Teatro & Pensata

Reiner Tenente, um dos atores envolvidos na supeprodução do teatro musical Cantando Na Chuva, conta como é dançar debaixo d`água todos os dias: “Muda tudo”

O musical se baseia no clássico cinematográfico Cantando na Chuva e foi idealizado pela atriz Claudia Raia

Publicado em 11 de outubro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

A galera do site HT conversou com o Reiner Tenente para saber tudo sobre os bastidores desta super produção (Foto: Paschoal Rodriguez)

“I’m singin’ in the rain. Just singin’ in the rain. What a glorious feeling I’m happy again”. Impossível não escutar a melodia de Cantando Na Chuva e não se lembrar de uma das cenas mais épicas da história do cinema, onde o ator Gene Kelly esboça um grande sorriso enquanto canta a famosa composição sob uma chuva torrencial, carregando um guarda-chuva que ele fez questão de fechar. Infelizmente, poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver esta cena ao vivo. No entanto, os brasileiros já podem matar a vontade de conferir através do espetáculo Cantando Na Chuva, montado por Claudia Raia. Além de podermos prestigiar a atriz nos palcos como a protagonista, o musical conta com a presença de Jarbas Homem de Mello, Bruna Guerin e Reiner Tenente. Quando dizemos que o público poderá acompanhar de perto a cena da chuva, não existe eufemismo porque a produção levou água de verdade para ilustrar o cenário. “Inicialmente foi muito difícil fazer um musical na chuva, porque o chão não era normal como estamos acostumados. São pedaços de madeira com uma separação entre elas para a água poder escorrer.  Além do fato do chão ser diferente, ainda havia água e o sapato de sapateado. Nós dizíamos que não podíamos brigar com esta estrutura, ela tinha que ser nossa amiga. Com o tempo, o seu corpo vai adaptando e nós vamos compreendendo como se situar naquele espaço. Por isso, colocaram a gente no palco com algumas semanas de antecedência porque tudo mudou com este cenário”, explica o ator Reiner Tenente que faz o personagem Cosmo Brown, imortalizado no cinema na pele de Donald O’Connor. Por causa da água, o público da primeira e segunda fileira recebe uma capa de chuva para se protegerem e se sentirem mais confortável. “Respinga um pouco, mas garanto que não é um splash mountain, uma montanha russa que molha, da Disney”, brinca.

Musical não é o gênero teatral mais fácil de ser produzido, afinal a coreografia precisa casar com a música e os atores devem estar em sintonia. Alguns detalhes precisaram ser levados em consideração quando se adicionou a água a este formato como, por exemplo, a capacidade do público de escutar a canção. Já que a peça possui apresentações de sapateado, a sonoridade poderia ser abafada e por isso foi necessário instalar dois microfones nos calcanhares de cada ator para que o som não se perdesse. “Quando se entra no teatro parece que rola uma combinação de coisas para atrapalhar a pessoa a fazer um bom espetáculo, porque é um chão muito específico, uma cadeira um pouco desconfortável. Nós começamos ensaiando em um lugar que depois ele muda o que é ruim por ser um palco completamente diferente ao que estávamos acostumados. Existem diversas coisas que poderiam atrapalhar o ator, mas o nosso trabalho é saber lidar com os imprevistos”, conta Reiner.

O formato desta produção teatral segue alguns moldes americanos de super produções como, por exemplo, a construção de um grande cenário extremamente tecnológico. “Existe uma equipe muito organizada e especializada em cada área. Tem uma  que cuida do cenário que fica no chão, outra que cuida do aéreo e mais uma que gerencia o que entra depois em cena. Para controlar tudo isso, tem uma pessoa que fica controlando toda essa galera ao mesmo tempo através de câmeras, afinal são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e para isso é preciso de um profissional sério para gerir todos. É uma estrutura americanizada que cada vez mais brasileiros estão investindo neste nível de detalhes. São muitas coisas trabalhando para produzir a melhor peça possível”, revela Reiner sobre os bastidores do espetáculo. Em partes, isto pode ser visto como algo ruim já que, por este motivo, não haverá uma turnê pelo Brasil com a peça, mesmo que ela seja um sucesso em São Paulo.

Para muitos a quantidade de tecnologia unida à utilização da água seria um impedimento, mas Reiner acredita ser uma grande oportunidade de se desafiar, mais uma vez, no teatro. “É bom que tenhamos essas dificuldades, porque elas melhoram a produção. Estes elementos tecnológicos nos ajudam a contar uma história e a colocar o público ainda mais dentro da trama. Além disso, tínhamos a segurança de não sermos os primeiros a colocar chuva no palco, já que essa ideia aconteceu na montagem londrina e americana”, explica. A produção teve o cuidado de contratar a empresa londrina especializada em chuvas artificiais para eventos e filmagens para fazer a montagem porque eles já trabalhavam há muitos anos no ramo e era preciso que os equipamentos dessem certo, todos os dias. “Além disso, estes profissionais se preocupam em usar água reutilizada, ou seja, não usamos a cada sessão uma água diferente. A chuva é tratada e usamos de novo”, informa. O espetáculo utiliza dois tanques com capacidade de mil litros cada para garantir ter líquido o suficiente.

