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Com direito a grande elenco, ‘Por trás do céu’ traz ao cinema brasileiro uma narrativa lírica e fantasiosa pouco explorada pelos estúdios

Filmado no sertão nordestino, tem a participação dos atores Emilio Orciollo e Nathalia Dill nos papéis principais. Mais uma vez, o diretor Caio Sóh surpreende com uma trama diferenciada

Publicado em 6 de abril de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Emilio Orciollo foi o primeiro a chegar à pré-estreia de seu novo filme ‘Por trás do céu’, que aconteceu no Espaço Itaú de Cinema Botafogo, nessa terça-feira. De paletó e gravata, o ator estava nervoso e ansioso. Durante todo o evento, não parava um segundo. Abraçava todos e sorria, feliz, por finalmente chegar o dia em que um projeto tão especial seria exibido para amigos e famosos. O longa,  que estreia nesta quinta-feira, conta a história de Aparecida, interpretada por Nathalia Dill, que após passar por um momento traumático resolve sair do sertão onde morava para descobrir novos horizontes. Ao seu lado, seu marido, Edivaldo, personagem de Emilio, embarca nessa busca. Inicialmente, a trama foi escrita para o teatro, por isso carrega uma narrativa peculiar. Na produção é utilizado a poesia para explicar um mundo fantasioso que se passa no sertão nordestino. Essa linguagem diferenciada foi aprovada no Brasil e no exterior. “A expectativa para essa produção está grande. O filme é lindo e fala da busca por si mesmo. Já conseguiu ótimas recomendações nos festivais. A Pandora está distribuindo e o Canal Brasil está dando um apoio de mídia. Além disso, temos um elenco de peso que ajuda a incentivar as pessoas a comprarem os bilhetes. Isso dá uma força a mais para a gente entrar no mercado e batalhar pelo público”, conta o produtor-executivo, Denis Feijão.

Em sua passagem pelo 20a Festival CinePE, o longa ganhou os títulos de Melhor Filme Pelo Júri Popular, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Ator Coadjuvante. Levou o prêmio do Público no 11º Festival de Cinema Latino Americano de São Paulo.  Marcou presença em eventos importantes como FESTin Lisboa, Festival do Cinema Brasileiro em Munique e Festival Du Film Bresilien em Luxemburgo. A Pandora Filmes e o circuito SPCINE atuam na distribuição, além do Telecine, Bossa Produções, Canal Brasil e Mistika atuarem na coprodução.

Elenco, produtores e equipe comemorando a pré-estreia do filme (Foto: Divulgação)

No Brasil, o gênero mais assistido nas telonas de produções nacionais são as comédias. Mas ‘Por trás do céu’ não segue o padrão e, além disso, traz uma narrativa lírica. “Acho que muita gente vai sair no meio ou no começo. Acho isso normal. Vemos tanta violência e crises que não posso cobrar que as pessoas assistam a essa linguagem nos cinemas. Mas quem se permitir viver essa experiência, pode conseguir levar algo para casa. Eu fiz uma flor do sertão e não posso exigir o tempo dela”, garante o diretor Caio Sóh. A atriz coadjuvante Paula Burlamaqui, que interpreta Valquíria, acredita que os espectadores deveriam se abrir para novas possibilidades. “As pessoas estão muito preocupadas com filmes comerciais. Acho que o foco não deve ser só esse. Gosto de várias produções nesse gênero, mas é preciso ter outras portas. Precisamos contar histórias com o nosso coração”, argumenta.

O elenco todo se mostra apaixonado por poder participar de uma produção diferente como o a de Caio Sóh. “Sou muito fã do filme. Ele tem uma poética muito bonita e dialoga tanto com o cinema quanto com o teatro. É uma oportunidade rara fazer algo assim. Estou honrada de ter feito e ajudado a coproduzir”, conta a atriz principal Nathalia Dill, que já foi casada com o diretor.

