Teatro & Pensata

Os múltiplos sentidos da palavra colônia conduzem o monólogo de Renato Livera sobre o hospital psiquiátrico de Barbacena que ficou conhecido como “Holocausto Brasileiro”

Sob direção de Vinícius Arneiro e texto autoral de Gustavo Colombini, Renato Livera estreia seu primeiro monólogo neste sábado, 12, no Rio de Janeiro. O espetáculo “Colônia” fica em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no Humaitá até 4 de setembro aos sábados, domingos e segundas

Publicado em 10 de agosto de 2017 | Por Julia Pimentel

No dicionário, o substantivo feminino colônia tem pelo menos doze significados diferentes, que vão da biologia à sociedade. No teatro, essa pluralidade de ideias tem um mesmo caminho: uma das piores histórias da medicina psiquiátrica brasileira. No monólogo “Colônia”, Renato Livera traz diferentes significados da palavra para abordar o hospital mineiro de mesmo nome que entre as décadas de 1960 e 1970 ficou conhecido como o “Holocausto Brasileiro”. Para tratar de um tema tão denso, que foi o tratamento de pessoas rotuladas como loucas, mas muitas delas sem qualquer diagnóstico de doença mental, o ator, que em 2017 completa 20 anos de carreira, aposta na riqueza do verbete como estratégia.

Sob direção de Vinícius Arneiro e texto autoral de Gustavo Colombini, Renato Livera estreia seu primeiro monólogo neste sábado, 12, no Rio de Janeiro. O espetáculo “Colônia” fica em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no Humaitá até 4 de setembro aos sábados, domingos e segundas. No palco, o ator passeia pelas múltiplas ideias que cercam a palavra colônia em uma dualidade ao nome do hospital de Barbacena, em Minas Gerais. De acordo com ele, a estratégia de buscar esses outros sentidos da palavra foi a melhor forma encontrada para tratar do tema sob nova ótica. “A gente tinha essa temática central que regia o espetáculo. Mas era uma questão muito intensa, que tratava de um genocídio que aconteceu em nosso país dentro de um manicômio em que quase não tinham doentes mentais. Então, a gente buscou maneiras para abordar esse tema e decidimos explorar o nome do próprio hospital”, explicou Renato que, com esta ideia, passeia pela biologia, pela colonização do Brasil e pela sociedade.

O monólogo “Colônia” estreia neste sábado no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá (Foto: Divulgação)

No entanto, a missão de retratar no teatro um lugar em que os direitos humanos eram praticamente nulos apresentou novos desafios. Em “Colônia”, mais do que resgatar essa história esquecida pelas gerações, Renato Livera contou que quer destacar o amor e mostrar como estão as relações com o outro nos dias de hoje. “A gente tem abafado quem é diferente e excluído essas pessoas. Mas não pode ser assim. Nosso exercício precisa ser entender que o outro é diferente e conviver de forma harmônica, todo juntos na sociedade. Só o amor é uma revolução possível para que a gente viva em um coletivo melhor”, apontou o ator que traçou um paralelo com o a realidade do Hospital Colônia de Barbacena em suas décadas de horror. “É um absurdo pensar que dentro de um manicômio quase não existiam doentes mentais. A maioria eram negros, homossexuais, amantes de políticos da ditadura etc”, completou sobre o hospital que tem uma estimativa de 60 mil mortes, principalmente entre os anos 1960 e 1980, em sua história.

Para trazer esta enxurrada de questões para o palco, Renato Livera contou que apostou no conceito de teatro conferência. Em seu primeiro monólogo, o ator assume o protagonismo do espetáculo em uma experiência quase didática. “A maior dificuldade foi a gente conseguir manter uma unidade falando de tantos assuntos diferentes. Então, a melhor forma que encontramos foi transformar esse texto quase em uma palestra, uma falsa aula. E aí, dentro dessa proposta, a gente coloca os elementos cênicos para transformá-la em teatro”, explicou Renato que escolheu o formato monólogo para o espetáculo porque, para ele, esta era a sua melhor interpretação do texto de Gustavo Colombini. “Eu adoro trabalhar com um super elenco, mas eu sentia que essa era uma história solitária. Da mesma forma que os personagens reais deste caso viviam, sozinhos, eu tinha que passar por isso também. Eu acho que a pessoa que é tachada de louca é porque tem muitas ideias na cabeça e não sabe organiza-las de forma lógica. Então, automaticamente, eu me coloquei nesse lugar e na peça, eu faço um reflexo da vida dessas pessoas. Eu assumo como individuo vários pensamentos”, explicou.

