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Com colaboração de crowdfunding e selo da Joia Moderna, Letícia Novaes lança primeiro álbum da carreira solo: “É um trabalho super dançante”

Depois de nove anos à frente do duo Letuce, Letícia decidiu que era o momento de encerrar um ciclo e começar outro, que já vem desde 2015. Sobre o novo trabalho, a artista contou que misturou três movimentos artísticos: teatro, música e literatura. O resultado? Vem ler e ouvir

Publicado em 11 de julho de 2017 | Por Julia Pimentel

Letrux em Noite de Climão” é uma loucura. A definição do primeiro disco de Letícia Novaes foi dada pela própria artista que, no trabalho lançado hoje nas plataformas digitais, mistura música, literatura e teatro. Depois de nove anos à frente do duo Letuce, Letícia decidiu que era o momento de encerrar um ciclo e começar outro, que já vem desde 2015. Para o álbum “Letrux em Noite de Climão”, lançado pelo selo Joia Moderna, do super DJ Zé Pedro, a artista se dedicou durante quase dois anos e teve a parceria do tecladista e compositor Arthur Braganti. “Desde a banda, eu já tinha a ideia de fazer um álbum solo misturando os três movimentos que eu mais amo: teatro, música e literatura. Então, este trabalho acaba sendo uma persona de mim mesma”, explicou.

No lançamento, Letícia Novaes propõe uma sonoridade mais noturna, diferente da identidade solar de sua ex-banda, Letuce. Inclusive, por isso, o nome dado ao álbum evidencia esta ideia. “Eu e Arthur escolhemos a partir de um vocabulário nosso”, lembrou a artista que definiu o trabalho como um disco pop moderno. “Não deixa de ser música brasileira, mas tem uma pegada mais contemporânea. Porém, também tem gente que diz que tem um pouco da sonoridade dos anos 1980. Pode até ser. Eu sou dessa época e trago esta identidade na minha trajetória. O fato é que é um trabalho super dançante, uma loucura”, contou.

“Letrux em Noite de Climão” já está disponível nas plataformas digitais (Foto: Sillas Henrique)

Além desta ambientação dos anos 1980, destacada por Letícia Novaes, a artista bebeu de múltiplas fontes para produzir seu primeiro trabalho solo. Mais que musical, ela nos contou que suas referências estão em diversas áreas artísticas. “No passado, eu li um livro chamado ‘A Dificuldade de Ser’ que mudou a minha vida. Fora essa obra, que todos deveriam ler, conheci uma banda chamada Alabama Shakes, que tem uma vocalista super empoderada e que me deixou fascinada. No cinema, o filme ‘Incompreendida’ também mexeu muito comigo e, de certa forma, está presente neste disco”, contou Letícia que, além das referências plurais e próprias, também se influenciou em clássicos da música brasileira, como Marina Lima, com quem, inclusive, divide uma faixa no álbum.

E não é só na sonoridade que a múltipla Letícia Novaes deixa sua marca. Em “Letrux em Noite de Climão”, a artista também se traduz nas composições do álbum. Nas 11 faixas, Letícia assina a letra, algumas em parceria ou frutos de poema. “Eu gosto muito de escrever. A literatura sempre foi uma paixão na minha vida e, por isso, já lancei um livro e quero lançar outro em breve. Então, eu tenho uma preocupação imensa com a letra das minhas músicas e busco fazer sempre algo extremamente íntimo. Eu gosto quando alguém ouve e diz que ela mesma poderia ter feito aquela letra, porque fala de sua vida também. Na verdade, eu acho que nem conseguiria fazer diferente e escrever sobre algo que não é real para mim”, disse Letícia que considera a sua escrita um hibrido de poesia e coloquialidade.

Para o desenvolvimento do álbum e o lançamento do trabalho nesta segunda-feira, 10, Letícia Novaes teve a contribuição de dezenas de pessoas em um crowdfunding. Na internet, a artista recebeu doação de admiradores de seu trabalho em troca de shows e do próprio disco. “A internet teve importância absoluta em mais um trabalho da minha carreira. Esta não foi a primeira vez que eu fiz um crowdfunding e, mais uma vez, me surpreendi com o sucesso do projeto. Para artistas independentes, que não têm gravadoras por trás, se não fosse a internet, nada seria possível”, analisou a artista que define o movimento de crowdfunding como um sistema de recompensa. “É algo baseado na troca e no coletivo. Para mim, não é como dizer que é uma vaquinha online porque as pessoas não simplesmente doam para ajudar. Elas recebem com isso também. Eu fiz pocket shows, vou mandar o disco agora, mapa astral. Para mim, é algo maravilhoso”, disse Letícia que, apesar de ser fã desta possibilidade virtual, reconheceu a dificuldade e a necessidade de ser criativa para conquistar mais colaboradores.

