Teatro & Pensata

Depois de mais de duas décadas, peça ‘’Cafona sim e dai’’ volta aos palcos como remake em homenagem aos 95 anos que Sergio Britto completaria em 2018

Com direção de Alexandre Lino, espetáculo ‘’Cafona sim e dai – uma homenagem’’, que estreia nesta quinta-feira (5) no Sesc Copacabana, promete dar um show de breguice com músicas do cancioneiro brega antigo e atual.

Publicado em 9 de Maio de 2018 | Por Thaissa Barzellai

O ano é 1997. O ator e diretor Sergio Britto (1923-2011) estreia o musical ‘’Cafona sim, e daí’’ como um grande show cujo repertório é composto da mais pura breguice. Vinte e um anos depois, o espetáculo retorna aos palcos dessa vez como uma homenagem idealizada por amigos e familiares ao seu criador, que completaria 95 anos nesse ano se ainda estivesse brilhando em nossos palcos. ‘’A ideia foi da Luciana Victor, que é uma atriz e produtora, junto do marido, Antônio Carlos Feio. Eles desejaram fazer essa homenagem e foram à procura da sobrinha do Sérgio Marilia Britto, que considerou muito relevante ser o ‘’Cafona sim, e daí’’ já que foi um dos maiores sucessos dele’’, conta o diretor Alexandre Lino, que foi convidado a participar da produção especialmente pela Luciana, em entrevista ao site HT.

Com um repertório composto por mais de 30 músicas, que vai de Reginaldo Rosi até Marília Mendonça, ‘’Cafona sim, e daí – uma homenagem’’ enaltece, assim como na montagem original, a relevância que a presença de cancioneiros bregas têm na cultura brasileira até os dias de hoje. ‘’O popular jamais vai sair de moda. O que fala da nossa realidade, dos nossos sentimentos mais genuínos, jamais vai ficar datado, porque nossa maior potência são as nossas fragilidades, as nossas emoções’’, explica. Surgida nos anos 60, a música brega já provou que não vai arredar pé da sofrência de cada um. ‘’Ela vai estar nos perseguindo no melhor sentido. Vai estar falando por nós o tempo inteiro, até mesmo por aqueles que se negam’’, brinca o diretor.

Da esquerda para a direita: as atrizes Claudia Ribeiro, Nívia Terra e Luciana Victor em cena. (Foto: Janderson Pires)

O roteiro, que foi assinado por Daniel Porto, é dividido em dois atos e traz uma novidade: um mergulho nos bastidores da produção. No primeiro ato, o público vai poder ver de pertinho o caos por trás das cenas, passando pela correria e alegria presentes na preparação para o que seria o projeto inicial do Britto, o espetáculo-show. ‘’A gente encontra um grupo de atores, uma trupe, ensaiando. É aquele momento em que o espectador comum não está muito intimo, que ele não reconhece tanto. Ali, a gente encoraja para mostrar as fragilidades no processo de ensaio, mostrando todos os lados, o emotivo, o divertido, sem qualquer mascaramento’’, conta. Já no segundo ato, a plateia presencia o show, que é a verdadeira homenagem da produção. Segundo Alexandre, essa dicotomia presente no metateatro, que é o fazer teatro mostrando o teatro, é uma forma de quebrar a barreira entre atores e espectadores, de modo que o público se diverte junto do elenco. ‘’É uma brincadeira muito divertida. A gente já comprovou que estamos num lugar de observador da vida alheia. Nesse caso, desses atores enlouquecidos. Isso é brincar com a nossa realidade e o público vai entrar no jogo lá também. É divertido, acredite’’, diz.

A homenagem a Sergio Britto vai muito além do remake do espetáculo-show presente no segundo ato. A equipe, que é formada por seis cantores-atores, conta com a presença de diversos nomes, como Luciana Victor, Claudia Ribeiro e Antônio Carlos Feio, que estiveram na montagem original, em 1997. Esse reencontro, que ofereceu uma atmosfera muito íntima para a produção, foi uma forma minuciosa de tornar Sergio Britto, que faleceu em 2011, parte da equipe. ‘’Isso trouxe pra gente um laço muito intenso e isso fez com que a evocação do Sergio o tornasse ainda mais presente dentro do nosso trabalho’’, afirma. Durante ensaios, o diretor Alexandre Lino, que em alguns momentos recebeu elogios do tipo ‘’às vezes você parece o Sergio falando’’, conta que a sobrinha do ator ficou muito sensibilizada com o clima dos bastidores. ‘’ A própria Marília Britto quando eu chamei-a pra assistir os ensaios falou que ‘’esse seria um lugar que o Sergio estaria com vocês, ele está muito feliz porque ele está aqui conosco de uma outra forma’’, relembrou.

Luciana Victor e Antônio Carlos Feio em cena. (Foto: Janderson Pires)

Essa união dos artistas, que fez de ‘’Cafona sim, e dai – uma homenagem’’ um trabalho repleto de sentimento, também foi responsável por resistir à falta de incentivo que a cultura brasileira vive atualmente. ‘’Estamos vivendo um dos momentos mais difíceis do Brasil. Não existe qualquer estímulo, qualquer incentivo da ordem. A partir do momento que você elimina as possíveis linhas de fomento para criação artística, você está tentando eliminar as possibilidades artísticas de criação. É muito triste essa realidade, mas ao mesmo tempo estimulante para quem é artista e pra quem não quer deixar a arte se calar. Não vamos parar por aí, nem eu e nem meus amigos’’, disse.  A peça, que estava planejada para estrear ano passado em homenagem aos 20 anos da montagem original, não teve os recursos necessários para chegar ao palco sem a ajuda de terceiros e investimentos pessoais. ‘’A gente tem que buscar outras possibilidades, como o crowfunding online, o próprio incentivo do Sesc e dinheiro do próprio bolso. Estamos falando de um musical ao vivo, né? Então imagina fazer sem os recursos necessários e condizentes com a dimensão de um projeto assim’’, afirma.

Com estreia marcada para quinta-feira às 20h30 no Teatro de Arena do SESC Copacabana, na Zona Sul do Rio, ‘’Cafona sim e dai – uma homenagem’’ vai ficar em cartaz até 3 de junho às quintas, sextas e sábados. E pode ter certeza de que Sergio Britto está comemorando aonde quer que esteja essa celebração da música brega, afinal, como disse Alexandre Lino: ‘’O Britto, sem dúvida nenhuma, se divertiria tanto quanto nós, ele reverenciaria tanto quanto nós esses grandes artistas, que são merecedores de todo respeito. É preciso ter coragem para falar das suas verdades. E nós artistas gostamos disso. O Britto era um mestre nesse sentido’’. Precisa de mais motivo para ir prestigiar o espetáculo?

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