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Italiana de alma brasileira, Chiara Civello se apresenta com novas versões de clássicos da sua terra e fala do amor ao país: “A música brasileira é perfeita”

Apaixonada pela música brasileira desde a época de estudante, a cantora realizou um sonho ao gravar com ícones como Gilberto Gil e Chico Buarque nesse novo disco

Publicado em 20 de abril de 2017 | Por Rodrigo Cohen

Ela é quase carioca. Bom, pelo menos ela queria ser… Chiara Civello é uma estrela da música italiana que se apaixonou por esse país ao se mudar para os EUA e estudar música. Lançando o novo CD Canzoni – que conta com a participação de Gilberto Gil e Chico Buarque – ela se apresentará no Brasil em três cidades diferentes durante o mês de maio. A italiana quase não consegue acreditar que dois ídolos seus compõem as faixas da obra e fala sobre esse momento com o encantamento de uma criança. “O que eu vivo é uma fábula, é uma linda história. Eu escutava Caetano Veloso, Gil, Jobim e dali a pouco o Chico Buarque está gravando comigo.”

Foto: Fabio Lovino

Crescendo sem muito contato a cultura sul-americana, Civello contou como descobriu a música do país tropical e todo o desenvolvimento e crescimento dessa paixão responsável por influenciar o seu trabalho atual. “Desde quando eu me mudei pros EUA, adorei o Brasil. Com 18 anos, eu saí da Itália e fui para Boston com uma bolsa de estudos na Berklee. Conheci muita gente da América do Sul e foi uma grande novidade para mim, sendo europeia. Então, eu fui introduzida a música brasileira por essa galera e me apaixonei loucamente. A partir daí, quando eu vi, eu só escutava Tom Jobim, Caetano Veloso, Djavan… Comecei a produzir canções, fiz o meu primeiro disco e convidei o Daniel Jobim. Ele foi o meu primeiro amigo brasileiro. Depois eu continuei me aprofundando mais ainda, conheci a Bossa Nova e a minha vida girava em torno daquilo. Foi amor à primeira vista” revelou a cantora.

Anos depois, ela decidiu embarcar para conhecer pessoalmente esse amor. Não é difícil de acreditar que foi recíproco e o Brasil abraçou a ela e o seu talento. “Em 2008, cheguei ao Brasil e consegui uma série de parcerias muito importantes: Ana Carolina, Dudu Falcão e Antônio Villeroy. Foi quando comecei uma relação mais direta com o que era a música brasileira contemporânea. Aquilo que era uma paixão artística mudou-se para uma paixão real. Percebi a importância dessa cultura musical com a vivência mais real no país. Passei mais tempo aqui, aprendi melhor o português e continuo voltando sempre que posso. A Itália e o Brasil tem uma reciprocidade sobretudo nos anos 60, muitas inspirações em comum. Eu sempre amei essa ponte. Muitas canções do Roberto Carlos, por exemplo, tem influência da música italiana.”

Foto: Artist Proof

Vivendo e convivendo com os brasileiros, ela percebeu a relação íntima do povo com a musicalidade e a importância dessa arte no cotidiano do país. Comparando com a Itália, Chiara fica incrédula ao saber que existem brasileiros que desdenham da própria cultura. “Se existe alguém no Brasil que não dá valor para a cultura musical do país, deveriam vir a Itália ver como está a música aqui atualmente e voltaria correndo para ai apaixonado pelo que tem. Vocês tem uma convivência com a música muito bonita. Entra em um táxi no Rio e o cara bota o último CD do sambista que gosta, que não é aquela estourada da rádio pop. É lindo isso. O povo brasileiro ama música. Os italianos são um pouco mais alheios a isso. Eles só se doam para a música em alguns momentos. Não é cotidiano como no Brasil. A música faz parte da rotina de vocês. Isso é uma coisa absolutamente linda de se ver”, declarou.

O disco “Canzoni” é um exemplo dessa observação da cantora e da tentativa de dar uma nova roupagem aos clássicos italianos para que eles também façam parte do cotidiano daquela cultura. “Quando eu pensei no disco, eu queria fazer uma versão cool das músicas italianas. Você escuta aquelas canções e te remete a uma época, a uma história, você percebe o som e te remete a algum momento. É lindo, é charmoso, mas eu queria que você tivesse uma música que pudesse entrar em muitas casas. Eu queria um som internacional, que todos, além dos italianos, gostassem de ouvir. Por isso eu chamei cantores ligados à Itália, mas não italianos, para compor esse disco comigo. Queria um som mais jazzy, mais moderno, tirando a melodramática clássica. Queria sussurrar quase. Minha intenção era personalizar, fazer uma antologia pessoal. Como eu sentia essa canção, como eu percebo. Pegar essas melodias grandiosas e despi-las”, contou Chiara.

Mesmo já tendo tido a oportunidade de gravar com dois dos maiores nomes da música desse país, Chiara Civello quer mais e mostra que conhece muito bem a cultura musical do Brasil, para além dos clichês já muito reproduzidos “Se eu começar a falar a lista dos artistas brasileiros que eu ainda gostaria de trabalhar, a lista é quase infinita: Caetano, Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte. Eu adoro os cantores brasileiros. Eu sou completamente apaixonada pela música brasileira. É a música perfeita. Tem a sublimação dos três elementos: poesia, ritmo e harmonia. A música brasileira é perfeita sob esses aspectos” disparou.

Foto: Beti Niemeyer

Foto: Beti Niemeyer

Os shows no Rio de Janeiro (17/5, Theatro Net Rio), Porto Alegre (19/5, Bourbon Country) e São Paulo (25 e 26/5 – unidades do SESC SP) serão um oportunidade incrível para quem ainda não conhece o lindo trabalho de Chiara Civello. Trazendo o jazz de volta a sua origem de “Ao vivo”, ela conta como costuma conduzir seus shows e declara mais uma vez seu amor pelo público brasileiro. “Eu deixo tudo muito livre nos shows. Eu penso em ‘ao vivo’. Então, tem que ser vivo. Os músicos fazem solo, cada noite a gente toca de uma maneira diferente. A gente se diverte. A diferença é que a orquestra de cordas, que é uma coisa maravilhosa, não está presente. No disco, você cristaliza uma coisa. Ao vivo, você continua crescendo. Essas músicas continuam crescendo em mim. Eu preciso entreter ao público e entreter a mim mesma também. Se não, não faz o menor sentido. O público brasileiro é um abrigo, é um abraço quente. É como um paletó costurado sob medida para cada um que passa por ai. Eles são muito carinhosos, muito fiéis e receptivos. É uma coisa incrível”, comentou animada.

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