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João Cavalcanti comenta sobre seu novo disco em parceria com Marcelo Caldi e comparações com o pai, Lenine: “Eu tenho bode das rotulações”

Após se despedir da Casuarina, banda na qual permaneceu por 16 anos, João Cavalcanti lança disco em parceria com Marcelo Caldi e já prepara novo disco solo, ‘’Sangrado’’, cujo lançamento está previsto para o ano que vem.

Publicado em 1 de junho de 2018 | Por Thaissa Barzellai

Já dizia Raul Seixas: ‘’Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante’’. E esse é o lema do cantor João Cavalcanti que, depois de ter passado 16 anos na banda Casuarina, se reinventa ao lançar o disco Garimpo, produzido em parceria com Marcelo Caldi, amigo de longa data. Gravado ao vivo em estúdio, o álbum traz a união da voz de João ao piano e acordeão de Marcelo em um registro do show homônimo da dupla realizado desde 2015, oferecendo novas interpretações para canções escritas por João que já haviam sido lançadas nas vozes de outros intérpretes. ‘’Foi uma espécie de reapropriação do compositor das suas próprias músicas, dando outra paleta de significados. A gente se valeu dessa intimidade e fizemos todas as escolhas nesse sentido de aprofundar o que está sendo dito. Marcelo sabe que a minha relação com a música é toda pautada pela mensagem, pelo o que eu quero dizer. Ele foi super inteligente em transpor isso metalinguisticamente para reforçar o sentido’’, conta João, que assina 14 das 13 músicas do disco.

Apesar de já ter no currículo sete discos com Casuarina, um solo (Placebo) e um no qual participou como produtor, Garimpo ofereceu ao João exatamente o que ele queria: uma nova experiência musical. ‘’O projeto do Garimpo não é um no qual vou encontrar muitos ecos porque eu nunca tinha feito voz e piano, eu nunca tinha experimentado nada disso. Eu sou muito pautado pela sensação do precipício, sabe? No sentido de buscar novas formas de produção, novas formas de dialogar, novas formas de apresentar a minha música’’, diz. Além da bagagem instrumental de Marcelo, João se valeu de parcerias na composição, como Tiê, Zé Renato, Joyce Moreno e o próprio pai, Lenine, para criar essa pluralidade de significados e sons. ‘’Teve um pouco de cada parceiro, como não poderia deixar de ser, em curtir a sua sonoridade e identidade de composição no resultado da canção. Então tem uma pluralidade de parceiros e, naturalmente, tem uma pluralidade de linguagens que são abordadas em espaços musicais diferentes’’, explica.

O primeiro single do Garimpo, ‘’Indivídua’’, parceria com Pedro Luís lançada em março como forma de apresentação do disco, foi lançado no vídeo show nesta sexta-feira, 1. A música, que traz versos como ‘’É uma fonema que me enche a boca, Toda correlata me substantiva’’ dessa vez em ritmo de tango, retrata a relação devota de um homem com uma mulher, relacionando a língua portuguesa com o sentimento de paixão como também com a angústia de escritor do eu-lírico. Com direção de Alexandre Nero, João interpreta o indivíduo apaixonado enquanto a atriz Camila Pitanga representa a própria palavra, fugindo do viés erótico da canção. ‘’Ela representa a própria fluência. Ela é como se fosse a palavra que chega pra desatar todos os nós intelectuais desse eu-lírico que está pelejando com a própria palavra, com o próprio texto, com o próprio oficio de escrever’’, explica. A parceria entre a atriz e o cantor marcou a estreia de João como ator.

A novidade não está só na produção do disco. Nos dois shows de divulgação, realizados no Blue Note, no Rio de Janeiro, no início de maio, o duo surpreendeu o público ao dividir o palco com artistas que participaram somente da composição da música para interpretá-las com ele. Para João, isso é mais uma forma de incrementar a musicalidade de um projeto. ‘’Os artistas que participaram do show não cantaram comigo no disco, então tem a surpresa porque não é exatamente reproduzir o que está no disco, é ganhar mais esse ingrediente que é o meu parceiro na composição vir cantar comigo essas musicas’’, afirma. No primeiro, João contou com a presença de Pedro Luís e com a de Lenine, cuja parceria está na faixa ‘’Causa e Pó’’. Já no segundo, o cantor saiu da sua zona de conforto ao fazer um dueto com Joyce Moreno e Roberta Sá, que são co-autoras das músicas ‘’Dia Lindo’’ e ‘’O Nego e Eu’’, respectivamente. ‘’Para deixá-las o mais confortável possível, cantei no tom delas, no tom feminino, então teve essa brincadeira também. É um desafio cantar fora do seu tom natural, do seu lugar de fala’’, brinca o cantor.

