Teatro & Pensata

Em cartaz com a peça “Plano Sobre Queda” no Teatro Poeira, no Rio, Camila Márdila se destaca por alinhar ideologias pessoais e profissionais

A atriz, que ganhou visibilidade nacional com o longa "Que Horas Ela Volta?", em 2015, acredita que o premiado filme teria o mesmo impacto social se fosse lançado hoje, em comparação com o panorama de dois anos atrás. "Esse trabalho mostrou muito claramente uma questão específica da nossa cultura, que já faz parte da história e da sociedade brasileira"

Publicado em 18 de maio de 2017 | Por Julia Pimentel

“Eu gosto de pôr no mundo personagens com os quais eu me identifico e acredito. Esse é um cuidado que eu tento ter na minha carreira porque vejo na profissão de atriz uma oportunidade de colocar um discurso próprio para a sociedade”. Essa é Camila Márdila, atriz de 29 anos que escreve sua carreira profissional alinhada as suas ideologias pessoais. Na medida do possível, ela contou ao HT que tenta conciliar os dois propósitos. E, no cenário nacional, ela vem conseguindo isso com brilhantismo. Para todo o Brasil, Camila Márdila ganhou visibilidade com o premiadíssimo “Que horas ela volta?”, filme de Anna Muylaert. Depois, brilhou em “Justiça”, minissérie da Globo que trouxe diversas questões polêmicas e contemporâneas para o entretenimento. Agora, Camila emociona nos palcos do Teatro Poeira, no Rio, com a peça “Plano Sobre Queda”.

Com três anos de espetáculo em cartaz pelo Brasil, a temporada da peça no Rio de Janeiro fica até a próxima semana, dia 28, no teatro em Botafogo. No enredo, o texto de Emanuel Aragão, sob direção de Miwa Yanagizawa, conta a história de uma mulher que descobre uma doença terminal e, para depois de sua morte, idealiza uma substituta para a sua vida. Como nos contou Camila, esta narrativa surgiu a partir de uma breve cena do filme “Minha Vida Sem Mim”. “Essa é uma peça do meu grupo de teatro, o AREAS Coletivo de Arte, e começou com uma vontade de eu e Liliane Rovaris, atriz que contracena comigo, trabalharmos juntas novamente. Então, a gente foi atrás de um argumento que pudesse motivar esse enredo, e achamos em uma cena de poucos segundos desse filme uma ideia que foi desenvolvida”, explicou.

Camila Márdila, Liliane Rovaris e Breno Nina estrelam a peça “Plano Sobre Queda”, em cartaz no Teatro Poeira (Foto: Claudia Elias)

A peça, que já passou por diversas remontagens desde a sua estreia em 2014, traz a morte como um dispositivo detonador de algumas questões da vida, como definiu Camila Márdila. De um jeito poético e reflexivo, o texto de Emanuel Aragão reapresenta questões comuns do nosso cotidiano a partir da perspectiva da morte. No entanto, apesar de estar trabalhando esta questão em todo o espetáculo, “Plano Sobre Queda” faz uma verdadeira reflexão da vida, como apontou a atriz. “Na peça, a gente não apresenta uma estrutura para ter um clímax de emoção. O nosso desejo é que o espectador caminhe junto com a gente nessa história. Inclusive, a narrativa é construída com um envolvimento e uma troca entre quem faz e quem assiste. Não só entre os atores, mas entre nós e o público existem olhares que constroem uma participação muito íntima nas pessoas daquela sala de teatro”, explicou Camila que acrescentou que a peça também traz a missão de desmitificar a morte. “A gente quer descontruir esse tabu e desatar alguns nós dessa limitação que é tratar do assunto morte. Para a gente, não é algo trágico e definitivo, vemos como a continuação de um ciclo. Mas, nessa história, compreendemos que cada um faz suas próprias interpretações sobre esse assunto de acordo com as experiências pessoais”, completou.