Nathalia Dill e Paula Burlamaqui (Foto: Divulgação)

“Sou apaixonado pela narrativa. Conta a história de Aparecida e Edivaldo que moram no sertão, mas que poderiam estar vivendo em uma metrópole, também. A gente fala de solidão, sonho curiosidade e amor. E, acima de tudo, esses personagens tem um sentimento de expandir seus horizontes, principalmente a Aparecida. A gente mistura o realismo fantástico com o onírico. É um cinema inventivo que mistura essa linguagem”, explica o ator Emilio Orciollo. O elenco brinca que o roteiro não poderia ter sido feito por outra pessoa que não fosse Caio Sóh. Brincam que o diretor, roteirista e produtor cria uma narrativa diferente no ‘Mundo maravilhoso de Caio’. “Amo o Caio, é meu amigo. Já tinha visto outros produções e acho genial como consegue tocar na alma da pessoa. Pega o mundo de cada um e expõe na tela de uma forma linda, violenta ou triste. Respeito muito o trabalho dele e estou feliz de poder participar de uma obra assim. Cada filme que eu faço é uma experiência nova, mas o diferencial do diretor é que ele vai na alma das pessoas”, completa Paula.

A poesia é um elemento presente durante todo o filme. Para o diretor Caio, esse é um caminho natural. “Não tivemos outra opção senão pôr a poesia no meio da narrativa. Queríamos criar algo que não fosse natural e questionasse as realidades. Essa forma de linguagem, foi o que encontramos para traduzir e entender esse universo. Ela é uma forma diferente de olhar o mundo que me ajuda nos trabalhos para codificar o que penso”, argumenta o diretor.

Uma linguagem que poderia ser mais complicada para outros atores, não interferiu na performance de Emilio. “A essência do trabalho do ator é você humanizar os personagens que chegam. Você precisa ir no puro e no inocente para entender o outro. Em qualquer linguagem, seja ela onírica ou naturalista, o trabalho do ator é buscar a verdade. E quando você quer muito transmitir esses ensinamentos do outro para os espectadores, acaba realizando o seu objetivo”, aconselha.

Paula Burlamaqui com os amigos na pré-estreia (Foto: Divulgação)

Alexia Deschamps, Guilhermina Guinle e Paula Burlamaqui (Foto: AgNews)

Aparecida é a personagem mais marcante do longa. Uma mulher forte e destemida, que luta pelos seus sonhos. Nathalia carrega com carinho as lembranças desse papel. “Ela é única, já era fã antes de atuar. Faz parte do mundo que o Caio cria. (risos) Aparecida tem um olhar para um universo particular mas, ao mesmo tempo, comum. Porque nós todos queremos saber o que existe além do céu. Mas o jeito que leva a vida, como lida com a dor é muito bonito”, relembra.

Além da linguagem ser poética, a própria história foge do realismo. Na trama, espaços são personificados em um universo folclórico de descobertas. Para escolher a locação foi preciso pensar muito. “Nos meus sonhos, eu tentei buscar um lugar difícil. E conseguir ir até o sertão. O que queria era fazer uma homenagem a esse lugar e mostrar que por mais que as coisas estejam complicadas, podemos florescer. Como uma flor no deserto, que mesmo com a sua vida seca ela tende a crescer. No filme, o sertão prende os personagens que querem soltar suas amarras dele. Tanto que a Aparecida quer sair dele. Mas esse filme não fala desse lugar para as pessoas que moram lá, o foco são as pessoas da cidade. O que quero mostrar é que tem pessoas que possuem mais dificuldades financeiras ou sociais que nós, mas que são mais felizes que a gente. A personagem da Nathalia, por exemplo, é algo que, dentro do impossível, ela se torna apta a expandir seu mundo. Quero mostrar que o sertão também faz parte do céu e lá tudo é lindo”, esclarece Caio.

(Foto: AgNews)

“O Caio busca trazer um lado mais fantasioso desse sertão, não tão árido e mais misterioso. Era uma vontade minha também sair do eixo Rio-São Paulo. E ao sair desse lugar de conforto, acabamos trazendo as poesias dos outros cantos do Brasil”, informa o produtor Denis. Mesmo sendo uma homenagem às terras nordestinas, a produção foca em mostrar às pessoas que vivem nas grandes cidades como é o sertão. “As pessoas da capital olham para o sertão de uma forma fantasiosa por ser algo desconhecido. No bom e no mal sentido. Ninguém sabe, de verdade, o que é passar sede ou fome. Nem eu como cineasta poderia entender. Nós reclamamos muito das nossas condições -o que eu acho que devemos fazer – mas temos uma estrutura de vida muito melhor”, analisa Caio.

