Em papo inspirador, Tereza Xavier conta como foi sua imersão cultural na cidade de Palmas durante o I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas


A designer de joias conta para HT como o contato com os povos influenciou sua criatividade, relata a emoção de assistir ao marco histórico que foi o evento e ainda fala sobre as próximas parcerias e coleções de sua marca homônima

Como você havia lido aqui, a designer de joias Tereza Xavier embarcou recentemente em uma viagem para Palmas, no Tocantins, onde foi assistir ao I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, evento que mesclou esporte e cultura em uma iniciativa pioneira, entre os dias 24 e 31 de outubro, e que serviu como um desenvolvimento dos Jogos Nacionais, realizados desde 1996. Apreciadora da cultura indígena e intimamente ligada às tribos brasileiras desde a infância, Tereza dividiu com HT como foi a experiência de testemunhar o marco histórico e ainda explicou todo o sentimento de ver as raízes brasileiras ressaltadas em um evento de porte mundial.

Assim como contamos aqui, a relação entre Tereza Xavier e os índios, especialmente os da tribo Waimiri Atroari, de Roraima, vem de longa data. Em um intercâmbio de inspirações, aprendizados e vivências, a designer conseguiu incorporar materiais como sementes e palhas indígenas em suas peças desde a criação há 20 anos de sua marca homônima. Com isso, além de desenvolver peças únicas e calcadas na mais antiga das raízes brasileiras, Tereza também conseguiu levar a nossa cultura para o mundo, já que alcançou visibilidade global ao ganhar o Designer Forum do grupo De Beers, considerado como o Oscar da joalheria, exatamente pela coleção inspirada nos índios.

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“A palha indígena foi incorporada ao meu trabalho de designer desde o início, e unindo esse material tão exclusivo e precioso a diamantes, recebi o De Beers Diamonds International Awards, o Oscar das Joias. No mesmo ano, ganhei mais um prêmio da De Beers, com a Coleção Darcy Ribeiro, que retratava o universo indígena utilizando outros tipos de palha e diamantes multicoloridos. Quatro anos depois, recebi um prêmio da Anglogold com mais uma peça, o colar Amazônia – O Mito do Eldorado”, que está no acervo do Museu do Ouro, na África do Sul”, lembra a designer, que ainda explica como é forte a influência dessa cultura em seu trabalho: “O contato com os povos indígenas potencializou ainda mais a total liberdade que sinto para criar e para pesquisar os materiais da floresta, e as imensas possibilidades que as pedras preciosas e os diamantes permitem”.

Em Palmas, Tereza ainda teve a chance de reencontrar seu amigo, Marcos Terena, presidente do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena (ITC), e um dos principais articuladores do evento. “Os Jogos atenderam totalmente as nossas expectativas. Nós deixamos um grande legado patrimonial, cultural e esportivo para a cidade, além da geração de empregos e os recursos econômicos trazidos pelos estrangeiros durante os nove dias de evento”, declarou Marcos em comunicado oficial.

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Os números falam por si só: entre 24 e 31 de outubro, Palmas recebeu mais de 104 mil visitantes para os Jogos. Isso sem falar nos 1.129 indígenas brasileiros, de 24 etnias nacionais, que disputaram com outros 566 de países como Argentina, Canadá (que receberá, em 2017, a próxima edição do evento), Estados Unidos, Etiópia, Filipinas, Finlândia, Guatemala, Guiana Francesa, Mongólia, Nova Zelândia, Paquistão, Rússia etc. A visibilidade do torneio foi tanta, que mais de 300 jornalistas, de 21 países, fizeram a cobertura do I JMPI.

Entre a presença de Dilma Rousseff na cerimônia de abertura e da construção de uma Oca Digital, que deu a oportunidade de os índios terem um maior contato com as novas tecnologias, o I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas se provou um verdadeiro sucesso, com modalidades como futebol (masculino e feminino), arremesso de lança, arco e flecha, corrida com tora e cabo de força, dentre outras. Abaixo, você vê um vídeo sobre o JMPI e confere uma conversa inspiradora com Tereza Xavier sobre o seu mais recente período de imersão cultural:

HT: Conte um pouquinho como e quando começou a sua relação com as tribos indígenas e como ela foi se desenvolvendo com o tempo.

