Arte & Literatura

Pela primeira vez para uma ópera, Fause Haten assina figurino de “La Belle Hélène” e traz um pouco de atemporalidade para texto da Grécia antiga: “Tem pensamento de moda na estética”

A seu favor, Fause se apropriou da "mágica do teatro" para o desenho das roupas. “Quando fazemos um trabalho para o teatro, existe uma grande questão que é o tamanho do palco e a distância que os atores ficaram do público. Isso muda tudo", comentou

Publicado em 30 de novembro de 2017 | Por Julia Pimentel

Reinventar é preciso e fôlego não falta. Na carreira, ele é mais que artista, é um realizador. E, nessa quarta-feira, 29, Fause Haten pôs em pratica mais um projeto com tempero de novidade. Em São Paulo, estreou La Belle Hélène com figurino todo assinado pelo designer. Em sua primeira experiência em óperas, entre tantos outros trabalhos no teatro e na moda que já fez, Fause mergulha nas referências da Grécia antiga para contar através das roupas a cômica e debochada história do alemão Jacques Offenback. No entanto, apesar dos elementos clássicos e tradicionais, La Belle Hélène derruba qualquer estereótipo em um resultado quase atemporal, como defendeu o estilista.

Nesta mistura de ingredientes, Fause Haten abre mais uma aba de sua temperada carreira e agrega a experiência em uma ópera ao currículo. “Eu já fiz muitos figurinos nesses anos, mas esta é a primeira vez que faço algo deste tipo. Ópera é algo que sempre mexeu comigo e, também por isso, está sendo uma experiência muito boa. Esta arte trabalha com uma memória muito relacionada a muitos mitos e grandes nomes em nosso imaginário. E, por causa deste cenário, conseguimos criar em proporções maiores. Da mesma forma com que a palavra cantada é expandida em um palco de ópera, a roupa também ganha dimensões maiores. Essa é a mágica do teatro”, contou.

Figurino de La Belle Hélène por Fause Haten (Foto: Heloísa Bortz)

Aliás, este foi um dos desafios de Fause Haten no desenvolvimento dos figurinos de La Belle Hélène. Para a ópera, o estilista não precisou ser conciso e, muito pelo contrário, pôde dar asas e espaço à criatividade. “A história se passa na Grécia antiga e eu fiz uma proposta de um trabalho um pouquinho atemporal. Não posso dizer que é contemporâneo, porém, não tem a estética de roupa de época. Eu quis aproveitar esta liberdade criativa para fazer um figurino que tivesse um pensamento de moda na estética e, então, trabalhei todos os planejamentos de construção de uma roupa grega, mas em tecidos papelados e volumosos. Desta forma, o resultado que tivemos foi quase um japonismo dos anos 1980, mas que não esconde as influências gregas”, detalhou.

Para isso, ao seu lado, Fause contou com o que chama de “a mágica do teatro”. Se, por um lado, La Belle Hélène tem figurinos modernos em um conceito de Grécia antiga, do outro, o resultado no palco não ganha a mesma proporção do que se fosse na passarela, por exemplo. E isto o que garante a estética de moda e de ópera defendida por Fause Haten – e amparada nos anos de experiência do artista. “Quando fazemos um trabalho para o teatro, existe uma grande questão que é o tamanho do palco e a distância que os atores ficaram do público. Isso muda tudo. Certa vez, fiz figurino para uma peça e, de perto, as listras eram enormes e os quadriculados também. Aí, o produtor me questionou se a estética não ficaria muito forte e eu lhe mostrei que, quando vamos para a plateia, tudo ganha dimensões menores e as padronagens se minimizam. Esta é a mágica do teatro. Quando eu crio os figurinos, tenho que levar em consideração o tamanho do palco e a distância para o público porque tudo isso muda o tamanho e o resultado das roupas”, explicou Fause.

Figurino de La Belle Hélène por Fause Haten (Foto: Heloísa Bortz)

Com este conceito, o estilista apenas deixou sua mente criativa seguir, já que os palcos para as óperas não costumam ser pequenos e, com isso, as possibilidades só aumentam. E, por falar no gênero, Fause, que se declarou amante das grandes montagens, destacou a força destes espetáculos por aqui. Para o designer, as óperas têm público no Brasil e as expectativa para La Belle Hélène apenas comprovam a carência pelas montagens. “Assim como o circo, o musical e o teatro contemporâneo, as óperas também possuem seu público cativo. O que muda é que às vezes temos momentos de pico e em outros, um cenário menos entusiasmado. As óperas têm uma super beleza pelas encenações e eu sempre consumi. Eu costumo dizer que o que falta é a oferta. Sempre quando temos um espetáculo deste gênero em cartaz, as salas costumam estar cheias. Então, público existe”, garantiu.

