslocados no tempo. Ela não concorda com o fato de que a mulher tinha que servir o homem, afinal esta era a forma que tinham de se sustentar e sobreviver. Ao mesmo tempo, ele não concordava com a estrutura de moças na prateleira, no qual teria que escolher alguma que lhe agradasse. Acho que a partir deste pensamento diferente é que eles se encontram”, analisou. Ao se apaixonar, a mocinha fica muito nervosa com este sentimento, sem saber como lidar com aquilo. Isto acontece porque o casamento, naquele momento, ia contra os seus princípios. “Às vezes, estamos tão focados em uma coisa e acabamos não olhando para o lado. Quando vemos esta nova possibilidade, ela já está super presente na nossa rotina. Nada acontece por acaso”, afirmou.

Darcy e Elisabeta acabam se apaixonando, apesar de serem muito diferentes e não concordarem com a regra que afirma que os homens devem escolher as mulheres (Foto: João Miguel Júnior/Gshow)

Darcy, vivido por Thiago Lacerda, é uma pessoa misteriosa e aguça a curiosidade dos moradores por ser uma figura desconhecida naquela região do Vale do Café. Um perfil completamente diferente de Ernesto, interpretado por Rodrigo Simas. “O personagem dele vem do mesmo lugar que Elisabeta, pois cresceram juntos e são amigos. Ambos compartilham as mesmas questões libertárias. Há uma irmandade genuína”, comentou a atriz. Estes personagens compõem um triângulo amoroso e, diferentemente do senso comum, Ernesto não será um vilão, pelo contrário, é uma pessoa muito boa que coloca a felicidade da amiga acima de seus sentimentos.A figura que mais ficaria feliz com o casamento de Elisabeta é a própria mãe da jovem. A mais velha é uma das maiores representantes destas esferas bem rígidas e bem estabelecidas da sociedade. “O que acho legal é que a Vera Holtz não está fazendo uma mãe opressora, na verdade ela quer que as filhas sobrevivam. O sentimento é genuíno. É uma necessidade econômica mesmo, tanto que no livro o pai deixa um testamento que, se nenhuma das filhas casar, a mansão ficaria para o primo dele, ou seja, não teriam para onde ir. A atriz está conseguindo desempenhar este papel com muito humor o que torna o embate entre elas unicamente ideológico, sem ser ríspido. Isto traz para toda a família um ar extremamente bem humorado. É uma sacada maravilhosa”, analisou.

Nathalia Dill na coletiva de lançamento da nova novela das 6h (Foto: Fábio Rocha/Gshow)

Existe outro embate ideológico muito interessante na trama na amizade entre Elisabeta e Ema, interpretada por Agatha Moreira. Isto porque a segunda personagem é o oposto da figura libertária da protagonista, por ser uma mulher cuja vocação é ser a casamenteira das amigas. “Ela vive na aristocracia, o avô dela é Barão e vive totalmente de acordo com os padrões da época. Ao mesmo tempo, existe essa amizade verdadeira e uma discussão entre o certo e errado. Tentam convencer uma a outra e depois desistem. Mas acima de tudo muito respeito e parceria”, comentou Nathalia.

Desde o início de sua carreira, a atriz fez parte de mais de dez novelas e sempre tendeu a interpretar a mocinha. No entanto, este fato não impediu a mesma de crescer como profissional. “Não acho que a minha carreira seja parecida, porque um novo personagem sempre muda o ator. O importante é pegar papéis que sejam coloridos, tenham as suas questões como a Elisabeta. Tenho muito orgulho da minha trajetória”, afirmou.

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