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Grupo de cineastas se lança no mercado audiovisual com um filme cheio de metalinguagens e viabilizado através de crowdfunding

O longa-metragem B.O, ou seja, Baixo Orçamento fala de jovens que estão buscando o seu espaço dentro da indústria cinematográfica e, para isso, produzem um filme de baixo orgamento. Bruno Bloch, Daniel Belmonte e Pedro Cadore vão lançar esta produção na primeira edição do FICA.VC, o Festival Internacional Colaborativo Audiovisual

Publicado em 30 de novembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

B.O. é um filme dentro de outro que será lançado em um festival que fala sobre baixo orçamento
(Foto: Divulgação)

O filme B.O. fala sobre jovens cineastas que ainda não conseguiram se encaixar no mercado e pensam em mudar de profissão. No entanto, decidem se unir para fazer um último filme na busca de tentar, mais uma vez, apostar na carreira artística. O drama que eles estão produzindo foi feito através de um orçamento muito baixo, uma realidade parecida com a dos amigos Bruno Bloch, Daniel Belmonte e Pedro Cadore. A verdade é que a realização deste longa-metragem é repleta de metalinguagens, porque estamos falando de uma produção real construída a partir da tentativa de personagens que estão buscando criar uma narrativa cinematográfica, assim como os seus idealizadores. “Às vezes, nós ficávamos confusos porque eu dirijo, mas também faço o papel do diretor do filme. Estava dirigindo a cena dentro da minha atuação. Foi uma loucura de fato”, explicou Daniel. Logo, B.O. é um filme dentro de outro.

Escrito e idealizado pelos três jovens cineastas, o roteiro só foi possível a partir da arrecadação de dinheiro pela internet, depois de duas outras tentativas dos rapazes de lançar uma montagem unicamente deles. Apesar de terem começado o projeto do zero, eles conseguiram juntar quase oitenta profissionais para trabalhar neste longa. “Escrevemos dois roteiros e lutamos muito para conseguir fazer, mas não conseguimos nas duas tentativas. Percebemos que continuaríamos tentando, mas não iria adiantar neste momento. Tivemos a noção de que precisávamos escrever algo que nós mesmos pudéssemos produzir. Quando falamos isso, percebemos que tínhamos uma ideia em mãos. Aquela conversa era o que deveríamos contar”, explicou o diretor e escritor Daniel Belmonte que tem 24 anos e se formou no ano passado na faculdade de cinema e já dirigiu quatro peças. Todas as cenas foram gravadas dentro de um apartamento pequeno e isto só foi possível porque o enredo do drama que estava sendo feito pelos personagens também se passava naquele local.

O título B.O.faz referência ao baixo orçamento (Foto: Divulgação)

O longa-metragem B.O., que significa Baixo Orçamento, nasceu de uma vontade dos três amigos de se lançarem no mercado audiovisual. No entanto, Daniel já tinha contribuído com alguns roteiros enquanto o Bruno Bloch, de 30 anos, e o Pedro Cadore, de 27 anos, participaram de outros dois filmes. Mesmo já tendo participado de outros trabalhos, os rapazes acreditam que esta produção será capaz de lançá-los no meio. “Antes deste filme eu e os meus sócios já havíamos escrito outros dois roteiros, no entanto não tínhamos conseguido ainda produzir e viabilizar. Em determinado momento nós nos reunimos e vimos a necessidade de criar um projeto que nós mesmos pudéssemos executar. Além de querer materializar os nossos anseios, este longa seria capaz de nos lançar no mercado como três rapazes que estão no meio. Não sei se de fato ele será um sucesso capaz das pessoas nos perceberem, mas é uma maneira de dar uma forma cinematográfica aos nossos pensamentos. B.O. será o nosso cartão de visitas”, garantiu Daniel. Além de ser idealizado por estes rapazes, a equipe é inteiramente jovem. O diretor de fotografia e o figurinista, por exemplo, estão assinando o seu primeiro longa. A diretora de arte já tinha feito outro longa, mas é bem nova. Logo é um grupo de pessoas que estão ansiosas por expor o seu trabalho.

O enredo fala sobre um filme de baixo orçamento mostrando as dificuldades que os cineastas enfrentam ao começar a carreira. Dessa forma, a história é levemente autobiográfica, de acordo com Daniel, por se parecer muito com o drama que os três escritores estão enfrentando para entrar no mercado. “O filme fala, principalmente, sobre três coisas que nós vivemos. A primeira é sobre como não desistir dos nossos sonhos, mesmo com todas as pressões ao redor. A segunda ideia é uma paródia, uma brincadeira sobre o mercado que quando estamos começando uma profissão sempre temos a dificuldade de achar o nosso espaço. A última é a força da coletividade, como uma ideia que era minha e dos meus amigos se transformou em um filme graças ao trabalho em conjunto de todos”, explicou o rapaz.

