Música & Badalo

Com discurso político na ponta da língua, a banda Jota Quest mostra a importância das músicas atuais trazerem reflexões em suas letras

"Não estou satisfeito com o mercado musical nacional. Acho que ele está desequilibrado, não falo isto porque o meu estilo não é um dos mais ouvidos. Também fazemos músicas para dançar e beijar na boca, mas não escutamos críticas e poesias nos repertórios atuais", afirmou o vocalista e porta-voz da banda Rogério Flaustino

Publicado em 26 de setembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Jota Quest promoveu o abraçaço no Rock in Rio em ato de paz (Foto: IHateFlash)

Eles conseguem levar o entretenimento ao público e explorar viés políticos, ao mesmo tempo, mostrando que é muito fácil fazer as pessoas se divertirem e refletirem. Jota Quest é aquela clássica banda brasileira que começou nos anos 90 e prestigia, até hoje, o público com todo o seu talento de pop misturado com rock. Com sucessos tão grandes que levam qualquer um a saber a letra na ponta da língua, o grupo se apresentou pela terceira vez no palco Mundo do  Rock in Rio. O show proporcionou a legião de fãs uma desacelerada nas canções, mostrando um Jota Quest mais acústico em homenagem ao novo disco que estão lançando. A ideia da banda, reverberada pelo porta-voz e vocalista Rogério Flausino, é nunca se manter no mesmo nível de produção artística.  “Continuar inovando é algo necessário para manter nossos fãs, além de ser algo que precisamos fazer para nós mesmos. São 20 anos de sucesso, uns 3 de boteco e tenho 45 anos de idade. Ainda tenho muitas ideias, projetos musicais, coisas que preciso evoluir e sonhos que gostaria de realizar. E quando digo isto estou falando por todos da banda”, afirmou o vocalista do conjunto mineiro.

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A banda Jota Quest já possui 23 anos de estradas (Foto: IHateFlash)

Buscar a inovação sempre não é uma tarefa fácil para ninguém, especialmente, quando isto significa agradar milhares de pessoas que se deslocam de suas casas para ir a um dos maiores festivais de música do mundo.  “Estar no Rock in Rio pela terceira vez é uma alegria e uma tristeza. Quando recebemos o telefonema comemoramos por alguns minutos e depois pensamos que vai começar tudo de novo, porque sabemos que vamos ficar durante um grande período de tempo mergulhados na perspectiva de fazer um grande espetáculo. Temos que achar as melhores músicas, arranjos e atrações que ainda não fizemos. Afinal, som, luz, equipamentos e profissionais da melhor qualidade estão apostos para nos ajudarem a fazer o melhor concerto possível. É uma experiência transformadora e de evolução. Não é algo que colhemos somente no dia do show, porque fica para a história. Não estaríamos aqui se os anos anteriores não tivessem sido bons. Temos que trazer, dentro de uma hora, um disco, uma música, um arranjo ou uma mensagem nova. Somos quase atletas que treinam quatro anos para estar em uma Olimpíada e viver apenas alguns minutos de apresentação”, comparou Rogério.

Rogério criticou o sistema político (Foto: IHateFlash)

O show da banda aconteceu, na verdade, em um dia muito propício a discursar sobre vários assuntos. Nesta última sexta-feira, o Rio de Janeiro estava em estado de alerta devido a diversos tiroteios e violências nas favelas. “O que aconteceu no dia do show me pegou muito desprevenido, apesar dessa violência não ser de hoje. Nós fomos ao Rock in Rio para falar de ecologia e política e, de repente, estávamos vivendo um momento estranhíssimo. Fiquei me perguntando o que eu poderia falar sobre o assunto. A música Dias Melhores fala exatamente sobre esta situação, mas já tínhamos dedicado ela para ecologia com um vídeo que fizemos especialmente para o evento. A função do artista é falar sobre o que está acontecendo, principalmente, quando temos um palco com tamanha visibilidade. Isto não deve ser encarado como uma obrigação, mas não podemos ficar a parte das coisas. Aprendi isso por ter sido criado na década de 80, onde no rádio se ouvia grandes ídolos do pop e rock, como Legião Urbana. Uma época que mesclava o entretenimento com traços de contestação”, lembrou Rogério. Depois de Dentro de um Abraço, o cantor resolveu propor ao microfone um ato de carinho com pessoas desconhecidas. Como o próprio título diz, ele promoveu um abraço coletivo para driblar os tempos de ódio.

Rogério afirmou não estar satisfeito com a música nacional atual (Foto: IHateFlash)

Em entrevista ao site HT, Rogério Flausino deixou claro a importância da música trazer palavras que levantem o questionamento social e político da galera. “Não estou satisfeito com o mercado musical nacional. Acho que ele está desequilibrado, não falo isto porque o meu estilo não é um dos mais ouvidos. Também fazemos músicas para dançar e beijar na boca, mas não escutamos críticas e poesias nos repertórios atuais.  Eu me transformei em um determinado sujeito devido às influências da época. Escutei dos meus ídolos palavras de liberdade sexual, de expressão e criticas ao governo corrupto. As pessoas que não tiverem acesso a contestação que eu tive, não sei como serão. Como os jovens vão aprender a serem críticos se não aprendem com ninguém? Fico triste porque acho que é uma questão de mudança de comportamento da sociedade. Não quero ser presunçoso ou dizer que prefiro o passado, mas sinto saudades da época que temas mais profundos tocavam o coração das pessoas. Precisamos falar disso, não é à toa que estas letras antigas ainda são lembradas até hoje. Queria muito que emissoras e produtoras conversassem para dar um espaço para esta galera para tentar dividir mais o espaço”, informou o músico. Para ele, é muito claro o que está acontecendo no cenário musical e por isso se sente à vontade para criticá-lo. “A cultura pop de um país é reflexo do que vivemos socialmente. Claro que a repressão que vivemos na década de 70 acabou gerando o sentimento de libertação e contestação dos anos que se seguiram. Podia-se falar o que quisesse porque todos queriam escutar e debater. Hoje, vivemos uma ‘liberdade total’ com menos preconceito, em certos sentidos, porque enquanto existem pessoas que pregam a igualdade outros estão propondo a cura gay. O som contestador é feito no gueto e não chega ao grande público e isto mostra que algo está errado. Ou as pessoas não querem ouvir isto ou alguém está impedindo que a melodia chegue até elas. O fato da falência de produtoras que apostavam nesta galera também influenciou negativamente para esta diminuição de espaço. Nos anos 80 e 90, havia bandas produzindo coisas bacanas, empresas dispostas a promovê-las e rádios querendo mostrar estes caras. O samba, axé e forró continuavam sendo produzidos e ouvidos pela galera. Tinha espaço para todos”, garantiu Rogério.

 

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