Moda & Beleza

Tereza Xavier fala sobre a bem-sucedida união entre moda e causas sociais que propõe: “A partir do momento que isso vem da consciência, gera transformação”

Comemorando os 21 anos de sua loja no complexo do Copacabana Palace, a designer adiantou que trará peças clássicas em novas versões e arrisca o segredo de tantos anos no mercado e diversos prêmios: “Quando eu comecei não se usava sementes, palhas, algodão, lycra ou seda em joias e nós entramos com esse conceito que surgiu a partir de vivência. É assim até hoje. Quando uso sementes é porque eu estava conectada ao universo indígena. Ela tem fundamento. Não é comercial apenas, parte de um significado muito profundo. Nada é oportuno, tudo é real”

Publicado em 20 de Abril de 2016 | Por Karina Kuperman

No dia 19 de abril se comemora o Dia do Índio e não haveria data melhor para falar dela: Tereza Xavier. Há 21 anos, quando não se tinha o conhecimento em unir a moda com materiais oriundos da natureza, a visionária designer abria sua loja bem ali: no epicentro do bairro de Copacabana, mais precisamente no complexo do hotel Copacabana Palace. Pioneira ao utilizar elementos da floresta para criar joias, não à toa que ela acumula diversos prêmios desde 1997, quando ganhou seu primeiro De Beers, considerado o Oscar da joalheria. Manter uma loja em um ponto privilegiado há mais de duas décadas é motivo de pura celebração. E Tereza sabe disso. “Como a loja faz 21 anos em novembro, ao longo do ano iniciado um trabalho de trazer de volta peças clássicas em várias versões. Em 1997, eu ganhei o primeiro De Beers com palha indígena outros prêmios com uma coleção em homenagem ao antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Estou celebrando fazendo várias versões das peças premiadas. Ao longo dos 18 anos, desde que eu ganhei o De Beers, eu criei outras opções com pedras preciosas e, agora, vem uma inédita toda de pérolas”, adiantou.

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(Foto: Reprodução/Facebook)

Leia também: Alquimia! Tereza Xavier comemora 20 anos de carreira criando joias que unem física quântica, geometria sagrada e handmade: “Não tenho medo de ousar”

Os prêmios todos têm explicação, além do talento óbvio da designer: é que Tereza coloca um pouco de sua alma em cada peça que cria. Antes mesmo de entrar para o mundo das joias, ela sempre visitou tribos indígenas, então suas coleções são genuínas, e não apenas comerciais. “Desde pequena, eu sempre fui ligada aos povos indígenas e sua cultura, sempre me interessei. Eu visitava as tribos indígenas na Amazônia, aliás… sou fascinada pela Amazônia. Já tinha o hábito da imersão e quando comecei a fazer joias eu já usava as palhas como os índios usam. Fui observando que ela ficava linda e decidi trazer para a joalheria. Quando eu abri a loja, eu já trouxe esse conceito das palhas indígenas como joia. Foi um reflexo da minha vivência. Eu sempre estive entre os índios, sempre apreciei a cultura deles. Estudei a sabedoria ancestral com pajés não só no Brasil, mas no mundo. Os povos indígenas têm muito a ensinar porque sempre viveram em harmonia com a natureza. Isso hoje é necessário e fundamental. Eles são os primeiros ecologistas e instrutores”, disse ela, que, volta e meia, faz imersões em tribos, como contamos aqui.

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Tereza Xavier em uma de suas imersões em comunidades indígenas (Foto: Reprodução/Facebook)

Com tanta paixão, não teria como ser diferente: coleções de sucesso e visibilidade internacional elogiadas por nomes como o da princesa Soraya Esfandiary-Bakhtiari (1932-2001), da Pérsia, e Andre Leon Talley, editor da Vogue americana. “Toda vez que uma peça ganha o prêmio De Beers, ela se torna tendência internacional. Continuamos com tudo nosso, porque não é moda. É filosofia. Eu trabalho flores e folhas com ouro e pedra. Sempre tenho um pedacinho da natureza que propõe um novo tipo de relação para o consumidor”, afirmou. Então a moda pode ser consciente, Tereza? “Sim, com certeza. Não só a moda, a arte como um todo. Mas não a meramente comercial, sim a que traz significado. Por exemplo, eu criei uma pulseira de sementes que traduz a minha postura. A partir do momento que você propõe algo e isso vem da consciência, é forte demais e gera transformação. Você apresenta um novo olhar, em que considera não só o pessoal, a visibilidade e o lucro. Eu vejo o global, o quanto gero de possibilidades benéficas para outras pessoas e para o país. Isso a gente só pode propôr se tem dentro do coração. Por isso, eu encontrei tantos tesouros na natureza. Procurei com amor”, declarou.