A região onde as gravações aconteceram é bastante usada para locação de produções. Por esse motivo, tem até uma placa parecida com a de Los Angeles, nos Estados Unidos. No entanto, essa se lê ‘Roliúde Nordestina’. “A Paraíba recebeu a gente de braços abertos. Temos muito o que agradecer. Filmamos no ‘Lajedo de Pai Mateus’ em Cabaceiras que é um lugar peculiar, cheio de pedras e um relevo todo inclinado. Fazíamos o filme com trinta graus de inclinação. Além do sol e do calor. Mas isso fazia parte porque queríamos contar essa história. Era preciso ser um lugar isolado para mostrar o sertão que está em cada um de nós”, opina a atriz Nathalia Dill ao que o ator Emilio complementa: “É um trabalho tanto de direção de arte, porque as imagens são lindas, quanto uma preocupação dos atores em complementar essa produção”. O produtor Denis Feijão garante que a fotografia do longa foi feito com muito carinho. “Tentamos resgatar o cinema sertanejo pelas locações em que filmamos. As imagens trazem um clima emocionante desse sertão maravilhoso. E, ao mesmo tempo, a gente corre em um sentido diferenciado do mercado. Temos muita poesia e técnicas”, lembra.

A placa localizada na cidade de Cabaceiras (Foto: Divulgação)

Atuando em duas funções diferentes, Emilio Orciollo também é produtor. Já havia recebido o cargo de produtor associado no filme ‘E aí, comeu?’, mas desta vez possui mais autoridade. Foi preciso trabalhar nesse projeto desde o ínicio e participar da burocracia que havia na produção. No entanto, Emilio não acredita que a dupla jornada de emprego tenha prejudicado seu desempenho. “O trabalho do produtor é descobrir e tomar rédeas para que a narrativa seja do jeito esperado, escolhendo as pessoas com quem quer trabalhar. Encontrei um parceiro no Caio Sóh e juntos resolvemos contar essa história. Mas no set, antes de entrar em cena, esquecia o Emilio produtor. Era apenas o meu personagem Edivaldo”, brincou.

Quem convidou o produtor-executivo Denis para participar deste projeto foi o próprio Emilio. E ele afirma, o ator está aprovado no cargo. “Emilio já produziu muitas coisas e essa foi só para provar mais uma vez que podemos esperar boas produções dele. Eu, ele e Caio trabalhamos juntos nessa função”, confirmou.

A mulher do ator Emilio Orciollo, Mariana Barreto, está grávida e foi prestigiar a pré-estreia do filme, (Foto: Divulgação)

Os artistas e a produção envolvida na confecção do filme esperam que todos os espectadores possam levar algum ensinamento para casa. “Queria que as pessoas pudessem se deixar levar pelo filme. Estamos ligados o tempo todo, mas sonhar não é complicado. Não precisa sonhar apenas dormindo. Quero que as pessoas vejam que é fácil sonhar. E imaginar é melhor do que realizar”, confessa o diretor.

Para a atriz Paula Burlamaqui, a mensagem que a narrativa busca passa é muito importante. “Nos festivais, o público tem amado. O filme fala de sonho, esperança e amor. A principal mensagem é para que as pessoas não desistam dos seus sonhos. E mesmo que não se tornem realidade, você deve ir adiante. Espero conseguir tocar o coração das pessoas”, conclui. Já Nathalia Dill afirmou que levou um pedacinho do filme com ela. “Já levei algumas coisas dessa produção. Devemos ousar mais, não dar limites à imaginação e aguçar a curiosidade. Além disso, tivemos uma troca muito grande entre os atores, viramos uma pequena família”, acrescenta a atriz.

Nathalia chegou um pouco atrasada no evento, mas distribuiu sorrisos e abraços (Foto: Divulgação)

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