Gente & Comportamento

Roberto Birindelli fala sobre as dificuldades do trabalho como ator na televisão: “No teatro, a coerência é do ator. No cinema, do diretor. Já na TV é a do patrocinador.”

O ator uruguaio falou sobre os muitos trabalhos que está preparando para lançar esse ano como um filme sobre a Operação Lava Jato e outro sobre a vida do traficante Escadinha.

Publicado em 18 de abril de 2017 | Por Rodrigo Cohen

Era uma vez um garotinho uruguaio que não conseguia ver os outros tristes. Certa vez, durante o inverno de Montevidéu, ele passava com a sua mãe por uma praça e viu um senhor chorando copiosamente. O menino parou a sua mãe e falou que só sairia dali quando o homem parasse de chorar e desse uma risada. A mãe insistia para que os dois seguissem o caminho de casa, mas ele começou a fazer palhaçadas e tentar entreter o idoso. Depois de muito mico e persistência, uma risada foi ouvida e o menino pode enfim seguir seu rumo. O menino é o ator Roberto Birindelli, que está atualmente em cartaz no filme “Dolores”.

Roberto Birindelli e Emilia Attias em Dolores.

“Tudo o que eu faço é para tocar as pessoas, é para fazer o velhinho rir”, contou o uruguaio depois de relembrar a história. A escolha para ser ator tomou a vida dele de forma inesperada, mas se alinhava diretamente com os seus objetivos pessoais. Para Roberto – arquiteto de formação – atuar é algo dominante na vida daqueles que vivem essa experiência “Quando eu virei ator, eu não sabia disso. É uma daquelas profissões que você não tem condição de dizer de 8h às 10h da manhã e depois das 18h às 20h. É uma decisão de vida e toda decisão de vida é muitas vezes inconscientes, vem por caminhos tortuosos. O que fazia os meus olhos brilharem era ver alguém que com a sua dor, com a sua raiva, com a sua felicidade e mesmo assim presente.”

No Brasil desde jovem, Birindelli não veio ao país com uma condição financeira favorável e trabalhou desde os 15 anos para garantir o seu sustento. Estudou e formou-se em arquitetura, profissão que exerceu em paralelo com a atuação até pouco tempo atrás. Ele costumava viajar conciliando reuniões corporativas e apresentações de peças em um só dia. Mesmo em situações contrárias, nunca desistiu de ser ator e hoje consegue dedicar 100% do seu tempo para o seu grande amor de infância. Hoje, um dos seus trabalhos é na série televisiva da Fox “1 Contra Todos” e já participou de novelas como “Império” e “Além do Tempo”.

O trabalho de Roberto que está mais em destaque nas últimas semanas é a coprodução Brasil-Argentina do filme “Dolores” – um triângulo amoroso vivido no momento após a Segunda Guerra Mundial no interior da Argentina. “É sobre uma mulher que quebrou todos os tabus para a época. Ela consegue em plena guerra se relacionar com um descendente de alemão e um descendente de inglês. Outro ponto interessante é que nenhum dos três envolvidos consegue o que quer, mas os três aceitam que algo do destino pode ter lhes escapado da mão e que eles não precisam ter o controle de tudo. Isso filosoficamente é muito interessante”, explicou. Octavio, personagem de Birindelli, é um homem dicotômico: entre ser um durão do campo e um refinado descendente de família rica alemã, ele se apaixona por Dolores, que por sua vez ama o viúvo de sua própria irmã.

Além desse grande trabalho, não vai ser fácil escapar do rosto de Birindelli nesse ano. O ator está com mais três estreias em vista no cinema e duas na televisão “Eu nunca trabalhei tanto quanto nesses últimos dois anos. Esse ano eu estreei “Crime da Gávea” e “Dolores”, mas ainda vem “O Olho e a Faca” com o Rodrigo Lombardi, filmamos em uma plataforma de petróleo embarcados e foi uma experiência incrível. Deve estrear “Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos” com Edson Celulari e a Soledad Villamil. “Ele faz um cego de nascença e eu sou o cirurgião que desenvolve a técnica que vai dar a visão de volta. Só que quando ele enxerga as coisas não eram como ele imaginava e ele quer que retire de novo. E o médico entra em crise e é de novo aquela questão de até quando podemos decidir o nosso destino”, lembrou. Ah, ainda tem, em julho, “Polícia Federal” sobre a Lava-Jato.” São 5 longas em 2017. Ao mesmo tempo, temos a segunda temporada de “1 Contra Todos” na Fox e a estreia na HBO de “A Vida Secreta dos Casais” da Bruna Lombardi. E a terceira temporada de Conselho Tutelar na Record”, completou.

Mesmo com a aproximação da técnica entre cinema e televisão, Birindelli falou um pouco sobre a diferença do preparo do ator para encanar cada personagem devido aos diferentes desenvolvimentos de textos. “Tudo depende da coerência. No teatro, a coerência é do ator. No cinema, do diretor. Já na TV é a do patrocinador. Se isso dá audiência, a dramaturgia vai para aquele lado porque tem que dar IBOPE e o ator está submetido a isso. Uma novela dá o total de 90 longas quase. É possível fazer 90 longas com qualidade em um ano? Não. Então, não tem como comparar a qualidade de um com a qualidade de outro. O texto de ‘Império’ teve 7.200 páginas. Como escreve isso achando que vai ser o Woody Allen? Acho que o Aguinaldo Silva fez milagre mantendo uma trama surpreendente até o final. Tem que saber fazer isso”, disparou o ator.

Foto: Sergio Santoian

Começando os preparativos para filmar o longa sobre a vida do traficante escadinha, Roberto Birindelli provou que conquistou o seu espaço no meio audiovisual. Só que parece que trabalho nunca é demais para ele. Tendo rodado o mundo durante 21 anos com a mesma peça – “Il Primo Mirácolo” de Dario Fo – ele confessa o desejo de voltar aos palcos e trabalhar com algo relacionado a sua formação “Existem muitas coisas que eu ainda quero fazer. Quero voltar ao teatro. Estou há três anos longe do teatro e tenho vontade de voltar para lá. Minha formação começou com Teatro Físico e tenho muita vontade de fazer algum projeto com as máscaras da Comeddia Dell’Arte”, declarou o uruguaio. Afinal de contas, sempre existem velhinhos para se fazer rir – seja pela televisão, nos cinema ou no teatro.

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