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Luis Carlinhos lança disco em que homenageia a obra do cantor Bob Marley com ritmos brasileiros e grande número de músicos convidados

Rodrigo Shá, Alexandre Carlo do Natiruts e Afroreggae fazem parte do disco em homenagem ao jamaicano

Publicado em 8 de setembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Mesmo depois do falecimento de Bob Marley, em 1981, o cantor continua sendo um sucesso mundial. Gerações que chegaram depois reverenciam o ícone do reggae até hoje. Luis Carlinhos nasceu seis anos antes da morte do cantor, mas isso não o impediu de ser fã e, agora, produzir um CD inteiro reverenciando a obra do músico. Luis Carlinhos Canta Bob Marley chegou as plataformas digitais provando que ainda é possível se apaixonar pelo reggae dos anos 70. A releitura do brasileiro possui uma infinidade de instrumentos como violoncelo, acordeon, flauta e banjo que compõe melodias totalmente diferentes das produzidas pelo jamaicano. O músico já começou a rodar pelos palcos do Rio de Janeiro expondo sua versão do estrangeiro ao lado de grandes nomes da música que o acompanham nos palcos e na versão digital como Silvia Machete, Nicolas Krassik, Rodrigo Sha, Marcos Suzano, Frederico Puppi, Marcelo Caldi, Davi Moraes, Alexandre Carlo do Natiruts e Afroreggae. “As músicas dele são fáceis de tocar e de ouvir. Foi com este som que comecei a fazer sucesso, as pessoas se empolgavam muito com ele. O cantor traz muito a ideia da natureza, do surf e desse lifestyle. Tem a juventude que é um momento muito bom na vida de todos. Ele levanta a bandeira da justiça, do respeito às diferenças, coisas que quando somos mais jovens nos agarramos em busca de um mundo melhor”, afirma Luis Carlinhos.

Bob Marley nunca escondeu sua visão de mundo em suas músicas. Temas como política, amor, festa, dança e espiritualidade que são presentes nas composições do cantor não ficaram de fora da versão do brasileiro. “Sempre tive muita semelhança com ele, através da minha música eu colocava minha situação no mundo. Falo do amor pelos outros e da política também, fugindo sempre do partidarismo. Quero ser uma voz que possa trazer uma canção de esperança e medo. Exponho a ansiedade. Nós dois temos uma estrutura de musicalidade muito parecida, componho as pautas que ele trazia. No entanto, minha visão de mundo é bem diferente porque sou privilegiado por ser branco e ter nascido na Zona Sul, do Rio de Janeiro. O Bob vem da Jamaica e tem a voz de um povo muito sofrido”, acredita Luis Carlinhos. O jamaicano nasceu em uma vila chamada Nine Mile e, atualmente, o local é muito visitado por causa da história de Bob. No entanto, na época de seu nascimento era um lugar muito afastado e pacato.

Violão é a base do CD de Luis Carlinhos (Foto: Pepe Schettino)

A paixão pelo cantor começou muito cedo na vida de Luis Carlinhos, a primeira música que ele tocou no violão foi do Bob Marley. Coincidência ou não, o violão está no fundo de todas as músicas do CD. “O violão sempre foi a base da minha música e, com o Bob Marley, achei que os arranjos combinassem muito bem. Traziam uma nova ideia que achei que merecia ser escutada. Consegui chegar em um lugar parecido com o dele, mas com um sotaque a mais. Não ia ficar restrito ao som que costumamos a escutar, teria baixo, por exemplo. Primeiro fiquei neste instrumento para ter a minha base, depois coloquei a minha voz, o lado acústico e, com isso, vários outros instrumentos. Dei uma cara nova sem a dominância do estilo do Bob”, explica o cantor.

‘Três Lindas Flores’ é a versão em português de ‘Three Little Birds’ (Foto: Pepe Schettino)

Apesar do disco ter uma base de instrumento, cada música é diferente da outra e não seguem uma linha lógica. Isto acontece porque o cantor acredita que uma melodia não precisa, necessariamente, completar a outra. “Cada música tem a sua liberdade e sua especificidade, existem vários arranjos diferentes que não buscam se completar. Hoje em dia, as pessoas gostam de escutar melodias avulsas, por isso não me preocupei que do disco seguir uma sequência lógica. É claro que existe uma fluidez e uma narrativa própria do reggae. Por exemplo, foi proposital colocar a canção em português no início porque queria chocar as pessoas”, acredita Luis Carlinhos. ‘Três Lindas Flores’ é a versão em português de ‘Three Little Birds’ e foi feita com Cláudio Agá, a flauta de Rodrigo Sháe a participação do trio vocal feminino do grupo Afroreggae.

Luis Carlinhos foca na música acústica (Foto: Divulgação)

Ter o trio feminino da comunidade Vigário Geral foi muito importante para o CD, por assemelharem as cantoras do Bob Marley. O cantor foi criado no gueto e foi uma forma de Carlinhos se deslocar a esta realidade. Assim como elas, vários cantores estão presentes no disco trazendo sua cultura e forma de tocar. A escolha de músicos foi feita com muito cuidado durante o ano de produção do LP. “Tive um período de gestão e compreensão do que cada música significa. Comecei a perceber que era importante trazer o som de vários instrumentos diferentes, por isso resolvi convidar várias pessoas diferentes que tivessem intimidade com esses sons para me ajudar a compor a melodia. Senti que eu precisava de espaço nas canções para sentir a letra e isso só seria possível com o instrumental e acústico. Achei importante gravar com o Afroreggae, por exemplo, porque eles traziam toda a relação com o que é trabalhar com a favela. Esta realidade é próxima a visão de mundo do Bob Marley”, explica o cantor.

O álbum não é uma versão brasileira da obra de Bob Marley (Foto: Pepe Schettino)

Esta união de músicas e sonoridades compõe o que o cantor chama de versão de Luis Carlinhos do Bob Marley. O brasileiro buscou fazer este disco para ser tocando em qualquer lugar do mundo sem se restringir a estilos do nosso país. “Para entender o que isto quer dizer é preciso conhecer a minha obra e quem sou, porque é um carioca, viajado e que vive as músicas. No entanto, fiz esse disco de forma muito universal, pode ser tocado em qualquer lugar do mundo. Não é um brasileiro cantando Bob, é um artista. Possui um lado brasileiro, tem um gingado praiano, um ritmo soul, mostrando sempre o acústico. Não fiz um reggae cachoeira. Quem ouvir vai gostar porque não deixei de lado a memória deste artista”, conta.

No começo da carreira, Carlinhos tocava muito Bob Marley (Foto: Divulgação)

No começo da carreira na banda Dread Lion, Carlinhos tocou muitos clássicos do reggae estando Bob Marley entre eles. Depois introduziu músicas próprias ao grupo, mas sempre sentiu que precisava voltar a obra do jamaicano porque esta nunca deixou de estar entre suas influencias artísticas. “Queria trazer uma alma carioca e brasileira, misturando sons e instrumentos para criar algo autoral. Fiquei muito contente com o resultado deste disco. É perceptível que quando a gente faz algo com muito amor a coisa dá certo. As pessoas que já conferiram o resultado parecem estar muito encantadas. Me reencontrei com temáticas muito importantes daquela época”, garante.

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