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Margareth Menezes comemora os 30 anos de carreira, prepara novo disco e fala sobre apropriação cultural: “Cabe o meu apelo para o respeito só.”

A cantora baiana relembrou o início da sua carreira além de falar sobre racismo e outras questões polêmicas que cercaram o carnaval.

Publicado em 16 de março de 2017 | Por Rodrigo Cohen

Eu falei faraó! Só de ouvir esse chamado carnavalesco na voz de Margareth Menezes é possível se arrepiar e responder ao chamado completando a música. Em 2017, está se comemorando 30 anos da gravação da canção “Faraó, Divindade do Egito”, do Olodum, e junto disso os 30 anos de carreira de uma das mulheres símbolo do Carnaval brasileiro.  A gravação é ainda um marco na história da música brasileira por ter sido o primeiro samba reggae a ser gravado no país. Em meio a uma semana repleta de compromissos, correrias e celebrações, Margareth tirou um pouco do seu tempo concorridíssimo para falar ao HT.

“O Carnaval foi muito legal esse ano. Foram 30 anos da gravação de ‘Faraó’ e da primeira vez que minha voz foi ouvida no rádio. Naquele primeiro momento, eu nem imaginava a dimensão da coisa. É uma música que atravessa gerações. Um marco por ser o primeiro samba reggae a ser gravado e também por ser a música que me abriu as portas para todos os outros acontecimentos. Logo depois de ‘Faraó’, fui contratada pela gravadora Polygram que me levou para fora do Brasil. Gravei ‘Uma História de Ifá’, que é mais conhecida como ‘Elegibô’. Essa foi lançada em diferentes lugares do mundo e ficou em primeiro lugar nas paradas americanas. Por isso, meu encontro com essa música (´Faraó´) foi muito importante para mim”, relembrou a cantora.

Margareth falou da importância da canção não só para ela, mas como para todo o Carnaval e comemorou esse hino durante o feriado. “Esse Carnaval foi muito em volta disso. O Olodum também comemorou a gravação de ‘Faraó’, então somou uma série de fatores. Fico muito feliz com o reconhecimento. Vamos fazer uma série de ações esse ano. Todo ano temos que fazer uma coisa diferente. Esse ano vamos ter o Rebeldia Nordestina, que já estreei eem Fortaleza e devo trazer ele para São Paulo e Rio de Janeiro. É uma reflexão sobre certos compositores da música nordestina que tem influência na minha formação artística”, explicou.

Um dos temas mais discutidos nesse carnaval foi apropriação cultural. A funkeira Anitta, por exemplo, sofreu uma série de retaliações nas redes sociais após aparecer com o cabelo trançado. Sobre o tema, Margareth soltou o verbo. “Olha, sinceramente, o Brasil é um país de pessoas tão misturadas. Eu vejo que cada coisa tem o seu lugar, sim, mas eu não acho que seja nenhum impropério a pessoa usar o cabelo trançado. Tranças existem em várias culturas do mundo inteiro, turbantes existem em várias culturas do mundo inteiro. Eu acho que a gente tem que ter uma visão um pouco mais ampla das questões”, ponderou. A cantora ainda completou com: “Eu acho que se estivesse com um turbante fazendo um ritual da religião africana, afro-brasileira, dentro do Carnaval, acho que é apropriação religiosa e cultura sim. Mas a pessoa usar um turbante com elegância e beleza, pessoalmente, eu não tenho problema com isso não”, confidenciou.

“A gente começa a julgar pela cor da pele, porque a gente não sabe o histórico da pessoa. Quantas pessoas brancas tem raízes afro-brasileiras? Quantas pessoas brancas também praticam a religião afro-brasileira? E quantas pessoas de diversas pigmentações usam o turbante? As coisas são muito relativas. Eu não tenho radicalidade nenhuma em relação a isso. Tudo com respeito, que não está sendo pisoteado ou vandalizado, tem seu lugar. Quando vivemos em sociedade, nós compartilhamos várias coisas. A gente tem que entender, mas agora cabe o meu apelo para o respeito”, afirmou Menezes.

A dona da voz que embalou o Brasil inteiro com sucessos como “Dandalunda” ainda falou um pouco sobre a cultura do país e a sua relação com a educação. “A cultura afro é uma das bases da cultura do Brasil. Ela dá o tom na identidade nacional. O que acontece no Brasil ainda é a falta de informação sobre a cultura afro brasileira de uma maneira geral. Nas escolas falta mais informação. Isso pertence à formação do povo do Brasil. Não se pode mais negar e não se pode mais fugir. É muito comum a gente achar que a cultura americana, o chapéu do cowboy, é mais nacional a nós do que a cultura afro. A gente tem que entender que a cultura afro está em todos os lugares”, sentenciou.

Margareth é incisiva ao falar das defasagens impostas pelo sistema escolar que contribuem para a falta de informação. “A culpa é das escolas e a culpa é do sistema. Até agora eu soube que não vai haver mais um estudo disso obrigatório. Como assim não veremos a história do Brasil como ela é? Tem que contar a história do país como ela é, com a participação de todos os povos. Tem que mostrar a dignidade também e não só o lado pejorativo e negativo. Temos que dar valor a todas as raças que formam esse país. Isso para mim é o que está faltando para a gente entender melhor onde está esse cultura afro brasileira. Pela sociedade não saber a história, a maioria do povo sofre por isso”, enumerou.

Sobre a trajetória, ela se definiu como uma lutadora. “Eu tive muitas dificuldades na minha carreira, mas tive muitas vitórias também. Eu como artista me sinto uma lutadora. Além de ser mulher e negra, eu também sou artista e ser artista nesse país é uma batalha até conquistar seu espaço, conseguir reconhecimento. Na arte, quando a gente consegue, é mais pela qualidade, pelo nosso discurso e pelo o que a gente apresenta. Esse lado para mim é o mais representativo. É a qualidade do que eu faço, é a mensagem que eu passo. Agora com certeza a dimensão racial dificulta para o povo, para mim. Não é o mesmo nível de espaço que se tem. É um comportamento que está dentro do povo brasileiro e precisa ser tratada”, alertou.

Margareth Menezes mostrou o motivo de fazer sucesso há 30 anos. É com talentos, conhecimento sobre questões sociais e mente aberta que ela conquistou e continua cativando todo o público brasileiro. Entre os planos para 2017, ela fala sobre um novo álbum que já começou a ser pensado e que ela desejava gravar e lançar ainda esse ano. “Quero gravar um álbum de músicas inéditas que é algo que já estou devendo para o público há um tempo. Já comecei a ouvir algumas coisas e a minha ideia é lançar esse ano. Se não for esse ano, vai ser no inicinho do ano que vem, mas já tenho algum material”, adiantou a cantora.

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