TX: Desde pequena, adorava os índios brasileiros e os de outros países. Achava tudo lindo: enfeites, trajes, simplicidade, refinamento natural, espiritualidade e vida, em harmonia com a natureza. Assim que consegui, comecei a visitar algumas aldeias com a orientação do meu grande amigo, o indigenista José Américo Peret. Com o tempo, fui construindo lindas amizades como frutos da empatia e da ressonância com eles, ligações que fui fortalecendo com incríveis parcerias. É uma honra a possibilidade de me inspirar na arte e na cultura indígena, e é algo que faço com apreciação e gratidão. Não poderia me sentir mais feliz por ter levado a arte indígena brasileira para os lugares mais inesperados, como o Carrousel du Louvre, o Opéra Comique (ambos em Paris), o Museu do Ouro, na África do Sul, e para outras exposições, nas mais importantes cidades do mundo, onde foram exibidas como preciosas obras de arte em meio a joias lindas e valiosíssimas.

A cada dia fortaleço minhas parcerias e vou construindo novas. Tenho a certeza de que as joias com essa inspiração auxiliam, de alguma maneira, a sobrevivência deles. Seja a partir da venda das peças artesanais, que por si só já são verdadeiras joias, ou das sementes, das palhas e de muitos outros elementos que venho trazendo para comemorar os 21 anos da joalheria. Utilizo esses materiais misturando-os a metais valiosos, como diamantes e pedras preciosas, transformando-os em objetos de desejo que puxam tendências internacionais, em alguns casos. Dessa forma, a visibilidade de cada uma das tribos se expande em suas possibilidades de venda das peças artesanais.

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HT: Como esse contato influenciou na sua verve criativa, além do uso da palha?

TX: Meu coração e minha visão são indígenas, no entendimento da interdependência e de que tudo e todos são um corpo só. Tenho também um nome indígena: Iatamalu (mulher pajé), dado por um Pajé do Xingu. Consigo perceber, assim como eles, a extraordinária beleza nos elementos mais simples encontrados na natureza, sem me preocupar com o valor intrínseco deles. Eu acredito que a contemplação e a conexão com a natureza refinam os sentidos, e auxiliam fortemente a nossa compreensão das leis naturais. Os perfumes, o voo e o canto dos pássaros, o som dos rios, das cachoeiras e das florestas, o nascer e o pôr-do-sol, e as fases da lua são pura magia da natureza e nos lançam a oitavas superiores de percepção. A observação dos animais, de seus movimentos e de suas funções, das diferentes árvores, de toda a floresta, que oferece nutrição e medicina, revelam tons e ritmos precisos.

A real conexão com a natureza promove a conexão da pessoa consigo mesma e fortalece sua proximidade com Deus. A sabedoria ancestral dos povos indígenas é um tesouro, fundamental nesse tempo atual, no qual é vital preservarmos o meio ambiente para a sobrevivência da humanidade.

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Há mais de 25 anos, uso o talismã de palha indígena dos Waimiri Atroari, de Roraima, exatamente como eles o utilizam. Mas criei também uma versão dessa peça para as aldeias do lado de cá, e coloquei diferentes tipos de fecho para que as pessoas pudessem por e tirar a pulseira quando quisessem. A palha indígena foi incorporada ao meu trabalho de designer desde o início. E, unindo esse material tão exclusivo e precioso a diamantes, recebi o De Beers Diamonds International Awards, o Oscar das Joias. No mesmo ano, ganhei mais um prêmio da De Beers, com a Coleção Darcy Ribeiro, que retratava o universo indígena utilizando outros tipos de palha e diamantes multicoloridos. Quatro anos depois, recebi um prêmio da Anglogold com mais uma peça, o colar Amazônia – O Mito do Eldorado”, que está no acervo do Museu do Ouro na África do Sul.

Na criação das minhas jóias, sempre estão presentes diferentes tipos de palha indígena. Não uso couro animal. Todas as joias são criadas a partir de um significado, e são jóias-talismã. O contato com os povos indígenas potencializou ainda mais a total liberdade que sinto para criar e para pesquisar os materiais da floresta, e as imensas possibilidades que as pedras preciosas e os diamantes permitem.

HT: Qual a reação dos índios ao verem suas joias? Como eles reagem ao saberem que seus materiais estão sendo transformados em peças únicas e tão bem trabalhadas? 

