Teatro & Pensata

“Talvez, para enxergar e entender o momento que estamos passando, seja necessário olhar para trás”, afirmou o diretor Marco André Nunes sobre a peça Guanabara Canibal

O espetáculo escrito por Pedro Kosovski tenta fugir do relato oficial e mostrar a versão dos vencidos. A ideia é instigar o público a ter curiosidade sobre a história da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

Publicado em 12 de setembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Enquanto a novela mostra a história de Leopoldina e Dom Pedro I, o teatro exibe o início deste Brasil conquistado pelos portugueses. A peça Guanabara Canibal expõe um relato nada oficial, no qual os índios são os protagonistas. O enredo se passa em algum ano dos tempos atuais onde se comemora o aniversário do Rio de Janeiro. A população assiste um repórter falando um pouco de como a cidade se tornou o pólo cultural que é hoje. No entanto, a fita que está sendo rodada para e começa-se a contar por outra perspectiva, a dos vencidos. O público é transportado, a todo o momento, para o século XVI.  Com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski, a peça faz parte de uma trilogia que teve o início com os espetáculos de sucesso Cara De Cavalo, que falava sobre a extinta favela do Esqueleto onde é a UERJ, e Caranguejo Overdrive, que relembrava o antigo mangue aterrado no século XIX na atual Praça XI. “Estamos fazendo uma trilogia da cidade ao contrário à sucessão dos fatos, do mais recente para o mais antigo. Mas sinto que estamos nos aproximando, cada vez mais, do presente. Talvez, para enxergar e entender o momento que estamos passando, seja necessário olhar para trás. Compreendendo isto, conseguimos ver quais os ecos surgiram a partir destes acontecimentos. Se eu falar sobre a violência e a queda do estado usando uma trama contemporânea, provavelmente não vou conseguir abarcar direito a situação porque ainda estamos tentando entendê-la. A nossa estratégia é usar a história verídica do passado e, através dela, damos importância ao que ocorre no presente. Nossa civilização já veio com a marca do extermínio e da usurpação”, criticou o diretor Marco. A produção explica como a cidade foi fundada a partir do extermínio dos tupinambás, uma violência que segue até os dias atuais, segundo ele, através do descaso do poder público com o cidadão.

A ideia surgiu a partir da leitura de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Foto: João Julio Mello)

O que incomodava a dupla Marco e Pedro era o desconhecimento das pessoas sobre o real passado que marcou a fundação da cidade maravilhosa. Nos livros de história do Ensino Fundamental e Ensino Médio, os colonizadores são vistos como verdadeiros heróis que pararam as práticas que iam contra Deus como o canibalismo. “Aprendi de forma muito rápida a história do Brasil na escola, nos anos 70. Vi as vitórias, feitos e heroísmos de Estácio de Sá  o que, infelizmente, segue sendo o relato oficial, contado única e exclusivamente pelos vencedores. Afinal, quem perde a guerra não tem direito de voz, logo a versão dos índios nunca foi ouvida. A peça é uma tentativa nossa de mostrar à plateia a visão dos vencidos. Queremos tirar a versão maniqueísta, sensibilizar as pessoas para repensar na cidade e despertar a vontade nelas de querer saber mais”, garantiu Marco.

A peça possui a atuação de Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão (Foto: João Julio Mello)

Ao contrário do que se pode pensar, a peça não é uma aula de história, segundo o diretor, pois existe uma motivação artística muito forte. Apesar disso, foi preciso ler muito para que o relato fosse o mais próximo da verdade, afinal, era o objetivo principal da peça. Livros convencionais foram deixados de lado, a ideia era fugir do que se aprende na escola. Textos originais da época e alguns autores, como Darcy Ribeiro, foram consultados nesta pesquisa. “Estava relendo O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, e lá tem um poema que louva os feitos de Mem de Sá, ou seja, o extermínio dos índios que resultou na fundação da cidade do Rio de Janeiro. Essa leitura foi muito chocante porque era muito terrível, foi então que tive a ideia de contar esta versão. Mais tarde li o livro Rio Antes do Rio, de Rafael Freitas da Silva, fala sobre o estilo de vida de diversas aldeias. Pesquisamos diversos textos que falavam sobre a época, material não falta”, confirmou o diretor.

Para Marco, esta época foi sem dúvida a mais violenta durante a época da ocupação portuguesa. Apesar de desconfiar do heroísmo de Estácio e Mem de Sá, não imaginava que o extermínio havia sido tão agressivo como encontrou nos relatos. “Consegui perceber que a construção do Rio foi muito pior do que eu imaginava, os tupinambás que eram sempre vistos como vilões, mas eles estavam neste território há cerca de cinco mil anos. Acho que estas mortes foram a pior parte da chegada dos portugueses ao Brasil. O extermínio é terrível de qualquer forma, seja ele pela morte direta, pela chegada de doenças diferentes ou pela retirada da cultura de um povo”, lamentou. Ao todo, existiam oito milhões de nativos divididos em diversas tribos, enquanto Portugal tinha cerca de um milhão de habitantes. Atualmente, de acordo com o censo de 2010, no Brasil residem um pouco mais de oitocentos mil índios.

Apesar do texto Guanabara Canibal ter sido escrito por Pedro Kosovski, houve uma intensa colaboração do diretor e de todo o elenco no momento da criação. A característica é própria da dupla Pedro e Marco, corpo do grupo teatral Aquela Cia. “Cada texto possui uma criação especial, mas sempre fazemos a produção em conjunto. Sempre que nos deparamos com um tema, pensamos quais subtemas iremos tratar a partir daquele discurso que no caso era a fundação do Rio de Janeiro. O elenco participa da formação do script já que podem sugerir coisas. No caso do Guanabara, dividimos o roteiro em três atos sendo o primeiro a apresentação do ritual, a invasão e as consequências disto”, explicou Marco.

O espetáculo foi criado pelo grupo Aquela Cia (Foto: João Julio Mello)

As canções se destacaram no momento do desenvolvimento do roteiro, se tornando uma parte essencial da narrativa, assim como nos espetáculos anteriores. O diretor musical Felipe Storino compõe a peça com versões acústicas, eletrônicas, com coro, percussão, piano, microfones e tecnologia. “A música é fundamental pela construção do relato, até porque sou muito ligado às melodias e elas vão conduzindo o espetáculo. E neste ponto estou englobando tudo, desde as canções até sons”, explica Marco. Existem dois músicos em cena e dois atores que tocam. É para ver, ouvir e sentir. Tem que ir.

SERVIÇO CCBB RIO DE JANEIRO

Espetáculo: Guanabara Canibal

Temporada: 9 de agosto a 15 de outubro de 2017

Dias e horários: Quarta a domingo, às 19h30.

Local: CCBB Rio – Teatro 3 (Rua Primeiro de Março 66 – Centro).

Informações: (21) 3808-2020

Capacidade:70 lugares

Classificação indicativa: 14 anos.

Gênero: Drama

Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

Duração: 80 minutos.

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