Ópera no circo? Cirque Du Soleil introduz antigos gêneros à sua magia lúdico-contemporânea!


Com 60 artistas de 19 nacionalidades, a temporada carioca de “Corteo” começa neste final de semana, trazendo elementos que vão da Commedia Del’Arte ao Vaudeville

*Por Alexandre Schnabl

Começa neste finde a temporada carioca de “Corteo”, o espetáculo do Cirque du Soleil que está em cartaz desde 2005 e já percorreu 52 cidades, tendo sido assistido por sete milhões de pessoas em todo o mundo. Concebido e dirigido pelo suíço Daniele Finzi Pasca, com cenografia de Jean Rabasse e figurinos de Dominique Lemieux, que criou mais de 260 peças, o espetáculo teve pré-estreia nesta quinta-feira, o chamado Dress Rehearsal, com presença de comunidades carentes do Rio na platéia, começando a temporada na noite de sexta e ficando em cartaz até 15 de fevereiro, na Marina da Gloria.

Dessa vez, a companhia fundada por Guy Laliberté em 1980 parece ter retomado os caminhos tradicionais dos espetáculos circenses, após tê-los revolucionado nos últimos 30 anos, misturando técnicas tradicionais de acrobacia, dança e malabarismo com uma moderna visão de espetáculo, devidamente situada dentro dos cânones mainstream do showbizz. Sem abrir mão desta concepção de arte – e de mercado –, ela parece, em “Corteo”, imergir nas origens do circo, pincelando refinada atmosfera retrô em sua inquestionável e visceral contemporaneidade. É como se, além da estética que se convencionou chamar como “espetáculo do Cirque du Soleil”, houvesse um resgate daquelas artes cênicas que se estabeleceram na Europa, desde quando as trupes de artistas de rua, originárias de terras longínquas como o Extremo Oriente, foram avançando em direção à Península Ibérica e adquirindo frescor com a adição de novos ingredientes, à sua disposição por onde quer que passassem e prontos para serem absorvidos pela sua esponja de referências.

Fotos: Néstor J. Beremblum / Divulgação T4F

E, claro, considerando que o exotismo dos povos das estepes da Ásia Central, as habilidades ilusórias dos ciganos da Europa do Leste e a Commedia Del’Arte italiana foram fundamentais para consolidar, ao longo dos séculos, o status quo da arte mambembe de lona que se tornaria, depois, aquele show de variedades que se convencionou chamar de circo, é natural que a companhia canadense, formatada para ser uma grande enterprise, tivesse em algum momento o desejo de beber da fonte e recuperar a alma do circo em sua essência original, encorpando esta com seu mise-en-scène, composto pela forte pitada da tecnologia que dispõe aliada ao senso de grande espetáculo. Logo de cara, esta mistura pode ser percebida nos primeiros quadros, com modernas acrobacias realizadas em lustres gigantes que são, no fundo, típicos números de lira circenses. E, sem dúvida, a própria abertura do espetáculo tem, em si mesma, muito da construção cênica encontrada nas introduções das óperas de repertório.

O roteiro de Finzi Pasca brinca com os códigos do teatro de rua, dos entretenimentos de quermesse, das estruturas de operetas populares e dos números de picadeiro que sub-existem no imaginário popular mundo afora – e que, com a migração do divertimento para as grandes arenas e as mídias eletrônicas, minguaram, permanecendo em constante evocação através do cinema de época, em películas como “Peixe Grande” (Big Fish, de Tim Burton, 2003), “O Maior Espetáculo da Terra” (The Greatest Show on Earth, de Cecil B. DeMille, 1952),“O Mundo Imaginário do Dr Parnassus” (The Imaginarium of Doctor Parnassus, de Terry Gilliam, 2009), “As Aventuras do Barão de Munchausen” (The Adventures of Baron Munchausen, de Terry Gilliam, 1989), “Oz: Mágico e Poderoso”(Oz: The Great and Powerful, de Sam Raimi, 2013) e “A Viagem do Capitão Tornado” (Il Viaggio di Capitan Fracassa, de Ettore Scola, 1990). A soma desta dose de nostalgia, que o cinema se encarrega de manter viva, está toda ali, devidamente misturada ao moderno lirismo que caracteriza o Cirque du Soleil. Sem desferir nenhum golpe em sua espinha dorsal, esta trupe multicultural (60 artistas de 19 nacionalidades só neste espetáculo), sediada no Canadá, se volta para o passado em “Corteo”, trazendo, para os tempos atuais, o charme de antigas companhias como Ringling Bros e Barnum & Bailey Circus, justo aquelas que alçaram este tipo show à condição de maior espetáculo da Terra, a partir do desfrute das benesses da Revolução Industrial, como turnês a bordo de trens e barcos a vapor.

