Teatro & Pensata

Peça Duplo Etéreo pretende levantar o debate sobre a esquizofrenia: “Percebi que algumas pessoas, inclusive já falecidas, poderiam ter a doença”, afirmou o ator Gabriel Amaral

O espetáculo não tem um compromisso de comunicar a doença, no entanto existe a pretensão de levantar a discussão sobre a esquizofrenia. Mais de 2 milhões de brasileiros já foram diagnosticados com esta enfermidade que não tem cura, por isso a cia mineira Atores Associados acreditou ser relevante falar sobre o tema

Publicado em 12 de Janeiro de 2018 | Por Ana Clara Xavier

A peça Duplo Etéreo, de Sebastião Bicalho, foi uma aposta da companhia mineira Atores Associados que pretende expandir o seu público e atingir os cidadãos cariocas. Para conseguir isso, Gabriel Amaral trouxe um texto que foi premiado em Belo Horizonte, em 2011, que fala sobre a esquizofrenia. Dessa forma, o ator e Fabiana Gois, dirigidos por Fernando Couto e Dhan Marcell, estrearam na Casa de Cultura Laura Alvim no dia 9 de janeiro. A história, inicialmente, fala sobre a relação de dois irmãos, no entanto com o decorrer dos acontecimentos a esquizofrenia acaba se tornando a temática principal da peça. O assunto desperta a curiosidade do público por ser algo pouco abordado. “Não sabia muito sobre a a doença, tanto que me assustei quando comecei a estudar sobre o tema. Procurei o que já existia sobre o assunto como personagem de novela, como o papel do Bruno Gagliasso. Em termos de filme, assisti Uma Mente Brilhante. Conheci um pouco dos sintomas, com esta pesquisa, e percebi como é fundamental que nós saibamos disso, pois podemos ajudar muitas pessoas. Entrei em contato com três associações, inclusive, o Instituto Philippe Pinel, no Rio de Janeiro. Elas me ajudaram com entrevistas e estudos sobre o assunto”, afirmou Gabriel, que ficou dois meses completamente mergulhado no tema.

A peça fala sobre esquizofrenia e foi montada pela primeira vez em 2011 pela mesma companhia de atores mineiros (Foto: Divulgação)

Ao levantar o tema da esquizofrenia, o espetáculo utiliza o nu artístico para ajudar a falar sobre o assunto. “Para mim o nu sempre foi algo natural, mas entendo que a sociedade tenha a sua moral. Eu respeito este traço e, por isso, busco trabalhar com o nu apenas em casos onde é extremamente necessário”, afirmou. Uma das cenas mais relevantes e especiais do espetáculo, por exemplo, mostra a mulher falando que o irmão possui uma mentalidade infantil, no entanto, ao longo da peça, é perceptível que quem desencadeia isto é a doença de esquizofrenia da irmã. Sendo assim, a nudez aparece em um momento que o antagonista está tomando um banho. O rapaz ainda fala que ele é a verdade nua e crua dela. “Seria muito falso se, unicamente por uma questão moral, eu usasse roupa nesta cena. A nudez está em cena para causar uma reflexão”, esclareceu. A classificação do espetáculo será de 18 anos o que irá impedir que menores de idade assistam ao conteúdo. De acordo com Gabriel, a nudez não imprime uma apologia ao sexo ou a droga, apenas é usada para falar sobre um tema sério.

O que mais impressionou o rapaz neste estudo foi à quantidade de casos que existem no Brasil, são mais de dois milhões de cidadãos diagnosticados. No mundo, uma a cada cem pessoas desenvolve a doença, que é fruto de um trauma muito grande. Muitas vezes, é difícil de identificar um paciente que sofre de esquizofrenia. O próprio ator, inclusive, passou a avaliar mais o comportamento de amigos e familiares. “Não sou médico para fazer nenhum diagnóstico, mas percebi que algumas pessoas, inclusive já falecidas, poderiam ter a doença. Pelo o que estou estudando, os sintomas eram nítidos. Como foi o caso de um tio avô que morou a vida inteira isolado e conversava sozinho. Nunca recebeu nenhuma medicação ou tratamento, talvez se eu tivesse estudado isto antes poderia ter ajudado em uma possível melhora na qualidade de vida dele”, lamentou.

 

O ator Gabriel Amaral ficou assustado com o alto número de brasileiros que sofrem com este distúrbio (Foto: Divulgação)

Uma das maiores motivações para a companhia Atores Associados ao montar esta peça é informar as pessoas e poder ajudar a melhorar a qualidade de vida de quem possui sofre com o diagnóstico. “A peça não tem compromisso de comunicar a doença, porque não deixa de ser um produto de ficção. Queremos, realmente, levantar a discussão sobre esquizofrenia. Estamos sem patrocínio, com o suporte do Cabify e do restaurante Frontera. No final, podemos sair no prejuízo, mas achamos que isto é vantajoso porque queremos trabalhar no Rio de Janeiro também. Por isso, também, investimos em um conteúdo que pode ser significativo”, explicou.

A peça fala sobre a relação conturbada de dois irmãos e, inicialmente, tem a doença como um pano de fundo (Foto: Divulgação)

Apesar de não ter o compromisso de comunicar a doença, a peça já conseguiu levantar discussões. Em 2011, por exemplo, houve uma grande repercussão em torno do espetáculo devido um grupo de psicólogos e psiquiatras argentinos que foram assistir a montagem da trupe. Por causa dela, eles começaram a debater sobre o assunto, em Belo Horizonte. “A peça possui um diálogo muito forte e o público quer saber o que vai acontecer. Não vai ser aquele espetáculo que as pessoas saem sem entender o final, porque o fim vai impactar. Será suficiente para fazer os espectadores discutirem sobre o tema”, garantiu.

Serviço

Local: Casa de Cultura Laura Alvim – Ipanema – Rio de Janeiro

Temporada: 09/01/2018 a 31/01/2018

Terças e Quartas às 20h

Gênero: Drama

Valores: R$ 40,00 inteira /R$20,00 meia

Lista Amiga e atores que apresentarem DRT pagam o valor da meia: R$20,00

Duração: 50 min

Classificação: 16 anos

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