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Das páginas escritas por Jorge Amado ao cinema brasileiro: A segunda adaptação de Dona Flor e Seus Dois Maridos chega às telonas

O longa conta com um elenco de peso como Juliana Paes, Leandro Hassum e Marcelo Faria. A produção é uma consequência do sucesso da peça, que entrou em cartaz em 2007. Depois de dez anos, o diretor do filme e do espetáculo, Pedro Vasconcelos, lança o seu segundo filme, com uma homenagem ao ator Duda Ribeiro que faleceu no ano passado: "Nós queríamos muito a presença de uma pessoa que não pode estar aqui conosco, o Duda Ribeiro, na verdade, acredito que esteja aqui de uma forma sobrenatural, porque acredito nisso"

Publicado em 9 de novembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Recriar um clássico da literatura é sempre mais complicado do que começar uma história do zero, seja uma adaptação para o teatro, a televisão ou o cinema. Isto porque a equipe precisa de uma extensa pesquisa bibliográfica para tornar aquele conteúdo o mais fiel possível. Se este livro já foi revisitado várias vezes por outros membros da comunidade artística, o desafio é ainda maior devido à qualidade das versões anteriores. Críticas sempre existirão, afinal, estes recortes mexem com a memória afetiva do público. Este é o caso complexo no qual o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Pedro Vasconcelos, se insere.

O roteiro foi inspirado no clássico do escritor Jorge Amado, um exemplar constantemente abordado nas escolas e no dia a dia dos brasileiros. Esta, no entanto, não foi a primeira releitura do romance que, inclusive, já possui um longa-metragem, produzido em 1976. Apesar disso, o diretor orquestrou, há dez anos, uma montagem para o teatro que acabou gerando o filme atual. “Quando nós montamos e fizemos a pesquisa para a peça, nós entendemos que existia muito mais material naquele livro do que o abordado, até o momento, na televisão e no cinema. Por isso praticamente filmamos o olhar que trouxermos do teatro, por isso a nossa adaptação é muito parecida com o que já fizemos nos palcos. O livro te fornece muitas possibilidades e muitos lugares gostosos para ir. Podem ter dez versões cinematográficas e teatrais desta história que o enredo ainda não terá se esgotado. Foi uma delícia de fazer”, afirmou Pedro Vasconcelos. O diretor não foi o único a levantar esta tese. Juliana Paes interpreta a Dona Flor e também possui a mesma visão do romance: “Tem tanta coisa no livro, está tudo ali. Se você pesquisar direitinho, pode fazer uma lista com todas as características da personagem”.

A peça original ficou cinco anos em cartaz, depois da estreia em 19 de outubro de 2007. Já que o projeto inicial foi do próprio diretor, o roteiro acabou sendo muito parecido com o teatral. Além desta questão, o espetáculo emprestou algumas ideias que tornaram o filme esteticamente diferente de outros. “O longa possui uma característica de diretor de teatro, porque coloquei as câmeras na altura que a platéia assiste, mais baixo que o normal. É uma produção mais teatral do que cinematográfica”, exemplificou. O fato deste lançamento ter nascido de um trabalho tão gostoso fez com que o projeto se tornasse ainda mais especial, afinal, o espetáculo foi um sucesso de bilheteria com cerca de quinhentas mil pessoas.

Dona Flor e seus dois maridos, literalmente, na estreia do longa (Fotos: Reginaldo Teixeira/CS Eventos Divulgação)

Depois de todo este sucesso, eternizar esta produção em um longa já era um sonho antigo da equipe. A ideia também era mostrar para as novas gerações a história de Dona Flor e Seus Dois Maridos. Ao longo deste processo a equipe precisou readaptar algumas linguagens para as câmeras. “No teatro, obviamente, temos que colocar mais a voz e o corpo, já no cinema acaba sendo algo mais íntimo, faz com que tenhamos mais critérios no gesto e no olhar”, comentou Marcelo Faria.

Outro membro muito importante deste time foi o próprio Marcelo. Além de produtor do longa, o artista reviveu, no teatro e no filme, o mesmo personagem. Ele interpretou, durante todos estes anos, o Vadinho, o falecido marido de Dona Flor. O ator já sabia todas as falas de seu papel e o de sua mulher, logo, não houve necessidade de uma pesquisa muito extensa por já viver o Vadinho durante muitos anos. Ao mesmo tempo, isto acabou se tornando uma dificuldade já que estava acostumado a fazer a versão teatral. “Fomos trabalhando para diminuir um pouco das atitudes em cena do Marcelo que estava acostumado com a grandiosidade dos palcos. Embora eu tenha me controlado nestas dicas, poucas vezes pedi para ele trabalhar menos devido ao medo que tive de abafar a energia que conseguiu manter no Vadinho. Queria o mesmo desempenho que o ator tinha no teatro”, informou o diretor. De tanto interpretar este indivíduo, Marcelo já consegue se identificar com certas atitudes como a liberdade e a alegria de viver.