Com três anos de caminhada, “Plano Sobre Queda” já foi remontado e, mais que isso, reinventado diversas vezes. Não à toa, Camila Márdila contou que esta é uma proposta muito viva dentro da ideologia de sua companhia, a AREAS Coletivo de Arte. “Nós temos uma característica muito forte no grupo que é nunca deixar de pensar um trabalho. Sempre que vamos reestrear uma peça ou até fazer uma apresentação única, rediscutimos a pertinência do texto naquele momento. Com ‘Plano Sobre Queda’, não foi diferente. Até porque, estamos vivendo tempos de mudanças constantes no país e isso também muda a relação com o espectador e a implicação com o tema da peça”, disse Camila que, também por isso, acredita que o texto tenha um frescor diferente. “Muita gente que assiste a esse espetáculo acha que temos partes de improvisação. Mas não, o texto possui brechas que nos permite mudar”, explicou.

O fato é que “Plano Sobre Queda” vem propondo uma nova reflexão sobre a morte. Ou melhor, a vida. Por onde passa, a peça parece deixar uma pulga atrás da orelha de quem assiste por provocar um exercício de diálogo sobre as atitudes mais banais do nosso dia-a-dia. “Na correria, a gente acaba se esquecendo ou não dando tanto valor a pequenas atitudes do cotidiano. Mas, quando estamos ligados a questões maiores, como a morte, tudo parece ganhar um fôlego diferente”, explicou.

A peça “Plano Sobre Queda” propõe novas reflexões sobre situações cotidianas a partir do ponto de vista da morte (Foto: Bruno Mello)

Aliás, o que ganhou um novo fôlego foi a carreira de Camila Márdila depois de sua atuação em “Que Horas Ela Volta?”. Com uma vida profissional super ativa com projetos desde 2008, a atriz ganhou visibilidade em todo o Brasil quando interpretou a filha da empregada em um filme que discutiu, entre tantos outros assuntos, as diferenças sociais, as oportunidades e a posição da mulher. Segundo Camila, o longa de Anna Muylaert foi um divisor de águas em sua vida pessoal e profissional porque, além do sucesso, teve uma função relevante para o país. “Esse trabalho mostrou muito claramente uma questão específica da nossa cultura, que já faz parte da história e da sociedade brasileira”, disse a atriz que, desde o lançamento do longa, em 2015, vem se envolvendo em debates e discussões sobre o enredo. “Eu acho que o filme serviu de ilustração para muita gente. Por isso, desde o começo eu tentei participar de conversas que tinham essa história como argumento. ‘Que Horas Ela Volta?’ foi mais que um divisor de águas na minha carreira, foi uma oportunidade maravilhosa de alinhar o meu posicionamento político pelo ponto de vista do cidadão a partir do meu trabalho”, argumentou.

Na época que foi lançado, o filme, como lembrou Camila Márdila, cutucou diversas questões que eram consideradas corretas e até padronizadas para muitas pessoas. De lá para cá, muitos movimentos e reflexões contemporâneas ganharam força e visibilidade. Mas, nem por isso, a atriz acredita que se “Que Horas Ela Volta?” fosse estreado em 2017 o impacto seria diferente. “Essa história está muito ligada a um crescente no país que é a filha da empregada ter as mesmas oportunidades do filho do patrão. Eu acho que se o lançamento fosse hoje, iríamos abordar situações diferentes. Enquanto naquela época, que foi pouco antes de o golpe acontecer, a gente tinha um olhar positivo sobre essas temáticas, hoje seria uma posição retrógrada. Afinal, as cotas, que permitem uma diversidade maior nas universidades, já estão sendo repensadas e, com isso, diminuindo as oportunidades dos pobres. A gente precisa resgatar esses ideais para que, o que um dia foi a utopia do filme, volte a ser uma realidade na sociedade”, argumentou Camila.