TX: Me recordo uma vez que entrei em contato com os Waimiri Atroari, em 1998. Na ocasião, havia recebido o prêmio da De Beers, e eles me falaram que estavam lá na aldeia, em Roraima, assistindo a um programa na TV sobre a premiação. Meu coração dava saltos de felicidade com essas notícias. Tenho especial carinho pelos Waimiri Atroari, e minha relação com os artesãos indígenas é de artista para artistas.

 

Tereza Xavier com o amigo e presidente do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena (ITC), Marcos Terena (Foto: Reprodução)

Tereza Xavier com o amigo e presidente do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena (ITC), Marcos Terena (Foto: Reprodução)

HT: Nos relate um pouco sobre a sua experiência ao participar dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Como foi esse período de mergulho na cultura e como foi assistir a esse marco histórico de perto? 

TX: Os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas, no Tocantins, foi idealizado e articulado pelo meu amigo, Marcos Terena. Este foi um evento histórico, certamente o mais lindo que pude presenciar, tanto pela sua beleza quanto pelo seu significado. A unidade na diversidade se revelava a todo momento. A pureza, a força e a exuberância de cada aldeia se potencializavam diante dos representantes dos demais países, como os mongóis, os maoris e muitos outros. Plumas multicoloridas, trajes incríveis e cocares deslumbrantes eram usados como coroas dos reinos da natureza.

A cerimônia de abertura do evento foi indescritível, com um casal indígena que entrou correndo e trazendo o fogo sagrado para acender a pira, enquanto o hino nacional foi cantado em guarani por Djuana Tikuna, ao som do violão de Rogério Miguel. No dia seguinte, antes de começarem oficialmente os jogos, os guerreiros de muitas etnias do Brasil e do mundo percorreram a arena em círculos, ao som de uma música maravilhosa que imprimia a importância daquele momento de confraternização entre muitas culturas. E o significado do lema “O importante é celebrar”!

As competições se seguiram em meio a um desfile das Cunhã Porã (moça linda) e de muitas palestras na Oca da Sabedoria. Destaque também para a Oca Digital: foi um show ver uma oca indígena, construída nos padrões da Geometria Sagrada, e que se iluminava de várias cores, além dos muitos computadores usados por indígenas de todas as idades, interagindo nas redes sociais e pesquisando no Google. Sem dúvida, excelentes ferramentas para fazerem com que suas vozes sejam ouvidas, para expandir sua cultura e preservar suas terras, exercendo seus direitos como brasileiros. E, claro, tudo isso foi mais do que fotografado por milhares de celulares, e compartilhado em tempo real. Gostaria de ter ficado durante todo o evento, mas só participei por três dias.

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HT: Após tantos anos convivendo de perto com os índios, o que você acha que a “civilização” da cidade grande ainda precisa aprender com eles?

TX: A civilização através dos povos indígenas pode relembrar valores muito esquecidos nos tempos de hoje, como o amor, a preservação da natureza e o resgate da espiritualidade, além de entrar em contato com sua sabedoria ancestral.

HT: E você, qual foi a maior lição que teve ao longo desse período de contato com os índios? 

TX: Faço minhas as palavras de Darcy Ribeiro: “Eu devo aos índios, nos anos que vivi entre eles, uma outra visão de mundo. Aprendi com eles, por exemplo, que o importante no mundo é a beleza”.

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HT: Para a comemoração de 20 anos da sua marca, você disse que pretende firmar novas parcerias com os povos indígenas e criar novos projetos. O que pode nos adiantar sobre isso? 

TX: Em 2015, ainda para os 20 anos da marca, estamos preparando o lançamento da coleção “Muguets, talismãs de nióbio e cromoterapia”. Organizaremos também a segunda edição da Campanha Natal Cãopanheiro e a primeira edição da Campanha Um Natal na Floresta (“A Rainforest Christmas”), que será realizada em uma aldeia indígena. Já em 2016, a marca comemora 21 anos. Novas parcerias com os povos indígenas já foram firmadas, além de mais duas novas e diferentes colaborações, que estão em andamento. E, ainda, a Joalheria Tereza Xavier receberá de braços abertos uma nova marca de joias, com peças incríveis. Vem muita coisa bonita por aí.