No entanto, esta não foi a única ajudinha que Letícia Novaes teve para o lançamento de “Letrux em Noite de Climão”. O primeiro álbum solo da artista está sendo lançado pelo selo Joia Moderna, do renomado DJ Zé Pedro. Como reconheceu Letícia, esta foi mais uma oportunidade que viabilizou o desenvolvimento de seu trabalho. “O selo é essencial para artistas independentes como eu. Se não fosse o Joia Moderna, o meu disco não seria espalhado por todo Brasil. Ela permite a produção física do meu álbum e muita gente adora”, destacou Letícia.

“Letrux em Noite de Climão” também está sendo lançado com o selo Joia Moderna, do DJ Zé Pedro (Foto: Ana Alexandrino)

E assim ela vai trilhando a sua trajetória. Com um pouco de música, literatura e teatro para desenvolver o álbum, tecnologia e interação virtual para bancar os custos e selo para garantir a produção no formato tradicional, Letícia Novaes é um exemplo de artista que traduz, ao pé da letra, o conceito de colcha de retalhos. E tem mais. Ela ainda é super performática e, em seus shows, garante experiências únicas. “Eu acho que essa possa ser uma característica dessa geração que está precisando se multiplicar para conseguir fazer seus projetos. Como está faltando dinheiro, estamos tendo que rebolar, literalmente, para que sigamos na carreira. No meu caso, eu canto, escrevo e atuo, só não danço”, brincou Letícia que garantiu estar correndo atrás deste “prejuízo”.

Aliás, sobre este momento, Letícia Novaes acredita que o panorama atual não está nem mais fácil e nem difícil para a produção cultural. Na verdade, na opinião da artista, a situação hoje é diferente. “Eu comecei a minha carreira já na época da internet e, por isso, não vivi aqueles tempos das grandes gravadoras. Por um lado, eu acho que antigamente poderia ser mais confortável para os artistas produzirem seus discos. Porém, hoje, nós temos mais liberdade para dar voz ao que acreditamos. Com isso, surgem as múltiplas possibilidades que podem ser boas e ruins também”, analisou Letícia que foi além. “Hoje, estamos vivendo uma época muito curiosa na música. As pessoas estão compondo, gravando e divulgando os trabalhos dentro do quarto mesmo. E aí, por isso, temos uma enormidade de conteúdo com exemplos excelentes e outros péssimos”, apontou.

Mesmo nesta imensidão cultural, a artista destacou um ponto que vem na contramão da pluralidade de conteúdo dos dias de hoje. Na mídia, os sucessos se substituem dentro de um mesmo universo, dominado pelo funk, sertanejo e axé, como acredita Letícia. “É uma pena que os veículos de comunicação, como televisão e rádio, não abram espaço para os artistas independentes. Antigamente, até existiam alguns programas legais que poderíamos estar inseridos, como o ‘Faro MPB’, da Fabiane Pereira, na MPB FM e que depois de um hiato está de volta na SulAmerica Paradiso. Mas agora, está tudo muito mais difícil. Apesar de existirem alguns casos, a probabilidade de ter uma música de artista independente em uma novela, por exemplo, é mínima”, lamentou.

Letícia Novaes (Foto: Ana Alexandrino)

Para complicar este panorama, Letícia Novaes ainda destacou a falta de incentivo do poder público brasileiro. Sob a ótica da cultura, de uma forma geral, a artista destacou a dificuldade de se manter vivo no país. “As pessoas não têm muita noção do que é um país sem cultura. Dá vontade de a gente se unir e fazer uma greve geral, sem qualquer expressão artística durante um mês, para todos verem a tristeza que seria. Arte, música e teatro não são hobbies. Isso tudo é importante para a sanidade das pessoas. Se os governantes não tiverem essa sensibilidade, vai ser daí para baixo. Eu lamento muito que o prefeito do município do Rio, o governador do estado e o presidente do Brasil não reconheçam isso. É uma escória. Mas não tem o que fazer. Se a gente parar, vamos enlouquecer. Então, a saída é continuar criando e descobrindo possibilidades para fazer”, desabafou.

Por fim, mais uma temática contemporânea ganha força no discurso artístico e engajado de Letícia Novaes. Feminista desde sempre, ela destacou que os novos tempos chegaram para melhorar sociedade, e não para acabar com a graça da vida, como algumas pessoas apontam. “É muito bom ver o circo pegar fogo porque, depois que queimar, vamos precisar reconstruir. Por isso é importante que haja toda essa reflexão e debate hoje em dia. Porém, tem muita gente que diz que o mundo ficou chato e que não se pode fazer piada com mais nada. Só que eu não concordo. Eu rio muito com os memes da internet, por exemplo. O que não pode mais é fazer piada preconceituosa. Isso é velho, ficou para o passado e a gente não quer mais achar graça”, posicionou-se.

Com esse turbilhão de informação, posição e talento, Letícia Novaes é mais. Muito mais. Presente em diferentes expressões artísticas, como destacamos, ela ainda tem outros projetos para o futuro próximo. Além de se dedicar quase integralmente em propagar “Letrux em Noite de Climão” pelo Brasil, Letícia ainda termina seu segundo livro de poesias e lança o filme “Happy Hour”, com Letícia Sabatella, no qual interpretou uma cerimonialista em casamento.

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