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Após lançamento de novo clipe, Flávio Renegado prepara show no Rio e fala sobre militância negra: “Sempre tivemos nosso espaço. Só precisamos ser ouvidos.”

O rapper falou sobre o papel da arte e dos artistas nas questões sociais e o que pode ser esperado no show dessa quarta-feira no Teatro Rival

Publicado em 8 de março de 2017 | Por Rodrigo Cohen

Flávio Renegado começou março chutando as portas e mostrando todo o seu potencial artístico. Depois de lançar o clipe de “Luxo Só” na semana passada, ele se apresenta no Teatro Rival, Rio de Janeiro, com o show “Afrotrap Ofá” no dia 8 de março de 2017. O show vai ser uma homenagem às mulheres e terá participações especiais de figuras como Lellêzinha do Dream Team do Passinho, Larissa Luz e DJs da Batekoo – festa que exalta ritmos da cultura afro. Todos esses elementos seguem para contribuir na divulgação do álbum “Outono Selvagem”, lançado em 2016.

“O ‘Outono Selvagem’ é sobre pecados e virtudes. É muito doido a gente falar de pecado e de virtude hoje em dia. A gente sempre fica analisando o outro e nunca se questiona. Esse é um disco de autoconhecimento, é um disco para olhar para dentro. Não necessariamente o que as pessoas estão tratando como pecado é um pecado. Eu tentei sair desse lugar comum. O que é pecado? A humildade realmente é uma virtude? A luxúria e a preguiça são realmente pecados? Eu fiquei me questionando isso”, explicou Renegado sobre o processo de criação do disco.

O rapper começou a se envolver com a música aos 13 anos e contou um pouco dos motivos que o trouxeram até aqui: “Foi uma paixão. No meu primeiro contato com o rap, o cara falava as coisas, eu identificava com a minha vida. Fiquei apaixonado e pensei ‘Eu quero fazer isso’. A partir disso, o rap me permitiu acessar lugares de fala muito legais também. Eu entendi o que era ser negro, o que era morar na comunidade e o porquê de eu estar morando na comunidade, o processo histórico que me levou a morar lá. O rap foi a minha escola que a escola não permite ter”.

“Luxo Só” é sobre luxúria, corpo e a libertação dele, mas também é sobre o movimento negro e a conquista de espaço. Renegado acredita que não existe um caminho certo e que a arte é um dos grandes agentes transformadores do mundo. “O que me motivou foi a liberdade e o direito à liberdade. Eu estou discutindo isso sem a dose de moralidade. É um outro olhar sobre militância e movimento negro. Sempre falta espaço a ser conquistado. A gente tem muita luta sendo travada para gente poder avançar. Esse é o início de um novo momento. Não existe só mais uma forma de fazer, existem várias. O papel da arte é a reflexão. O meu trabalho sempre foi provocativo quanto a isso: causar novas reflexões”, contou o rapper.

Quando o assunto é apropriação cultural – um dos temas mais comentados dos últimos tempos – a posição de Flávio é clara. “Acho que o turbante vem da cultura afro, mas já extrapolou. A cultura afro já tomou conta de várias partes do mundo. Isso para mim já passou. A discussão agora é outra: é empoderamento, outras formas de militância. Não é o turbante que vai definir. O que define é o comportamento, é a escola, é a moradia, é emprego, é falar, é respeito. O turbante é uma forma de afirmação pessoal de cada um”, desabafou.

“A juventude negra e periférica já assumiu o seu lugar. O funk e o rap estão no Brasil há 30 anos. Sempre tivemos o nosso espaço. Só precisamos ser ouvidos. A gente está ai falando há muito tempo, só precisamos ter o crédito para sermos ouvidos. Essa parada de ‘Agora vamos tomar nosso lugar’? A gente está no nosso lugar desde sempre. Só não são dadas as ferramentas iguais para todo mundo. A gente está lutando para ter as mesmas ferramentas. A arte foi a forma que eu encontrei de falar e me posicionar”, completou Flávio.

Imagens do clipe “Luxo Só”

O cantor também comentou sobre um episódio onde percebeu sentido em toda a sua trajetória artística. “Sempre fui muito militante e vinha comigo uma coisa de ‘estou falando pelo meu povo’ ou ‘estou defendendo o meu povo’. Um dia eu fiz um programa de TV, depois que o programa foi um ar, eu estava no ponto de ônibus e uma senhora de 60,70 anos me parou e perguntou se era eu no programa, eu confirmei e ela disse: ‘Continua em frente’. Eu olhei para aquela situação e entendi que não sou que me denomino representante de ninguém. As pessoas se identificam com você e você se torna representante delas. Se uma pessoa me vir como representante dela, ela se identificou com a minha luta e comigo”, sentenciou.

“Às vezes a gente fica muito dono de tudo, dona da verdade. O que é verdade para mim, às vezes não é verdade para o outro. Então, a gente não pode ter essa arrogância de querer falar o que eu sou. Eu estou. Hoje eu estou cumprindo esse papel, amanhã posso não estar mais. É muito importante a gente entende esse papel e o que é ser e o que é estar”, completou o rapper sobre o papel de ícones e artistas na militância.

Imagens do clipe “Luxo Só”

Animado com o show de logo mais, Flavio comentou sobre o que pode ser esperado nessa única apresentação na cidade. “É um show com uma nova proposta de sonoridade. A gente está fazendo uma pesquisa dos ritmos que dialogam nos guetos do mundo. Tem coisas muito legais no decorrer do show. Quem for, vá preparado para isso, para se abrir pro novo, para novas reflexões” encerrou o cantor deixando o convite para todos se juntarem a ele nessa quarta-feira, às 20h, no Teatro Rival. A gente vai!

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