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Bruna Marquezine, Fernanda Nobre, Rosamaria Murtinho e outras atrizes comentam o movimento feminista que ganhou ainda mais força depois do Globo de Ouro: “Não vamos regredir”, diz Bruna

Elenco de Deus Salve o Rei se reuniu para assistir os primeiros capítulos da novela e o site HT aproveitou o encontro para conversar com as estrelas nacionais sobre a luta contra assédio sexual e desigualdade de gênero na indústria do entretenimento que ganhou o centro dos holofotes no tapete vermelho do Globo de Ouro

Publicado em 11 de Janeiro de 2018 | Por Ana Clara Xavier

Domingo foi dia de celebrar a sétima arte nos Estados Unidos com uma das premiações mais importantes da indústria, o Globo de Ouro. Mas o ponto alto da noite mesmo foram as atrizes que transformaram o evento em um show de conscientização e exemplo. Grande parte dos convidados se vestiram de preto e alguns até mesmo usaram broches para falar do movimento Time’s Up, um protesto contra o assédio sexual no ambiente de trabalho e a desigualdade de gênero. Apesar de alguns dias já terem se passado desde o momento histórico, os atores brasileiros também entraram na luta ao falar sobre o assunto enquanto se preparavam para assistir ao primeiro capítulo da novela Deus Salve o Rei. Grande parte do elenco, como Fernanda Nobre, Bruna Marquezine, Rômulo Estrela e Caio Blat, falou com exclusividade com o site HT sobre a repercussão que ainda vai durar por muito e muito tempo. “As mulheres precisam ficar muito felizes com este momento único e histórico que estamos vivendo. Temos que mudar a forma como a indústria funciona. Ser atriz é um ato político hoje em dia, porque temos uma responsabilidade. Precisamos usar a notoriedade para abrir os olhos das pessoas e incentivar a discussão”, afirmou Fernanda Nobre.

Bruna Marquezine interpreta a vilã de Deus Salve o Rei (Foto: Murillo Tinoco)

“Fico feliz de estar viva para ver isto. Este é um momento no qual os homens precisam se calar e escutar, com todo o amor do mundo e empatia. Me sinto muito orgulhosa de fazer parte desta geração. Sei que lá na frente algumas meninas irão agradecer a estas pessoas que estão fazendo a diferença, assim como olho para trás e fico feliz por terem existido figuras femininas importantes para mudar a nossa história. Estamos honrando o nosso passado de uma forma muito potente e bonita. Sem contar que eventos com campanhas como esta motivam a juventude. Em todas as profissões, acho coerente haver pessoas empoderas para que os mais novos possam se espelhar”, completou Bruna Marquezine. Ao seu lado, representando uma outra geração, que também fez muito para o movimento das mulheres poderosas, estava Rosamaria Martinho. “Sempre fui feminista. Eu ganhava o meu dinheiro sozinha e tenho várias amigas, da minha idade, com pensamentos parecidos ao meu”, garantiu Rosamaria.

Rosamaria Murtinho interpreta a rainha,avó dos personagens de Rômulo Estrela e Johnny Massaro (Foto: Murillo Tinoco)

Antes mesmo da premiação acontecer, diversas atrizes como Emma Watson já haviam compartilhado os princípios do movimento, dando uma prévia do que vamos ver daqui pra frente. Já que o Globo de Outro foi apenas a primeira grande oportunidade para os profissionais de Hollywood falarem sobre as inúmeras acusações de assédio que foram divulgadas pela imprensa, tendo se iniciado com o caso Harvey Weinstein, um produtor cinematográfico que foi acusado em outubro. “Foi o melhor dia possível para fazer uma campanha, deu gosto de ver. Além disso, o todo mundo entrou no clima, o que só fez ter uma repercussão ainda maior e o movimento ganhar força”, comemorou Renata Dominguez. O código de vestimenta da noite era a cor preta, no entanto algumas profissionais acabaram saindo do esperado como foi o caso de Meher Tatna, presidente da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, que preferiu ir de vermelho já que em sua cultura indiana-americana o preto é reservado unicamente para viúvas em luto.

Elenco de Deus Salve o Rei na sala de cinema do New York City Center (Foto: Jorge Soares/G1)

Apesar de algumas pessoas muito pontuais terem utilizado outra cor, o tapete vermelho foi colorido pelo preto. Desde a estrela adolescente da série Stranger Things, Millie Bobby Brown, até a famosa Angelina Jolie abraçaram a causa. “Todas as mulheres do mundo estavam sendo representadas ali. Personalidades de todas as cores, religiões e idade”, lembrou a vilã de Deus Salve o Rei, Bruna Marquezine. Juntas, todas elas levantaram a bandeira do feminismo e falaram sobre o machismo, a homofobia e o racismo. “Estamos chegando ao limite de muitos paradigmas, as pessoas estão tentando negar o que parecia ser uma verdade. Com isso, percebemos como estes preconceitos são ideias muito velhas e, historicamente, sabemos que não levaram a sociedade para lugar nenhum”, lembrou Johnny Massaro.

Johnny Massaro interpreta um príncipe que é obrigado a assumir o trono depois do desaparecimento do irmão mais velho (Foto: Murillo Tinoco)

O movimento deu um novo significado a grandes premiações como o Globo de Ouro e o Oscar. Desta vez, uma das partes mais importantes da noite foi o próprio tapete vermelho, quando as celebridades apoiaram em massa o movimento. “As premiações têm muito circo, propaganda e futilidade, mas agora as pessoas estão usando tudo isto como pano de fundo para politizar o evento, como foi o caso do Globo de Ouro e o concurso de Miss no Peru. Nós, atores, também poderíamos fazer isto. Usar estes tipos de acontecimento para falar sobre os recentes acontecimentos no país”, destacou Caio Blat. No entanto, obviamente os profissionais que ganharam o troféu não ficaram de lado, teve espaço para todo mundo. “Ao mesmo tempo que a premiação valorizava o trabalho dos atores, chamou atenção para o assédio”, explicou Rômulo Estrela.

Fernanda Nobre chegando para a festa de lançamento da novela Deus Salve o Rei (Foto: Murillo Tinoco)

Muitos artistas se sentem na obrigação de comunicar e levantar questões com o público, no entanto Bruna Marquezine garantiu que este não foi o único motivo que impulsiona a sociedade a falar sobre o feminismo. Afinal, no último ano se confirmou que a desigualdade de gênero é uma prática estrutural de todas as indústrias, não só do entretenimento. Mesmo sendo uma atriz muito conhecida no Brasil, por exemplo, ela afirmou que também é afetada pelo machismo dentro da sua profissão. “Nas profissões das artes, nós sabemos que é muito complicado. Fomos ganhando o nosso espaço na marra. Sinto diariamente as dificuldades que existem para as mulheres na minha carreira. É preciso que a gente continue impondo o nosso lugar. Espero que as coisas continuem mudando, sem regredir. A luta é difícil, mas vamos conseguir”, garantiu.

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