Camila Márdila foi a Jéssica do premiado longa “Que Horas Ela Volta?” (Foto: Jorge Bispo)

Com um posicionamento tão claro quanto a participação de todas as classes no ensino superior brasileiro, Camila Márdila mantém sua posição transparente quando o assunto são os movimentos modernos das chamadas minorias. Para ela, o diálogo precisa ser o combustível de qualquer discussão que envolve temáticas novas na sociedade. “Eu acho muito importante que eu coloque a minha opinião nesses assuntos, mas é fundamental que exista uma troca de visões. Eu gosto muito de ouvir o que a outra pessoa acha, ainda mais quando são temáticas que eu não domino, como o movimento negro e de classes. Eu reconheço que sou super privilegiada por ser uma mulher branca e da classe média e, por isso, sei que não posso falar de todos esses movimentos com propriedade”, analisou.

Apesar de se achar reservada, Camila Márdila destacou que não omite a sua opinião. Em tempos de ódio gratuito, principalmente quando a internet e os perfis falsos são o palco das discussões, a atriz afirmou que acredita no poder agregador de se posicionar e estar em conexão com os seus semelhantes – e os diferentes. “Eu não deixo de falar o que eu penso por causa disso. Para mim, essa onda dos odiosos não produz nada de relevante. Eu acho que podemos facilmente ignorar. Eu, pelo menos, deleto da minha vida. É muito mais importante que a gente crie pontes com pessoas diferentes que, com educação, estimulem diversos pontos de vista. Somente expressando a nossa opinião a gente vai conseguir ampliar as visões a partir da experiência de quem não concorda”, argumentou a atriz que apontou mais uma importante questão neste assunto: “Não existe o certo e o errado. Hoje em dia, não tem mais que ser de um ou do outro lado. É totalmente aceitável que você explore e acredite diferentes pontos de vista sobre um assunto”.

“Para mim, essa onda dos odiosos é muito estérea e não produz nada de relevante” (Foto: Jorge Bispo)

Desta forma, Camila Márdila segue trilhando uma carreira que, como já contamos, alinha ideologias pessoais e profissionais. Aliás, neste momento, seguir caminhando no cenário artístico também agrega a função de resistência. Segundo a atriz, a situação está bem difícil para o núcleo cultural brasileiro. “Eu tento não ser pessimista, mas confesso que às vezes eu me assusto com o rumo que as coisas estão tomando. Não está dando para projetar mais o futuro, só estamos conseguindo pensar no presente para continuar trabalhando como um ato de resistência”, disse a atriz que já vê o teatro neste posto. “O palco é um lugar que tradicionalmente resiste em contexto político, estético e de linguagem. É complicado manter uma peça em cartaz quando você compete com a variedade infinita da Netflix ou com uma enormidade de outras tentações. Mas eu acho que é muito importante que nós continuemos funcionando como um lugar fora da ordem e fazendo, como atualmente, um espetáculo que busca refletir, questionar, tratar de imagens, cinema e literatura. A gente só promove o pensamento quando tira os dois lados da zona de conforto. E o teatro tem essa posição de construção social e de provocação do pensar”, concluiu.

De todo modo, Camila Márdila ainda tem novidades para a carreira. Além da temporada de “Plano Sobre Queda”, que fica até a próxima semana em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, a atriz também participa com o seu coletivo de uma ocupação no SESC Ipiranga, em São Paulo. Por lá, o objetivo é promover atividades artísticas para crianças, idosos, roteiristas, atores, curiosos etc. Em setembro, Camila Márdila estreia a comédia dramática e romântica “Altas Expectativas” no cinema e, para o ano que vem, a atriz tem o lançamento da série “13 dias longe do sol”, da Globo, e a peça “Eles eram muitos cavalos”, no teatro.

Serviço: “Plano Sobre Queda”

Quinta, sexta e sábado às 21h
Domingo às 19h
Duração: 120 minutos
Ingressos: R$ 40
Temporada até 28 de maio

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