Teatro & Pensata

Gênio da literatura brasileira, Caio Fernando Abreu é homenageado em peça que fala sobre as dificuldades dos relacionamentos amorosos em tempos de globalização

O Tempo É Só Uma Questão de Cor é um espetáculo que conta com quatro contos, uma crônica e alguns fragmentos extraídos de diversas obras e livros do autor gaúcho. Todo o enredo é feito com palavras do próprio escritor, sem qualquer interferência do dramaturgo Antonio Gilberto

Publicado em 13 de março de 2018 | Por Ana Clara Xavier

Caio Fernando Abreu dizia que sua obra seria reconhecida depois de seu falecimento e isto foi exatamente o que aconteceu. Passeando pelas redes sociais, é fácil encontrar um trecho da literatura do escritor já que ele é um dos pensadores favoritos no mundo da internet. Isto se deve a observações atemporais sobre o mundo que provam o quanto ele era vanguarda e inteligente. No entanto, não foi esta genialidade dos textos que fez com que o dramaturgo Antonio Gilberto transformasse os  contos de Caio na peça O Tempo É Só Uma Questão de Cor. O escritor é especialista quando o assunto é amor, sabendo expor da maneira certa as suas impressões sobre os romances e a sociedade. “Dessa forma, o espetáculo vai falar sobre as diferentes formas de relações humanas, a dificuldade de se achar um parceiro e manter um relacionamento. Temos mil maneiras de nos comunicar, atualmente, com o advento da internet, mas pessoas continuam sozinhas. As tecnologias existem para facilitar, mas ao mesmo tempo criam uma barreira entre as pessoas”, explicou o dramaturgo. O espetáculo está em cartaz no Teatro Café Pequeno e a temporada termina no dia 31 deste mês.

A ideia para o espetáculo surgiu a partir de uma conversa entre o diretor e o ator (Foto: Divulgação)

O espetáculo não veio a partir de uma admiração prévia. Na verdade, a vontade do dramaturgo e do ator Mauricio Silveira em falar sobre relacionamentos acabou criando uma identificação com a escrita do gaúcho. “A minha pesquisa começa a partir do ator Mauricio Silveira, com quem já tinha trabalhado na peça Maria Stuart, em 2009. Nos reencontramos em 2016 e, em meio a conversas sobre a vida, ele me contou que escrevia textos e, assim como eu, sentia falta de fazer um projeto no teatro que falasse sobre as inquietações existentes em um relacionamento afetivo. Desde então, passamos a procurar autores contemporâneos que falassem sobre a solidão e angústia do homem moderno”, comentou Antonio. A dupla foi impulsionada a falar sobre este assunto por achar que o mundo atual está repleto de desamor, gerando uma dificuldade do ser humano em se relacionar profundamente. “As nossas relações são muito descartáveis e, consequentemente as amorosas também. Esta é uma questão da nossa modernidade, mas este trabalho vem na contramão. Estamos mostrando o quanto é necessário para o ser humano construir amizades, amar e aprofundar o convívio a dois. Além disso, independente do gênero as dificuldades são as mesmas, sendo assim estamos falando para todos”, explicou.

Quatro contos, uma crônica e alguns fragmentos foram os textos selecionados pelo dramaturgo para fundamentar o espetáculo. Todos estes elementos são frutos de obras distintas e independentes. “Como dramaturgo, compilei os textos que achei serem os melhores dele para formar um espetáculo. O meu trabalho foi costurar e formar uma única ideia”, explicou. No entanto, estar à frente de uma obra rica e vasta não tornou esta tarefa de seleção muito fácil. “Este solo dura um pouco mais de uma hora, então tive que cortar. Vários que eu gostava muito precisaram ficar de fora. Os contos são muito simbólicos e teatrais, coube ao ator mostrar as diferenças entre os momentos de narrador e personagem. Procurei trazer a parte da literatura dele que ainda não havia sido utilizada nos palcos. Acho que ficou bem redondo”, sugeriu Antonio.

O trabalho físico do artista acaba sendo muito necessário e fundamental em O Tempo É Só Uma Questão de Cor. Como o espetáculo é um solo, depende de Mauricio Silveira ilustrar o narrador e todos os personagens. “Estamos trabalhando com o ator a característica do ‘não personagem’, ou seja, sem o auxílio de uma caracterização. Ele é todos os papéis e, de uma maneira sutil, indica uma postura e um gesto de cada figura. Este viés de atuação vai de dentro para fora, de forma a introduzir a visão do público na peça. Há um diálogo que se estabelece no final”, contou Antonio.

A obra de Caio Fernando de Abreu é atemporal e por isso é uma das mais revisitadas em tempo de internet (Foto: Guga Melgar)

Ao trazer, sem a ajuda de qualquer outra ferramenta, a literatura nua e crua para os palcos, a equipe está impulsionando a leitura. “Estamos divulgando grandes autores para um público que lê muito pouco. Se a pessoa curtiu, conseguimos despertar um interesse e fazer com que mais gente vá atrás”, comentou. Este trabalho já é o oitavo do diretor que coloca a palavra escrita em um pedestal sem qualquer adaptação.

Mesmo com esta nobre intenção de impulsionar a leitura, digamos que Caio Fernando Abreu não é um autor que precise muito disso. Ele é um dos autores brasileiros mais compartilhados nas redes sociais. Desde o advento da internet, o escritor caiu no gosto dos jovens. “É incrível a quantidade de material dele que existem nas redes sociais sendo compartilhado por uma juventude que não o conheceu, mas que o ama através dos textos”, comentou. Ao mesmo tempo em que isto é positivo, é preciso de atenção redobrada ao pesquisar por elementos da obra do gaúcho. Como as redes sociais possuem um domínio muito aberto, muitos internautas podem se apropriar de alguns fragmentos ou assinar pelo autor. “É necessário ter alguns critérios para saber identificar a escrita dele. No mais, acho que é uma forma de comunicação muito válida por propagar a obra dele que é tão importante. Afinal, temos que ter um espaço para expor a literatura e a arte”, analisou. Antonio Gilberto chegou a conhecer o escritor, mas não estabeleceu uma amizade. No entanto, já consegue adiantar que “era uma pessoa incrível”.

Os textos foram escritos no século passado e mesmo assim conseguem ser muito atuais, o que, inclusive, encanta os jovens. A atualidade está inclusa em todas as camadas da literatura.  “A crítica a sociedade está implícita, na época ele estava falando sobre o Collor, mas que hoje em dia parece ser muito atual. Política não é o foco principal, mas surge em alguns momentos através do diálogo dos personagens. Ficamos impressionados com a semelhança com os questionamentos atuais, até separei a página que peguei o trecho para as pessoas não dizerem que estou mentindo”, brincou Antonio.

Mauricio Silveira (foto) é o ator e Antonio Gilberto é o diretor e dramaturgo (Foto: Guga Melgar)

 

Serviço:

Local: Teatro Café Pequeno

Dias, horários e valores: Sexta às 22:00 – R$ 40,00 (Valor inteira) Sábado às 22:00 – R$ 40,00 (Valor inteira)

Duração: 70 minutos

Temporada: De 23/02/2018 Até 31/03/2018

Contato: (21) 2294-4480

Classificação: 12 anos

Gênero: Drama

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