Conhecido como durão, Clint Eastwood volta a declarar seu amor pela música em “Jersey Boys”


Os brutos também tem ouvidos sensíveis! Depois de se reinventar em “Bird”, o diretor volta à música um quarto de século depois e lança filme sobre a trajetória do grupo “Frankie Valli and The Four Seasons”

*Por João Ker

Entre sua trajetória como caubói empoeirado e, depois, a reinvenção de sua carreira enquanto diretor respeitado, Clint Eastwood é conhecido como um amante da boa música. Tanto que, apesar de uma ou outra experiência avulsa nos anos 1970, sua estreia como cineasta de responsa é marcada por um filme de 1988, onde traz à tona a conturbada carreira do mítico saxofonista Charlie Parker em “Bird” (idem, Warner Bros). Agora, no dia 26, chega aos cinemas sua nova realização, na qual o eterno Dirty Harry volta às suas raízes musicais em uma adaptação da peça vencedora do Tony Awards, “Jersey Boys”. A história é baseada na trajetória do grupo Frankie Valli and The Four Seasons, que estourou na década de 1960 com um rock similar à fase inicial dos Beatles, rendendo hits como “Can’t Take My Eyes Off You”,  “Who Loves You” e “Big Girls Don’t Cry”.

Frankie Valli and The Four Seasons – “Big Girls Don’t Cry”

No elenco, Christopher Walken encarna o mafioso Gyp DeCarlo, e outros novatos – como Michael Lomenda, Vincent Piazza e Erich Bergen – fazem parte do elenco. “Jersey Boys: Em Busca da Música” traz o também vencedor do Tony Awards John Lloyd Young, reprisando na telona seu papel de sucesso na Broadway e levando sua voz afinada como Frankie Valli. Este, por sinal, é um dos produtores executivos da adaptação, o que dá um toque extra de veracidade à biografia do grupo de garotos formado em New Jersey, praticamente um embrião daquilo que seria conhecido décadas depois como uma boy band, só que com muito mais talento. Naquela época, a energia pulsante do rock ecoava pelos corredores dos colégios e universidades e, obviamente, a geração baby boom se espelhava no requebro de Elvis Presley e na força dos acordes de guitarras para promover seu grito de guerra em um mundo que já cultuava as peles de pêssego cheias de espinha na cara. Mas, em comparação com o momento atual, grupos como The Beatles e The Four Seasons se constituíam em genuíno furacão, muito diferente dos talentos forjados por marqueteiros – como Backstreet Boys e One Direction –, onde os músicos muitas vezes são arregimentados nas agências de modelos. Nesta era precursora – ávida por ganhar dindim, mas muito mais sincera -, cabia aos empresários as funções de canalizar potencialidades e conduzir carreiras, ao invés de assumirem a atual dianteira de genitores superpoderosos que moldam mitos à sua imagem e semelhança, fazendo a gestão de galinhas dos ovos de ouro e conferindo extratos bancários.

John Lloyd Young cantando “Can’t Take My Eyes Off You”

Apesar de, volta e meia, abordar o universo musical em sua cinematografia, a nova produção de Clint Eastwood talvez seja uma forma de se redimir no meio musical, honrando os verdadeiros ícones daquela época. Afinal, apesar de ter composto várias trilhas sonoras para filmes seus e de outros diretores, Clint nunca conseguiu muito sucesso nessa seara, mesmo tendo gravado ele mesmo um disco na década de 1960.  Seu enorme talento parece se concentrar na extrema capacidade de contar histórias sobre superação (“Menina de Ouro”, 2004), mazelas sobre a inevitabilidade da passagem do tempo (“Os Imperdoáveis”, 1992 e “Cowboys do Espaço”, 2000) e dramas (“Sobre Meninos e Lobos”, 2003) mesmo com seu amor pela música pontuando as trilhas sonoras de seus longas.

Seu primeiro single, “Unkown Girl”, lançado em 1961, serviu como um trampolim para tirá-lo da TV – onde ficou sete anos no ar com a série Rawhide -, ganhando notoriedade entre as adolescentes e, assim, conseguir credibilidade entre produtores de cinema. A música fracassou, assim como os dois singles que se seguiram a ela, assim como o LP chamado Rawhide’s Clint Eastwood Sings Cowboy Favorites. Fosse pela falta de identificação do diretor com as músicas ou pelo simples fato de elas serem iguais a todas as outras que tocavam na rádio à época – algo como um single produzido por Dr. Luke hoje em dia – , ele só voltaria a cantar oito anos depois, no western “Os Cavaleiros do Ouro” (Paint Your Wagon”, de Joshua Logan, 1969).

Clint Eastwood – “Gold Fever” (do filme “Os Cavaleiros do Ouro”)

Mas o filme foi um fracasso de bilheteria tão grande quanto o álbum de Clint Eastwood. Ainda assim, o então ator não desistiu e voltou a soltar o gogó 13 anos depois, em Honkytonk Man” (1982), ainda que tivesse lançado alguns singles country aleatórios antes disso, como “Burning Bridges”, que foi parte da trilha sonora de “Os Guerreiros Pilantras” (“Kelly’s Heroes”, Brian G. Hutton, 1970). Mesmo assim, ele fincou seus pés nas trilhas sonoras e chegou a fazer duetos para muitos dos filmes que estrelava e/ou dirigia, incluindo a divertida “Beers To You”, com Ray Charles, para “Punhos de Aço – Um Lutador de Rua” (“Any Which Way You Can”, Buddy Van Horn, 1980)

Clint Eastwood e Ray Charles – Beers To You

Aos poucos, Eastwood foi se estabelecendo como diretor de prestígio e acabou largando tanto o gênero que o consagrou no cinema quanto o microfone, mesmo passando a compor músicas para alguns de seus filmes, como “Os Imperdoáveis” (“Unforgiven”, 1992) e “Poder Absoluto” (“Absolute Power”, 1997). A última vez que cantou para alguma trilha sonora foi ao lado do pianista Jamie Cullum para a música Gran Torinoem 2008, trilha para o filme homônimo que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro por ‘Melhor Canção Original’. Suas influências do country são inegáveis, mas é sabido que a mão do diretor hoje pende para o jazz, um reflexo cujos traços mais tarde apareceram em seu próprio filho, Kyle Eastwood, a ponto de ele mesmo se tornar um cantor do gênero.

Clint Eastwood e Jamie Cullum – “Gran Torino” 

Agora, em “Jersey Boys”, o diretor demonstra ter sossegado um pouco,  preferindo não se envolver oficialmente com a trilha sonora, mas deixando o espaço para Bob Gaudio (música), antigo membro do Four Seasons, e Bob Crewe (letra), que está por trás de grandes sucessos do grupo e já chegou a trabalhar com The Supremes, além de ser um dos autores do clássico “Lady Marmalade” Pode ser que Clint Eastwood tenha desistido de cantar, mas certamente ele nunca abrirá mão da música, seja na condução da trilhas de seus filmes, na escolha dos talentos que farão parte de sua equipe  ou na temática de seus filmes.

Trailer oficial de “Jersey Boys”