E haja tesouro. Em uma temporada com os índios Waimiri Atroari, em Roraima, Tereza decidiu juntar o talismã que eles usam como forma de proteção com… joias. E deu bossa. A pulseira Talismã fez tanto sucesso que tornou-se a primeira peça brasileira a ser cotada para fazer parte do acervo da De Beers. “Essa pulseira é utilizada por uma única tribo no mundo. Os índios a usam como talismã e para o meu trabalho também funcionou assim. Ela me trouxe muito reconhecimento”, disse. E o talismã não vale só para ela: “Recentemente um cliente meu antigo, que é maestro francês e mora nos Estados Unidos, veio buscar a joia Talismã para reger o conceito com ela no braço. Fiquei emocionada, porque ele é especialíssimo. Esse tipo de atitude é um presente”, comemorou.

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Trazer a simplicidade da natureza para um mercado de luxo é ousado, mas Tereza acredita veementemente na causa. “O glamour está em conseguir beleza a partir do simples. Esse é também o grande desafio. É uma elaboração que, no caso, consigo que ela flua não-elaborada. Tudo que eu trouxe para a joalheria em relação a materiais novos é genuíno. Há 21 anos não se usava sementes, palhas, algodão, lycra, seda, podia usar como fiozinho para prender, mas no corpo da peça não existia. Entramos com esse conceito de joias. Isso surgiu a partir de vivência e é assim até hoje. Quando uso sementes é porque eu estava conectada ao universo indígena. Ela tem fundamento. Não é comercial apenas, parte de um significado muito profundo e real. Nada é oportuno, tudo é real”, garantiu.

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Por isso, suas peças “são o que são”. Ou, como ela mesma gosta de dizer, “it is what it is”. “Porque é real, não uma construção. Foi um grande executivo de marketing que é meu cliente que definiu e eu coloquei até a tag ‘it is what it is’ na loja. Porque é como é. Não queremos passar nada além de beleza, mas essa beleza vem de fundamentos, é coerente. Nossa semente não é simplesmente um adereço, ela é um novo padrão de consciência, que respeita a natureza e o outro. Tem significado e é isso que eu procuro passar sempre, ou, pelo menos, sugerir para as pessoas. É um convite que faço de aproximação com a natureza”, explicou. E quanta gente aceita! “Fico feliz, porque tenho um amor imenso pela natureza e saber que se derrubam menor árvores, porque as pessoas estão usando sementes, é gratificante. Eu fui bandeirante, encontrei a beleza das sementes e trouxe para a moda”, disse. De fato: quando Tereza lançou sua coleção feita de sementes no desfile de Lino Villaventura, no Morumbi Fashion, a matéria-prima se popularizou de Norte à Sul do país. “A autoria é sólida. Quem observa nosso trabalho vê a coerência em tudo que fazemos. Nada veio do nada. Tipo ‘ah, agora palha é tendência, então vou usar’, sabe? Comigo nunca foi assim, estou há 21 anos aperfeiçoando o que acredito”, afirmou.

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E Tereza é repleta de crenças. Além da afinidade clara com povos indígenas e do compromisso em divulgar etnias, é apaixonada pelos animais. “Em 1996, logo no ano seguinte que abrimos a loja, decidimos fazer um desfile de joias para alertar as pessoas sobre a importância da causa animal e da preservação. Naquele momento, eu escolhi o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, porque há 20 anos eles já precisavam muito de ajuda. Convidei empresas a adotarem animais para auxiliar na alimentação. Eles comem muito. Eu adotei o urso pardo Bingo e consegui empresas que também fizeram isso. É ação da gotinha, cada um fazendo um pouco”, disse ela, que criou, na época, peças inspiradas em diversos animais que iam desde o tamanduá a serpente. Em 2003, foram as folhas de eucalipto que serviram de inspiração para a coleção “O segredo das folhas das árvores”. Além disso, Tereza também trabalha com comunidades de mulheres. “Eu desenho uma peça e busco uma comunidade feminina que execute esse desenho. Isso gera emprego e valoriza o artesão brasileiro”, contou. “Brinco que somos um dream team”, riu. E como!

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Mais de vinte anos de carreira consolidada com clientes que se tornaram amigos é para poucos. Mas Tereza Xavier sempre superou as crises. “E eu arrisco dizer que esse é o pior momento que o Brasil já viveu, pelo menos é a impressão que eu tenho. Mas eu acredito que a vida é movimento, precisamos entender o espírito de cada tempo, sem perder a essência do início. Tenho uma filosofia de marca muito clara: sempre apostamos na singularidade e temos a nossa história. Eu nunca olhei para outras marcas, nunca fui buscar tendências, porque nunca as segui. Sempre lancei as minhas”, garantiu ela que, para esse ano, prepara muitas peças marcantes: “Os clássicos continuam e surgem também com novas propostas a partir desse mês. Paralelo a isso, tem a coleção vitrais, com pingentes multicoloridos em que se vê através. Eu amo vitrais, a transparência, o ver através da forma e da cor, acho lindo. Trouxe algumas peças super exclusivas e numeradas com vitrais que mostram uma geometria sagrada poderosa e também Nossa Senhora em vitrais, mas, além delas, tem as peças mais simples, pulseiras, anéis e etc”, adiantou. Quem duvida que entrará para o hall dos tantos sucessos?

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