Fotos: Zeca Santos

Elementos de diferentes tipos de teatro estão presentes no repertório do espetáculo, como o circo tradicional, a ginástica olímpica, a Commedia Del’Arte, o Vaudeville e até componentes operísticos.  Alguns quadros são praticamente ópera bufa, com direito a sofisticados números de circo, e a cena de costura, em que uma bola de golfe se recusa a ser arremessada por um clown golfista e seu assistente-caddie é puro teatro de vaudeville.

A cenografia contribui para essa mélange de influências, incluindo a lona repleta de traquitanas que evocam a arquitetura do ferro fundido inglesa do final do Século XIX, assim como as duas cortinas centrais translúcidas, pintadas a óleo na França e que reproduzem a procissão dos personagens que formam o elenco dos antigos circos, em criação de Rabasse, inspirado pela exposição “O Grande Desfile: Retrato do artista como um palhaço”, na Galeria Nacional do Canadá e pela obra de artistas como PicassoTiepoloPelezCavaleiro e, sobretudo, uma pintura realizada em 1885 pelo parisiense Adolphe Viltette. “Cresci em uma família de fotógrafos e minha mãe se tornou pintora. Então, o que faço é colocar as imagens em movimento’, afirma Daniele Finzi Pasca que, quando jovem, era ginasta de competições.

Considerado pela crítica uma elegia às artes, “Corteo” significa ‘cortejo’ em italiano e conta a história de Mauro, o palhaço sonhador, que está sendo homenageado pelo espetáculo. Junto com velhos companheiros de sua antiga trupe, ele enverga seu figurino para participar pela última vez do show, repleto de tipos característicos, como a figura do Loyal Whistler (Senhor Leal), ex-militar reciclado pelas artes mambembes e que se torna apresentador dos picadeiros, o Palhaço Gigante (que canta ópera) e o Palhaço Branco, que admira a estrelas, mas despreza os demais colegas, sempre com aquele figurino que se tornou clássico em circos italianos, como o Roncalli, fundado em 1976.

Depois de passar pelo Rio de Janeiro, a turnê de “Corteo” segue para Porto Alegre, última parada no Brasil, com temporada programada para começar em 7 de março.

Nesta quinta-feira, instituições filantrópicas e comunidades carentes foram contempladas com convites para a pré-estreia, como a criançada do Lar de Narcisa, que compareceu ao lado de sua benfeitora, a socialite Narcisa Tamborindeguy.

Fotos: Zeca Santos

E, enquanto no espaço de convivência reina a tradicional pipoca, na área vip – a tenda chamada de Tapis Rouge (tapete vermelho), que permanecerá durante toda a temporada –, a chef paulista Morena Leite, do Capim Santo, recebe os felizardos com champanhe gelado e comidinhas, como o blinis de tapioca com surubim defumado, canudinho de bacalhau, sopa fria de beterraba e salada de trigo com mix de castanhas brasileiras, tamarindo e geleia de uvaia. “Procurei criar um cardápio lúdico que tenha a ver com o circo, mas que atenda o tripé que tenho com base em meu trabalho: comida saudável, técnicas francesas e ingredientes brasileiros”, entrega de bandeja a quituteira.

Fotos: Zeca Santos

Serviço:

Local: Marina da Glória – Av. Infante Dom Henrique, s/n – Glória

Ingressos disponíveis, de qualquer setor, terão o preço único de R$ 240,00 (inteira) e R$

120,00 (meia-entrada).

Bilheteria oficial no Shopping Leblon

Para mais informações de venda, acesse: www.corteobrasil.com.br

Serviço  Tapis  Rouge  (área VIP com serviço de alimentos e bebidas e estacionamento liberados): valor adicional será de R$160,00