Cinema & TV

Como uma doleira em “O Mecanismo”, série da Netflix sobre a Lava-jato, Alessandra Colasanti comenta repercussão após lançamento e revela tristeza: “Afetada intimamente’

Desde a estreia, no dia 23 de março, a produção tem recebido críticas pela abordagem escolhida por José Padilha, diretor da série. Segundo a atriz, que interpreta Wilma Kitano na obra, o burburinho já era esperado. Mas, mesmo assim, surpreendeu. "Confesso que fiquei bem chateada e para baixo por alguns dias"

Publicado em 16 de Abril de 2018 | Por Julia Pimentel

(Foto: Priscila Jammal)

O assunto é sério, mas ela traz sensualidade e até deboche para a maior operação contra a corrupção do Brasil. Em “O Mecanismo”, série da Netflix sobre a Lava Jato, Alessandra Colasanti é Wilma Kitano, uma doleira sexy que trabalha com lavagem de dinheiro. No escritório de Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), chefe dos tramites ilegais, a personagem de Alessandra é quem fica responsável pelo repasses. No popular, a bandida pistoleira, como a atriz definiu. “Eu gosto de explicar ela assim, porque o trabalho dela é na parte de contravenção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ou seja, uma bandida. Mas ela também tem um pouco de pistoleira por causa da pegada sexual”, explicou Alessandra sobre a personagem que ainda é amante do doleiro Roberto Ibrahim.

Ao lado dele, os dois formam o casal de vilões da série, segundo Alessandra Colasanti. “Porém, mesmo sendo corruptos, eu acho que eles têm uma função de humor na história com um pouco de erotismo e deboche”, apontou. No entanto, o caminho de Wilma Kitano na operação da Polícia Federativa, como é chamado o órgão na série da Netflix, não é muito glamouroso. A doleira é a primeira a ser presa na investigação e dá início a uma sequência de prisões e conduções coercitivas. “Eu carrego isso com orgulho. A Lava-Jato é uma operação que está fazendo parte das nossas vidas há alguns anos. Para mim, é um desafio fazer essa personagem e estar nessa série porque é um assunto que pertence a todos os brasileiros. Estamos envolvidos nessas notícias e em pleno calor dos acontecimentos. Eu nunca tinha trabalhado com um evento histórico tão próximo da realidade. E isso, naturalmente, implica em reverberações variadas”, comentou.

Aliás, isto é uma questão forte desde a estreia da série. Depois de “O Mecanismo” lançar e contar em mais de 190 países sobre a operação Lava-Jato, comentários contra e a favor do enredo e da interpretação de José Padilha, diretor da obra, sobre o assunto têm movimentado as redes sociais. O burburinho, inclusive, ganhou ainda mais força por este ser um ano eleitoral, em que a expectativa por mudanças políticas está ainda mais latente. Sobre a repercussão, Alessandra Colasanti afirmou que já esperava algo parecido, mas não escondeu a tristeza ao falar de alguns comentários. “A gente tinha ideia que poderia acontecer, mas quando é real, é diferente. Eu confesso que fiquei um pouco afetada intimamente. Fiquei triste mesmo com a polêmica que envolveu os atores que fizeram a série. A violência de alguns comentários mexeu comigo”, afirmou.

(Foto: Priscila Jammal)

Mesmo estando acostumada a este cenário sobre outros assuntos nas redes sociais, Alessandra afirmou que quando ela e seu trabalho são o centro da questão, o sentimento é diferente. “Hoje em dia virou normal as pessoas defenderem suas ideias como se fossem verdades incontestáveis. Bem ou mal, estamos acostumados com essas polêmicas de redes sociais. Mas desta vez, eu estava envolvida. Confesso que fiquei bem chateada e para baixo por alguns dias. Porém, já processei isso dentro de mim e virei a página”, disse a atriz que não respondeu a nada que leu na internet. “As pessoas estão tão inflamadas e donas da verdade, que nem adiantaria. Eu concordo que todos temos direito de opinião e de expressão, mas algumas violências são desnecessárias”, analisou Alessandra.

E, assim como ela preferiu não dar seu parecer em meio a repercussão com o lançamento de “O Mecanismo”, Alessandra Colasanti também acredita que sua atuação na série também não tenha um posicionamento político por trás. “Eu acho que sempre existe uma responsabilidade do ator em cima de suas escolhas profissionais. Mas, neste caso, eu vejo a série como uma narrativa de ficção que teve como ponto de partida um caso real. Porém, é livremente inspirada”, apontou Alessandra que não acha que “O Mecanismo” terá qualquer influência sobre as eleições de outubro. “A série está cumprindo o seu papel de trabalhar a partir da realidade. Não é um retorno ao real, é ficção”, ressaltou.

De todo modo, fazer parte desta história foi um capítulo importante na trajetória de Alessandra Colasanti. “Para mim foi uma novidade porque é a primeira vez que estou fazendo um trabalho que estreou em 190 países simultaneamente, Foi algo muito novo para nós e isso teve um frisson que nos estimulou. Além disso, contar um evento histórico tão contemporâneo é um fato atraente para mim como atriz”, disse Alessandra que ainda ressaltou a equipe de “O Mecanismo”, que tem nomes como José Padilha na direção e Selton Mello, Enrique Diaz e Carol Abras no elenco.