Jarbas, Bruna e Reiner em cena (foto: Caio Gallucci)

Participar de uma grande produção como esta é algo que poucos conseguem exibir em seus currículos. Reiner garantiu que sempre foi seu sonho fazer o personagem do Cosmo Brown, desde que assistiu ao filme. Simultaneamente ao seu desejo, ele assistiu outros que se passavam na década de 20 para se preparar para os testes. “Descobri o teste para esta peça em 2014, eu tinha um carinho e um desejo tão grande de fazer este personagem que resolvi intensificar minhas aulas de sapateado, porque não fazia há algum tempo, estava enferrujado. A minha preparação para esta peça começou naquela hora. Eu não sabia quando seria, assim como muitas outras pessoas, porque para fazer um espetáculo é preciso de muita coisa envolvida. De qualquer forma, estava sapateando melhor o que é bom para a minha carreira, foi um conhecimento para a vida. Precisei a me dedicar a aulas de coreografia, também, o que me fez sapatear quase todos os dias da semana”, relembra. Por ser budista, ele pedia em suas orações para conseguir o papel se este viesse para a sua felicidade e os demais a sua volta. Como conseguiu o personagem, acredita que ele ainda o fará muito feliz, o que não significa que ele não precisou se dedicar para manter o posto no musical. “Cantando Na Chuva me fez ter uma rotina de atleta mesmo. Além de ter muitos treinos, me levaram em um nutricionista que me passou um cardápio próprio para esta rotina. Precisava deixar o meu músculo forte o suficiente para aguentar quedas, não lesionar devido a carga de exercícios e outros. No último dia, por exemplo, precisamos entrar em um balde com gelo para relaxar o que possa estar tensionado, por isso a preparação foi e continua sendo muito árdua. Sou muito disciplinado, faço tudo pelo amor à arte”, agradece o ator.

Jarbas, Bruna e Reiner em cena (foto: Caio Gallucci)

Por causa da peça, o mineiro que mora no Rio de Janeiro precisou se mudar para São Paulo. Apesar disso, ele manteve sua casa carioca devido ao Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM), escola teatral que o mesmo fundou. Mesmo vivendo nesta ponte aérea, o ator garante que está muito feliz com o caminho que está traçando. “A produção é impecável e muito exigente. Tudo foi feito com muito carinho e por isso que a obra está bem feita, porque foi colocada a alma de todos ali. Nós artistas fomos tratados com amor, humanismo e respeito pelos envolvidos. Fora isso, a Claudia é uma grande professora, extremamente acessível, humana, ela compartilha conosco as suas questões artísticas o que nos faz perceber que todos temos os mesmos receios. Quando erramos um passo e nos condenamos por isso, ela é a primeira a nos consolar e nos lembrar que havíamos acertado outros trezentos da coreografia. Tudo isso nos faz ter um prazer imenso de trabalhar com aquelas pessoas e fazer parte desta história”, relata Reiner.

A vida de Reiner Tenente é cercada por teatro musical. Ele é ator do gênero, fez sua pesquisa de mestrado sobre o formato, possui uma escola sobre isto e ainda dirige. A paixão pelo ramo chegou muito cedo, segundo ele. “Sempre quis colocar dança nas montagens teatrais que fazia. Em 1998, os musicais ainda não estavam em alta no Brasil, ou seja, achava que precisava me destacar. A partir de 2000, felizmente, os espetáculos começaram a aparecer mais, pude me dedicar a esta carreira e vi que era isso que queria fazer para o resto da minha vida. O que não quer dizer que eu não faça outras coisas, mas este ramo é o que me dá mais prazer”, garante.

Elenco de Cantando na Chuva com o figurino de uma das cenas mais esperadas (Foto: Paschoal Rodriguez)

Simultaneamente com Cantando Na Chuva, ele conseguiu os direitos autorais do espetáculo Company, de George Furth e Stephen Sondheim. A peça terá direção de João Fonseca e Reiner será o protagonista. A estreia está prevista para o primeiro semestre de 2018. Além disso, ele está programando a terceira edição do evento Tudo Ao Contrário que traz grandes nomes do teatro musical em papéis invertidos, usando paródias e outros estilos. “Estamos lutando para que seja anual”, garante. O ator deixou claro as dificuldades que encara em sua profissão, porque está indignado com a banalização do trabalho artístico. “Os nossos jovens querem, cada vez mais, se tornar grandes atores da noite para o dia. Mas isso nunca vai acontecer. Só é possível ser ator se houver muita dedicação, estudo e treino. Estamos em um lugar onde as pessoas acabam menosprezando a função do ator porque parece, para quem está do lado de fora, fácil trabalhar no ramo”, lamenta.

 

Serviço

“Cantando na Chuva” está em cartaz no Teatro Santander (SP)

Quintas e Sextas, às 21h. Sábados, às 17h e 21h. Domingos, às 16h e às 20h.

Sessões abertas até o dia 03 de Dezembro.

O elenco deste espetáculo poderá sofrer alteração sem prévio aviso.

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