Marcelo Faria ao lado de Leandro Hassum na estreia do filme (Fotos: Reginaldo Teixeira/CS Eventos Divulgação)

Uma das polêmicas que surgiu junto da atuação de Marcelo Faria no cinema foi o fato de ele estar constantemente pelado nas gravações. O ator não viu a necessidade de um tapa sexo já que existia a exigência de fazer um papel que incluía a nudez. “Fiquei em grande parte das cenas pelado devido às exigências do personagem, mas a lente protege. A questão não é a nudez ser ou não algo normal para mim. O meu papel é o de um fantasma que está constantemente pelado, se isto faz parte do meu trabalho então não vai me incomodar”, explicou o ator. O elenco afirmou que já estava acostumado a ver o colega andando pelado e fizeram, até mesmo, brincadeiras com este fato. “A nudez, na verdade, é um tabu bobo. Havia uma exigência que ele ficasse daquela forma o tempo inteiro e não tinha outra saída, precisava se acostumar. Acho que fez bem em ficar bastante à vontade. Além disso, tem uma hora que ninguém se importava mais”, desmistificou Juliana Paes.

O ator que fez o Dr. Teodoro ao longo de boa parte da trajetória teatral também estava no filme, mas fazendo um personagem menor. Na época das gravações, Duda Ribeiro já estava muito doente e por isso não pode assumir um papel tão constante. Ele faleceu em 2016 e Dona Flor e Seus Dois Maridos foi o último projeto que fez antes de partir por causa do câncer.  “Nós queríamos muito a presença de uma pessoa que não pode estar aqui conosco, o Duda Ribeiro, na verdade, acredito que esteja aqui de uma forma sobrenatural, porque acredito nisso. Mas, graças a Deus, ele foi substituído pelo melhor cara de humor deste Brasil. Que o gênero não seja tratado com preconceito e com desprezo, porque em um país como o nosso que está sendo maltratado diariamente por tantas coisas, nós precisamos sorrir. Por isso, obrigada por nos proporcionar isto, Leandro Hassum”, discursou Pedro Vasconcelos na noite de lançamento do longa.

Leandro Hassum, Pedro Vasconcelos e Juliana no tapete vermelho (Fotos: Reginaldo Teixeira/CS Eventos Divulgação)

Teodoro, desta forma, foi interpretado pelo comediante Leandro Hassum que teve que lidar com a cobrança de fazer um personagem eternizado na história da dramaturgia brasileira, como o próprio Duda Ribeiro, no teatro, além de Marcos Nanini, na televisão, e Mauro Mendonça, no cinema. “É a primeira vez que faço o Teodoro. Fico muito feliz e honrado de ter sido escolhido. Acho que emprestei para ele um pouco do meu humor e da minha comédia. Tem a minha assinatura, mesmo sem deixar de respeitar a obra de Jorge Amado que tenho certeza que não precisa de muito retoque”, garantiu Leandro.

A protagonista feminina é um elemento essencial neste longa, já que existe um mergulho na alma desta mulher. Assim como a escolha de Teodoro, a atriz que fez Dona Flor nunca havia feito a personagem anteriormente. Não havia, neste caso, a necessidade de continuar com a figura teatral da personagem já que houve uma troca constante nos palcos. Nos cinco anos em cartaz, esta figura ganhou forma nas atrizes: Carol Castro, Fernanda Vasconcelos e Fernanda Paes Leme. “A Juliana foi a nossa primeira ideia para fazer a Dona Flor quando montamos a peça, mas devido à agenda não pode na época. O teatro possui um compromisso de longo prazo, o que é difícil da pessoa ter disponibilidade de fazer”, comentou o diretor. Dessa forma, o convite foi refeito quando surgiu a possibilidade de fazer o filme e Pedro Vasconcelos lembrou automaticamente da atriz. Juliana Paes atuou pela segunda vez em um trabalho de Jorge Amado, por coincidência ou não. “Não sei se isto foi algo do subconsciente, mas o nome dela veio na cabeça instantaneamente. É um lugar comum para qualquer diretor”, afirmou Pedro.

De acordo com o diretor, Juliana Paes está em seu melhor momento (Fotos: Reginaldo Teixeira/CS Eventos Divulgação)

Devido a participação de Juliana Paes no elenco, o filme estreia em um momento muito oportuno. Em A Força do Querer, a atriz ganhou muita repercussão ao fazer a Bibi o que trará um publico ainda maior para as salas de cinema. “A data de lançamento não foi nada programada, mas acho que Jorge Amado nos deu uma forçinha.  Filmamos em julho do ano passado e pensamos em divulgar no meio deste ano, mas foi mudando até chegarmos em novembro. A Juliana está em um momento muito feliz da carreira, estávamos trabalhamos juntos na novela também. Está brilhando”, completou o diretor.

 

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