Mas, mesmo com esse boom que tem sido “O Mecanismo” na vida de Alessandra Colasanti, o trabalho da Netflix não é seu único projeto recente. No GNT, a atriz também estreou no começo de março a série “Desnude“. Porém, desta vez, além de atuar em um episódio, Alessandra também assinou o roteiro de três. “Eu como roteirista desse projeto quis corroborar com o objetivo da série, que era criar um repertório audiovisual sobre o prazer feminino. Desde sempre nós tivemos produções sobre a perspectiva do homem e, desta vez, somos uma equipe de mulheres contando as nossas visões, as fantasias femininas. Então, a proposta da série é criar um repertório de erotismo feminino mostrando o que excita a mulher e o que é desejo”, explicou.

Para isso, o projeto começou a partir das próprias espectadoras. De acordo com Alessandra Colasanti, os roteiros ganharam forma após o GNT realizar uma pesquisa com relatos de mulheres sobre suas experiências e desejos sexuais. “Foi um exercício para a gente porque este não é um caminho muito conhecido. Nós tínhamos esse material inicial e aí começamos a fazer pesquisas e debates para entender como seria esse conteúdo audiovisual sobre o prazer feminino. Neste processo, tivemos um trabalho de desconstruir estereótipos que estavam associados a alguns clichês, que eram tradicionais sob a perspectiva masculina”, contou.

O resultado são episódios que trazem a mulher como protagonista de seus desejos. E, em um deles, no “Jantar Exterminador”, Alessandra Colasanti aparece em dupla função. Além de ter assinado o roteiro, ela também atua. “Foi um barato, eu adorei. Já estou acostumada em atuar nos meus próprios textos quando faço um projeto autoral. Mas, desta vez, foi a primeira experiência na televisão com uma equipe. Eu achei super divertido e rico como profissional. Tive a chance de participar de um processo depois da entrega do texto. Muitas vezes, concluímos o roteiro e não acompanhamos como os diretores e atores trabalham em cima daquela história”, destacou.

Porém, como ela disse, Alessandra Colasanti está acostumada a jogar em diversas posições. No teatro, ela se prepara para estrear a peça “Vânia a Vaca” no segundo semestre. Neste trabalho, ela estará em cena, como diretora e autora do texto. “Eu sempre gostei de me jogar em várias áreas. Durante cinco anos eu fui estilista e também fazia tudo. Era modelo, compradora, designer. Eu gosto de pegar todas as funções, artisticamente é natural para mim. Para mim, é um prazer ter esse domínio completo sobre o que eu estou fazendo e falando”, disse Alessandra que destacou que, no atual cenário, esta multi-característica tem ficado mais comum no mercado. “As profissões estão menos distantes. Hoje em dia é mais permitido ter uma pessoa múltipla, que se identifica com várias áreas. Isso é condizente com o potencial do individuo, ninguém é uma coisa só”, defendeu.

(Foto: Priscila Jammal)

E então, reforçando esse coro plural da atualidade, Alessandra Colasanti é a principal condutora do espetáculo “Vânia a Vaca”. “É a história de uma vaca que conseguiu escapar de uma fazenda industrial de leite e a partir daí conta todo seu percurso. No texto, eu faço referência ao veganismo e ao feminismo com muitas metáforas e analogias para poder falar sobre a objetificação da mulher e do animal. E, claro, com humor porque o meu trabalho sempre tem essa pegada mais irônica”, destacou a atriz que se tornou vegana depois deste projeto. “Quando eu comecei a estudar sobre esse assunto e ler sobre a indústria de leite e de laticínios fiquei assustada com o que descobri sobre a vida das vacas”, disse.

Além dos palcos, Alessandra também leva o veganismo e o feminismo para a internet. Entre tantos projetos, que ainda tem a direção do musical infantil “Bita e a Imaginação que Sumiu”, a atriz, diretora e escritora está estruturando seu canal no YouTube. Ainda em processo, Alessandra contou que este é o seu novo desafio na carreira. “Eu estou estudando e vendo como irei me encaixar dentro da minha diferença. No YouTube a gente tem um processo de repetição muito grande de formatos. Por isso, a minha pesquisa está sendo para descobrir como vou entrar fazendo algo do meu jeito”, contou Alessandra que planeja dividir o conteúdo de seu canal em experiencias da tevê e do cinema no formato digital e em vídeos opinativos. “Seriam resenhas sobre veganismo, feminismo e uma pitada de vida extraterrestre, que eu adoro”, detalhou Alessandra Colasanti sobre seu momento profissional.

Pesquisas relacionadas

  • Joanne Régis Costa

    Estou amando. Padilha acertou mais uma vez e os atores são ótimos! Mostra a sem-vergonhice que toma conta dos partidos. Espero que a Lava-Jato perdure por muito tempo, pois ainda há muito a se fazer. E quanto aos esquerdistas, é lamentável a postura em defesa de bandidos! Todos devem ser presos, chega de impunidade!

    • Leonardo Gentil

      É amiga, dá uma lida nos jornais, a lava jato está mais pra acabar do que continuar, a lei não é para todos… infelizmente. O grande acordo nacional tá consumado.

  • Otaviano

    Série perfeita para os golpistas e idiotas enganados pela farsa que é essa operação: uma grande encenação jurídica destinada a restituir o poder aos que sempre o exerceram no país. Fato é que nenhum dos partidários dos juízes foi preso.