Não foi só o público que teve uma noite especial. Segundo o artista, dividir o palco com suas inspirações foi uma experiência carregada de muita emoção, principalmente o momento que o pai subiu ao palco. ‘’O primeiro sábado foi muito mais carregado na tinta da emoção porque tinha meu pai junto e não é algo que a gente faça com muita regularidade, ainda mais cantando músicas nossas. Ao contrário do que possa parecer por eu ter um acesso tão fácil ao artista Lenine por ele ser meu pai, é uma parceria recente, é tardia. Então, tem uma coisa da gente se descobrir junto no palco e isso foi muito emocionante’’, conta. João também não economizou nos elogios aos outros parceiros de palco. ‘’Pedro é um cara que a gente ficou muito íntimo, temos uma cumplicidade muito latente. Roberta é uma das grandes cantoras da nossa geração, é uma figura que eu amo muito e é muito cúmplice. E a Joyce é uma referencia mor pra mim, é uma das artistas que eu mais cedo comecei a devorar. Foi maravilhoso’’.

Assim como o disco, o show também carrega em si uma mensagem. Em uma hora e meia, Marcelo e João buscaram oferecer ao público por meio das canções um espaço de reflexão que, devido à correria do cotidiano, hoje já não é algo que seja feito com tanta frequência. ‘’O paradigma contemporâneo da comunicação é você bombardear, cada um faz o seu filtro mas você não tem muito tempo pra refletir o que está sendo dito. Por isso, tentamos achar um espaço que não seja de escuta passiva. É um lugar pra elas criarem suas próprias interpretações, seus próprios significados’’, explica. Essa relação estabelecida entre o público e o espetáculo transformou a platéia em um ingrediente tão importante quanto o repertório, sendo merecedora de todos os aplausos. ‘’É muito bom pro artista, é muito raro quando você tem uma plateia como foi nesses dias no Blue Note, com esse nível de atenção e de doação ao show. Isso é mérito da plateia e da vontade dela de estar conectada plenamente com o show’’, elogia.

João posa com os amigos e integrantes da banda Casuarina para divulgação. (Foto: Divulgação)

Jornalista de formação, o cantor nunca quis realmente seguir a carreira musical. No entanto, seu destino foi outro e João carrega uma bagagem de fazer inveja. Integrante da banda Casuarina por 16 anos, Cavalcanti conquistou seu espaço no âmbito do samba, ganhou prêmios, como o de melhor grupo de samba no Prêmio da Música Brasileira, e encantou plateias ao redor do país. ‘’Foi na banda que eu comecei a cantar e toda a minha vivencia com o samba se deu a partir do advento dela. A minha relação com o palco foi construída muito paliativamente e no fazer da cena’’, conta. Mesmo com sentimento de orgulho do fruto de uma parceria com amigos de tantos anos, João decidiu que já era hora de seguir voo solo em novembro do ano passado. ‘’Sabe, é aquela coisa: você é casado por 16 anos e tem 7 filhos, dos quais você sente muito orgulho. Você vai dizer que não deu muito certo? Claro que não, mas deixou de me interessar, de fazer sentido pra mim, a equação parou de se concluir’’, declara.

A saída da Casuarina também permitiu que João Cavalcanti fosse em busca das suas vontades artísticas sem o constrangimento de tempo e capacidade de realização que teria se permanecesse na banda, criando naturalmente uma identidade própria. Contudo, com o lançamento do Garimpo, as pessoas, que em sua maioria não o tinham ouvido cantar solo, estão reconhecendo as semelhanças com seu pai, Lenine. ‘’Agora que eu saí da banda, as pessoas estão se dando conta que eu canto outras coisas além do samba. Embora já tenha lançado o Placebo, nem tem todo mundo ouviu. Então, eu tenho recebido muitos comentários nesse sentido, como ‘’pô agora que eu estou percebendo como parece a voz’’ ou ‘’Eu nem sabia que você é filho dele, mas reconheci pela voz’’’’, conta. Durante muito tempo, principalmente no início da carreira, o cantor tentava fugir desse lugar de comparações. ‘’Eu recusava pautas nas quais nós éramos citados juntos, eu queria fugir um pouco desse lugar comum do ‘’filhinho de peixe, peixinho é’’. Eu tenho um bode pelas rotulações. Eu só tinha muita preguiça desse lugar’’, diz. Hoje, apesar de não se importar tanto com os comentários, João vê como necessária essa distância artística entre os dois. ‘’Nós vamos nos distanciando e aproximando naturalmente no ponto de vista musical a partir das referências que passam a ser mais minhas do que dele, as parcerias com artistas que ele não tem e vice-versa. Isso nos coloca em lugares em grupos que tem intersecções importantes, são diferentes”, comenta.