“Da mesma forma que os personagens reais deste caso viviam, sozinhos, eu tinha que passar por isso também” (Foto: Divulgação)

Mas dar vida a tantas questões de maneira solitária no palco tem sido um grande desafio para Renato Livera. Mesmo com seus 20 anos de teatro e uma extensa trajetória nos palcos, o ator não escondeu a dificuldade de estrelar um monólogo, ainda mais com esta intensidade. “É insano e muito delicado. Este trabalho está sendo uma experiência muito nova para mime que eu estou precisando exercitar muito o meu fluxo de texto e raciocínio. É um desafio não ter outro ator em cena e nem ninguém para você trocar. Não tem nada de liberdade em fazer um monólogo”, confessou.

Porém, se por um lado Renato Livera está sozinho no palco, por outro, o ator está cercado por uma dupla criativa essencial para o êxito do projeto. Na companhia do diretor Vinícius Arneiro e do autor da obra Gustavo Colombini, Renato dá vida e resiste em um momento complexo da arte brasileira, principalmente da carioca. No palco, o ator destaca a forçada coincidência que tem ganhado espaço nas peças em cartaz no Rio de Janeiro. “Eu moro aqui há 16 anos e eu nunca vi tanto monólogo em cartaz como agora. E não é só porque os artistas quiseram fazer espetáculos assim. Nós estamos vivendo um momento de desmonte cultural e, mesmo se eu quisesse, não teria como chamar uma super equipe para este projeto. Nós estamos sem condições de produzir arte e isso se reflete nas peças que estão em cartaz na cidade. Eu considero esse espetáculo um ato de resistência e que me permite dizer sobre um assunto importante sem precisar de uma máquina institucional”, apontou.

“Eu considero esse espetáculo um ato de resistência e que me permite dizer sobre um assunto importante sem precisar de uma máquina institucional”
(Foto: Studio Faya)

Sobre este momento em que o teatro sofre e resiste, Renato Livera acredita que não há um único culpado. Para este resultado, um acúmulo de atitudes e responsáveis ajudaram a ver a arte milenar perdendo recurso e espaço no cenário cultural do país. “É muito difícil a gente achar uma única fonte para tudo isso, eu acho que é um acúmulo. O poder público tem uma parcela muito grande, mas a sociedade também podia estimular mais e se fazer presente de forma ativa nas produções que ainda existem. Hoje, está muito complicado fazer um espetáculo de reflexão, como esse que eu estou estreando. As peças comerciais, como grandes comédias, por exemplo, mostram que ainda têm público. E isso é compreensível. Hoje nós estamos vivendo um momento muito tenso e as pessoas estão buscando na arte válvulas de escape para os problemas”, analisou.

Mas ele segue. Firme e forte. “A essência do artista é ser inquieto. Se ele descansa e se acomoda, ele perde a sua função de agitador. O meu estimulo para sobreviver a tudo isso é ser um cara que quer questionar e criar em cima do que a sociedade está vivendo e propondo”, disse Renato Livera que, para seguir vivo e ativo no mercado cultural, acredita que seja necessário acumular a função de empreendedor. “Se a gente não correr atrás dos nossos projetos, ficamos parados. Eu sempre fiz isso e nunca fui de esperar convite ou dinheiro dos outros. Essa foi a forma que eu encontrei para continuar no mercado cultural e no meu exercício de ator”, completou.

Com esta postura, Renato Livera segue na carreira com diversos projetos. Aliás, esta é uma característica do ator. Há 20 anos produzindo arte, ele contou que ter duas ou três cartas na manga é uma necessidade e uma estratégia. “Eu não paro nunca. Além do monólogo que estreia nesta semana, eu também começo a gravar a próxima novela da Record. Meu personagem será o Zé Bento e serei um paramédico” contou o ator que também está em cartaz como diretor e autor da peça “Passional” no teatro Gláucio Gil, Rio de Janeiro.

Mas, mesmo com tantos projetos dividindo a sua atenção, Renato Livera não nega trabalho. Com uma proposta tão rica como é o monólogo “Colônia”, ele disse que quer ir além do palco carioca com a temática. De acordo com o ator, este é um texto que precisar conquistar espaços e pessoas. “Eu quero levar a peça para hospitais psiquiátricos e transformar o espetáculo em um documentário. A gente precisa ampliar os discursos de aceitação da diferença e da valorização do amor. Nossa sociedade precisa desse esforço”, completou Renato Livera.

Serviço: “Colônia”

Local: Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto
Rua Humaitá, 163 – Humaitá, Rio de Janeiro – RJ, 22261-003 – Telefone: (21) 2535-3846
Temporada: de 12 de agosto a 4 de setembro
Dias: sábado, domingo e segunda-feira – às 19h
Ingressos: 30,00 R$ (inteira) / 15,00 R$ (estudantes, amigos, meia, etc)
Classificação: 14 anos

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