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#SaiaDaCaixa de Helen Pomposelli apresenta o matemático franco-brasileiro Artur Avila ganhador da Medalha Fields em 2014, o “Nobel da Matemática”

“Ser matemático não quer dizer que você não pensa tudo como um matemático. Conviver com todas as mudanças que estão acontecendo com o mundo faz parte, mas na nossa profissão não houve tanta mudança radical como a carência do jornalismo impresso”, disse Artur

Publicado em 6 de dezembro de 2017 | Por Julia Pimentel

*Por Helen Pomposelli

Artur Avila é matemático, carioca e tem 38 anos (Foto: Miguel Moraes)

O Saia da Caixa de hoje chega no meio de números, probabilidades e equações sobre a vida… eu conversei com o matemático franco-brasileiro Artur Avila, carioca de 38 anos, que iniciou seus estudos no Rio de Janeiro antes de tornar-se integrante do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), maior órgão público de pesquisa científica da França e uma das mais importantes instituições de pesquisa do mundo. Depois da graduação, e, com apenas 21 anos, Artur concluiu seu doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e em 2001, mais próximo da França, ingressou no pós-doutorado do Collège de France de Paris. Mais tarde, foi aprovado no concurso do CNRS, sendo posteriormente promovido a diretor de pesquisas da instituição. O reconhecimento mundial veio em 2014 ao ganhar a Medalha Fields – maior prêmio concedido a pesquisadores no campo da matemática, frequentemente comparado ao Nobel – por sua dedicação ao estudo dos sistemas dinâmicos, área que investiga a evolução de fenômenos variados no tempo.

Mais “Fora da Caixa” não há… Artur acaba de ser homenageado pela Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB-RJ) na 17ª edição do Prêmio Personalidade. A premiação simboliza a cooperação científica internacional e ressalta a pesquisa fundamental como um importante instrumento fomentador da criatividade. “Meu trabalho é bastante flexível. Na verdade, o lugar físico é o menos importante, pois a minha rotina se baseia muito nas ligações internacionais com pessoas de diversos países, porém, sem se encontrar pessoalmente. A outra parte eu encontro com os profissionais e matemáticos em estabelecimentos comerciais, tomando café ou vinho”, conta Artur, que tem o hábito de ir à academia e trabalhar deitado na cama.

Entre as premiações e reconhecimentos sobre seu trabalho, Artur possui uma Medalha Fields (Foto: Miguel Moraes)

Atualmente, o matemático divide-se entre Paris e Rio de Janeiro, cidades a partir das quais colabora com grupos de pesquisa de vários países. Seus estudos e atuação conjunta no Centre National de la Recherche Scientifique e no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada abrem novos caminhos nas ciências matemáticas.

Desde garoto até o inicio da carreira, o matemático percebe o quanto a matemática está em freqüente mudança. “Quando você é garoto não tem uma formação necessária para absorver o que é verdadeira matemática. Você acha que envolve somente números, mas aos poucos vai descobrindo que existe e exige muita criatividade! Já escutei pessoas dizendo que são criativas e, por isso, não se dão com a matemática… isso está errado. Quando eu era garoto ficava no papel tentando elaborar um raciocínio, hoje em dia não uso papéis e nem lousa, a maioria das coisas ficam na cabeça.  Eu imagino, descrevo e depois vou para o computador, ou seja, a reflexão fica na minha cabeça e não está na mesa do escritório. Uma reflexão mais lenta, precisa ser mais profunda“, explica Artur as suas formas de criar.

Artur quando pequeno pensava em ser cientista e queria trabalhar de jaleco branco fazendo misturas de líquidos coloridos. Mas foi por volta de seus 15 anos que tudo ficou mais claro. “Eu queria ser um matemático, quando que era pequeno adorava comprar livros de astronomia e fazia coleção de fascículos que falavam de estrelas e planetas que se encontrava na banca de jornal”, lembra. “Ser matemático não quer dizer que você não pensa tudo como um matemático. Conviver com todas as mudanças que estão acontecendo com o mundo faz parte, mas na nossa profissão não houve tanta mudança radical como a carência do jornalismo impresso”, completa.

Na infância, ele contou que sonhava em ser cientista (Foto: Miguel Moraes)

E sobre a educação? A forma do ensino da matemática atualmente? “Existem no Brasil diversos tipos de escola e formas de educar. O conteúdo da matemática poderia ser ensinado de maneira mais atraente, ou seja, não levar os alunos a fazerem contas e equações de forma mecânica. Isso é bastante desmotivador. Hoje em dia não precisa mais de uma pessoa para fazer isso. Os alunos passam a imaginar que a matemática não tem criatividade e não tem espaço para criar”, analisa.

Sua dica para quem quer começar a pensar fora da caixa? “A dedicação na faculdade, fazer poucas matérias e focar no que quer. Absorver bem, o estudo mais focado e internalizado. A idéia é buscar ter o foco no seu objetivo e seguir um caminho que faça sentido para esse foco. Existem coisas que podem te tirar dele e às vezes, você tem que ir contra e preparar o seu caminho com variações sobre a regra do jogo. Partindo sem rumo fica mais difícil”, diz.

Adorei, Artur! Bacana, né?

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