A vontade de explorar outros caminhos sempre foi muito grande, mas João Cavalcanti sabia que não seria tão fácil assim. Visto o momento sociopolítico que o Brasil vive, a cultura é uma das principais vítimas, sofrendo com a falta de incentivos ou falsas verdades, como foi o caso envolvendo a Lei Rouanet – que dizia que artistas se afiliavam politicamente para usufruírem do incentivo. ‘’Ser artista no Brasil é uma luta. É claro que a gente tem que jogar nas 10, tem que entender de marketing pessoal, de divulgação, de design, de tudo, e tudo bem, faz parte do oficio. Mas fica tudo mais difícil quando você está em um ambiente no qual há uma narrativa e senso comum de que a arte e cultura são supérfluos, são gastos desnecessários’’, desabafa.

Para João, que entende que a sua arte tem uma vocação política, é preciso transformar esse viés pseudo-moralista, muitas vezes baseado em um fanatismo religioso, por meio do diálogo e da resistência cultural. ‘’Estamos em um momento que algumas pessoas começam a advogar pela volta da censura. Eu não consigo pensar em nada mais torto e abjeto do que isso. Isso é fruto da ignorância e da falta da própria cultura. Quanto menos você se expõe, dialoga com a cultura do seu país, mais ignorante você fica e mais ignorância é desejada. Essa situação só reforça e realinha o papel do artista com a sua vocação política’’, completa.

João ao lado dos filhos, Luna e Tom, e da esposa Miriam. (Foto: Divulgação)

Além de refletir uma resistência cultural, o trabalho de João traz à tona momentos pessoais do cantor. Pai de Martin, 1 ano, Tom, 9 anos, e de Luna, 7, o cantor passou por uma transformação após o nascimento da caçula, que é portadora de síndrome de down. O contato com a sensibilidade e inteligência da filha fizeram-no um indivíduo menos preconceituoso e mais afetuoso, traços que refletem em suas obras. ‘’Não há como isso não impregnar na minha obra. A Luna, ao me provar errado, ao provar pra mim como eu estava equivocado pela potencialidade dela, expôs o quanto estou em desenvolvimento junto a ela. Isso imprime na minha música, nas minhas letras pelo viés da sensibilidade e do afeto’’, conta.

No dia da minha estrelinha não podia ser outro o desfecho.

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Embora o país, principalmente o Rio de Janeiro, tenha instituições, como o Instituto Fernando Figueiras, e algumas medidas públicas que visam a inserção social desses cidadãos, João acredita que ainda existe uma estigmatização muito grande com relação à eles. ‘’No caso da síndrome, a distorção que se dá é que os indivíduos down são tratados como aberrações e ficaram mais ou menos presos. Foi criado um estigma, porque eles viram adultos down que se portavam como crianças. Isso não tem a ver com a síndrome. Isso tem a ver com o fato deles terem sido reprimidos de exercerem sua cidadania, reprimidos e constrangidos da sua capacidade de crescer. Eles precisam de um pouco mais de estímulos pra alcançar lugares de desenvolvimento e esses estímulos tem que ser expostos’’, afirma. Porém, apesar dos pesares, João espera que a luta continue colhendo frutos. ‘’Acho que há uma distorção histórica que está sendo realinhada uns 30 anos pra cá e que vai gerar uma geração brilhante de indivíduos down que vai dar o que falar. Eles vão com o tempo expor a verdade deles, a plena capacidade de realização que eles têm, pro mundo. Isso não vai precisar muito de gente não down falando por eles em breve’’, comenta esperançoso.

Uma coisa que ficou clara é que João não gosta de ficar parado, seja em casa com os filhos ou no estúdio com os amigos. Por isso, nada mais justo do que já estar em produção de novo disco, né? Em parceria com o produtor Tó Brandileone, o próximo disco de João, ‘’Sangrado’’, vai trazer o sentimento de urgência que o artista gosta de passar por meio de letras autênticas. ‘’ É um disco basicamente de canções inéditas e o repertório está sendo delineado em função do momento. Eu gosto muito que as canções estejam urgente, que o texto esteja pulando da ponta da língua pra fora, não pode ser uma coisa guardada. Assim que passar o momento do Garimpo, vou debruçar no Sangrado’’, revela. O disco ainda não tem data prevista de lançamento, mas mal podemos esperar!

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