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Comum nos Estados Unidos, Rodrigo Bernardo é exemplo do conceito de showrunner nos bastidores do audiovisual brasileiro: “É uma missão complicada”

Em seu atual projeto, a série do canal Sony [Des]Encontros, ele é diretor, roteirista e produtor do produto. "É muito cansativo. Eu tenho um excesso de trabalho absurdo e o meu maior desafio é conseguir dormir bem", disse Rodrigo que, por outro lado, reconheceu o lado positivo da carga triplicada. "É bom porque eu consigo fazer toda a concepção artística"

Publicado em 8 de Fevereiro de 2018 | Por Julia Pimentel

Roteirista, diretor, produtor. Se fosse para assinalar sua profissão, certamente, Rodrigo Bernardo marcaria todas as opções. O multihabilidoso, no entanto, resume tudo isso em um termo incorporado do mercado norte-americano. Aqui no Brasil, Rodrigo é um exemplo de showrunner. “Lá fora é comum que tenha uma figura que se responsabilize por toda a parte criativa, mas também pela escolha do elenco, produção e até a definição de qual será a cor da parede da casa”, contou.

E é isso o que ele faz em [Des]Encontros, sua série para o canal Sony que já está na segunda temporada. Em oito episódios, a trama conta a história de casais vão em busca de sua alma gêmea. “Esses personagens acreditam no amor e nessa história de par perfeito. Mas e aí, cadê essa pessoa? Será que ela está na China ou é a minha vizinha que eu ainda não conheci? Ou até a minha ex, que terminou comigo porque fiz tudo errado?”, explicou o showrunner que adiantou que, no fim, o amor sempre vence “Eu sei que é um spoiler, mas todo episódio temos um final feliz”, contou.

Para contar essas histórias, Rodrigo Bernardo leva para a séria uma realidade de nossas vidas: o cruzamento entre as relações. “Assim como acontece com a gente, na série, o amigo de um personagem é irmão da namorada de outro e outras histórias desse tipo. Isso é muito comum de acontecer e eu quis levar esse cruzamento de universos para os episódios. Fora que eu acho que isto também reflete o nosso momento, em que estamos todos conectados de várias formas diferentes, mas ao mesmo tempo”, disse Rodrigo que também adiantou que haverá um evento que será ponto de encontro para todo o elenco. “Um dos casais vai se casar e todos os outros personagens vão estar nesse dia. Cada um vai viver este momento de uma forma e ter uma relação com os noivos, mas será um acontecimento único”, afirmou.

Em [Des]Encontros Rodrigo assina a produção, direção e roteiro da série (Foto: Guilherme Raya)

Aliás, este é outro ponto interessante de [Des]Encontros. De acordo com o showrunner, mesmo com esta ligação entre os episódios, toda a série pode ser assistida em ordem aleatória. “Os oito capítulos contam histórias separadas, mas que acabam se cruzando de certa forma. Porém, mesmo se assistir em outra ordem, o espectador vai entender tudo. A diferença vai ser que cada um terá surpresas em momentos diferentes. Mas, no fim, a história será contada de maneira completa”, explicou.

E esta é uma das virtudes de ser a figura criativa de um projeto como um todo. Nesta função de showrunner, Rodrigo Bernardo assume a responsabilidade de diversas áreas simultâneas e consegue, assim, administrar a uniformidade de seu trabalho. “É uma missão complicada, mas, por um lado, é bom porque eu consigo fazer toda uma concepção artística do que eu quero contar. Enquanto eu estou escrevendo, já estou pensando em quem pode ser o ator, como será a cena etc. Eu trabalho de ponta a ponta e isso ajuda no resultado final”, defendeu Rodrigo que, apesar de destacar sua multitarefa, não recomenda o trabalho triplicado. “É muito cansativo. Eu tenho um excesso de trabalho absurdo e o meu maior desafio é conseguir dormir bem”, contou.

No entanto, esta também foi a solução achada por Rodrigo para que seu projeto saísse do papel. Na carreira, o showrunner se definiu como teimoso e primoroso e, por isso, explicou que preferiu assumir algumas posições a mais para que tudo saísse da forma esperada. “Foi a maneira que eu achei de concretizar um projeto que eu acreditava. Talvez, se eu ficasse só escrevendo a história, estaria até hoje esperando a ligação de uma produtora. E é bem provável que não teria. Então, eu preferi eu mesmo correr atrás para tirar esse projeto do papel”, contou Rodrigo Bernardo que confessou nunca ter pensado na área de produção. “O meu negócio é escrever histórias e dirigi-las. Mas, para concretizar isso, eu entendi que precisava ir um pouco além”, explicou.

Assumir as multitarefas também foi a forma encontrada por Rodrigo para tirar o projeto do papel (Foto: Guilherme Raya)

Inclusive, Rodrigo Bernardo defendeu que esta é uma postura que não deve ser exclusiva dele. Para o showrunner, a coragem de descobrir novas áreas do audiovisual pode estar diretamente ligada à possibilidade de realizar sonhos. “É muito legal quando a gente consegue focar em apenas uma profissão, na nossa maior paixão. Mas a partir do momento que você precisa de outras habilidades para fazer aquilo valer, eu acredito que a gente tenha que investir e correr atrás”, reforçou.

Mesmo assim, ainda é a profissão de contador de histórias que enche os olhos de Rodrigo. Para ele, este é o principio para que qualquer projeto se desenrole em outras áreas e com a ajuda de outros profissionais. “Uma boa história nunca pode faltar. É o começo de tudo e o que vai dizer se o projeto vai existir ou não. Depois disso é que começamos a pensar em produtor, diretor etc”, disse Rodrigo Bernardo que, aliás, afirmou que o mercado brasileiro está aquecido para novos projetos. “Nós estamos vivendo um momento muito bom com os canais e empresas se interessando por produtos nacionais. Com o boom das séries, por exemplo, temos um novo cenário em que todos saem ganhando. Na frente da televisão o público tem uma história mais próxima da sua realidade e dentro de sua cultura e, atrás das câmeras, uma equipe trabalhando”, analisou.

Por falar nisso, estar em atividade é para Rodrigo Bernardo um dos segredos para a profissionalização. “Quando a gente está praticando, estamos aprimorando e aprendendo cada vez mais”, destacou o showrunner que afirmou que hoje o Brasil está no mesmo nível dos Estados Unidos na parte técnica. “Nós estamos super bem. Temos incríveis fotógrafos, roteiristas e diretores aqui e isso mostra o quanto a nossa indústria audiovisual está crescendo. Eu sou otimista e, embora enxergue que neste momento estamos engatinhando ainda, acredito que em breve a gente chega na Série A”, brincou.

E ele segue fazendo a sua parte. Além da segunda temporada de [Des]Encontros, Rodrigo Bernardo tem outros projetos para 2018. O showrunner, que já gravou a série por cinco semanas e ainda tem alguns dias de filmagem até a estreia no inicio do segundo semestre, adiantou que possui mais duas novidades para o cinema. Uma é o filme “Talvez Uma História de Amor”, que estreia em junho, com Mateus Solano, Nathalia Dill, Dani Calabresa e grande elenco. A outra é a biografia de Chorão, do Charlie Brown Junior. “Eu vou começar a desenvolver a história dele no segundo semestre. Minha maior motivação para este projeto é contar sobre uns moleques de Santos que viraram referência no país e eram considerados a maior banda de rock da época. E é claro, os caminhos certos e tortos que eles passaram até conquistar isso também vão estar presentes”, adiantou Rodrigo Bernardo.

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