Cerca de 25 pessoas da equipe passaram alguns dias convivendo em um apartamento pequeno para as gravações (Foto: Divulgação)

Apesar de falar sobre a própria forma de fazer, viabilizar e produzir um filme, Daniel Belmonte garantiu que o enredo não traz uma sátira sobre o meio. “Estamos começando a entender o funcionamento deste mercado, por isso não posso dizer com propriedade que fizemos uma sátira sobre o cinema. No entanto, trazemos a visão de jovens que estão tentando se inserir. Todo mundo já viveu esta situação de fazer um filme de guerrilha, em que gravamos em um lugar pequeno e os almoços são péssimos. No fundo, falar sobre o meio é apenas uma deliciosa perfumaria para mostrar, no final, a importância de seguir os nossos sonhos”, contou. Este incentivo exposto no filme acaba servindo para os próprios roteiristas. De acordo com Daniel, ele pensa em desistir o tempo inteiro da profissão devido a instabilidade que ela traz. “O problema é que não sei fazer outra coisa, mas é um eterno drama não ter uma expectativa a longo prazo”, destacou.

Mesmo com toda esta dificuldade e indecisão dos roteiristas, existe uma luz no fim do túnel. O longa-metragem recebeu o apoio, depois de filmado e editado, do Canal Brasil que entrou como co-produtora do filme. Para completar, B.O. vai abrir a primeira edição do FICA.VC, o Festival Internacional Colaborativo Audiovisual,  que fala exatamente sobre este universo do crowdfunding citado no longa e que possibilitou a produção do mesmo. “Nunca esperamos experimentar isto, porque estamos abrindo um festival que está na sua primeira edição e fala sobre a mesma coisa que trazemos neste filme. O evento fala sobre este universo novo cheio de possibilidades e por isso é muito bom dar espaço a estas produções independentes. É um longa dentro de outro que faz parte de um festival que fala sobre o mesmo tema, ou seja, apenas ajuda a aumentar esta metalinguagem doida e divertida. Se não fosse este crowdfunding, este mecanismo que possibilita as pessoas criarem, se não fosse o festival que dá luz a estes projetos e se não fosse a parceria com os meus sócios esta montagem não seria possível. No final, tudo está se conectando”, comemorou o roteirista. Além de toda esta colaboração monetária, nada seria possível também sem a raiz do longa que foi a parceria entre os sócios.

O fato do crowdfunding ajudar novos cineastas a produzirem o seu filme, o financimento não pode ser a única via de arrecadação da indústria, segundo Daniel Belmonte (Foto: Divulgação)

Inicialmente, os três amigos passaram dois anos escrevendo o roteiro. Neste período, eles tentaram viabilizar o filme através do próprio bolso, fazendo economias para financiar a produção. No entanto, para chegar ao resultado final, perceberam que tinham pouco dinheiro o que se fez necessário apelar para o financiamento coletivo. “Se está difícil tomar um café, imagina fazer um filme, né? É extremamente importante esta plataforma on-line porque ela possibilita que cada um faça o seu próprio trabalho. O financiamento colaborativo coloca em contato o espectador com o artista. O sistema ajuda a viabilizar novos projetos como o próprio B.O. e a peça que dirigi em 2014, A Carta Perdida, quando levantamos trinta e cinco mil reais, um dinheiro que nos ajudou muito a fazer”, contou o diretor Daniel. Depois de finalizadas as gravações, os rapazes ainda passaram quase um ano editando.

Que o crowdfunding abre portas isto já ficou claro, no entanto este sistema on-line ajuda a mudar a relação dos artistas com o próprio meio de trabalho. Profissionais que estão começando, por exemplo, não precisam mais depender de empresas para se lançar no mercado. Apesar disso, Daniel Belmonte deixa claro que ainda é preciso contar com grandes empresas e com o apoio do estado nestas produções. “O financiamento coletivo ajuda quem precisa criar algo independente, por abrir um espaço maior para todos aqueles que queriam produzir. Ele aumenta a gama de novos projetos que são de pessoas que estão começando ou são produções fora do eixo. Dessa forma, esta técnica traz uma liberdade e um mar de possibilidades. No entanto, as grandes empresas e o Estado também são essenciais”, afirmou.

 

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