Com La Belle Hélène e sua estreia assinando figurino de ópera, Fause Haten dá um novo caminho à carreira. Na verdade, só aumenta, já que possibilidades são uma realidade infinita na trajetória do artista. “Eu tenho tanto fôlego na minha profissão que acho que nem cabe mais. Inclusive, estou precisando até me acalmar”, brincou o designer que, sobre esta nova experiência, destacou a intensidade da produção. “Antes, eu costumava a assinar quatro coleções por ano. Porém, em uma ópera, cada figurino representa o trabalho de quase uma coleção inteira. Então, agora, eu sinto como se estivesse fazendo umas 15 por ano. E isso tem sido muito divertido e prazeroso porque há uma troca diferente com os atores. Como eu gosto de entregar os figurinos antes da estreia, eles passam a se apropriar da roupa e ir descobrindo possibilidades nela. Então, acaba que no fim, fazer um trabalho como este do La Belle Hélène é fazer um desfile que fica em cartaz por vários dias”, comparou.

Figurino de La Belle Hélène por Fause Haten (Foto: Heloísa Bortz)

Por falar em desfile e experiência, Fause Haten coleciona trabalhos importantes e memoráveis para o cenário da moda nacional. Seja como performer, estilista ou, simplesmente, artista, o nome do brasileiro com descendência libanesa é reconhecido para além das gerações. Com esta bagagem, Fause analisou o atual momento da moda como “um tempo de transformação”. Na opinião do artista, novos conceitos e comportamentos estão sendo agregados e isto não se restringe a fronteiras ou áreas. “A moda está mudando no mundo inteiro e no Brasil ainda temos o agravante da atual situação do nosso país. Estamos vivendo uma crise que não é só financeira porque as marcas estão vendendo menos. Hoje, não se consome da mesma maneira como antigamente e com o mesmo objetivo. O que antes era qualidade, hoje virou quantidade”, analisou Fause Haten que, nas artes, também apontou mudanças contemporâneas. “As redes sociais impactaram bastante porque a arte não deixa de ser uma forma de expressão e ficou mais possível e direto. Hoje, todos têm um celular e, com isso, podem se gravar, escrever ou publicar. Ou seja, estamos vivendo uma reconfiguração sobre o que é arte”, disse.

Como consequência desta enxurrada de informações e destes novos comportamentos apontados por Fause, cria-se espaço para todas as possibilidades. Para o designer, autoral e comercial podem – e devem –, sim, atender a um mesmo público. No entanto, desde que cada um tenha sua identidade definida e saiba o seu espaço. “Eu acho que com este cenário que temos hoje, essas duas propostas de moda são estimuladas. Ao mesmo tempo que as pessoas querem ter mais volume de roupa, outras procuram pela personalidade para não se parecer com a massa” comentou Fause que apontou que o problema não está nesta concorrência. “O erro é quando o lojista comercial quer inventar e fazer coleção autoral e o criativo quer levar outra roupa completamente diferente do desfile para a loja. Os dois casos são um equívoco e mostram que o importante é cada um saber o seu lugar”, completou.

Figurino de La Belle Hélène por Fause Haten (Foto: Heloísa Bortz)

Ah, e sem esquecer de colocar a mão na massa, claro. Afinal, ideia no papel não ganha o mundo se não sair da teoria, como acredita Fause Haten. “O grande desafio do ser humano de hoje em dia é realizar o que ele tem em mente. As pessoas precisam pôr em prática tudo aquilo que pensam para não ficarem frustradas. Não adianta sonhar em ser Karl Lagerfeld e não fazer nada por isso. Ninguém chega do nada”, afirmou o designer que acredita que esta é uma ideia que não se restringe apenas à moda. “No mesmo caso de uma dieta, por exemplo. Nós temos que ir fazendo objetivos menores que podem se tornar reais. Atualmente, somos inundados por uma ideia de mundo perfeito em que todos são ricos, felizes e estão sempre de férias. Mas a vida real não é assim”, destacou.

Não mesmo! E é por isso que Fause Haten é um nome poderoso na moda e nas artes brasileiras. Ele não para – e nem quer. Afinal, de acordo com o estilista, apenas nome não sustenta carreira. “Hoje não existe mais presente, passado ou futuro. Essas ideias se misturaram e as dimensões ficaram bem maiores. Uma pessoa de 50 anos hoje não tem mais nada a ver com a da geração da minha avó. Existem outras relações e precisamos estar sempre sintonizados. E isto não importa se eu tenho 40 anos de carreira ou cinco. Cada um tem suas questões e não é um nome consolidado e nem milhões de seguidores que garante isso. Afinal, amanhã pode ter alguém muito mais interessante”, disse Fause Haten que, para não ser esquecido, continua seguindo uma carreira cheia de projetos e novas experiências. Mas, no momento, todos ainda são segredos. “Eu não gosto de contar nada antes de realmente acontecer. Porém, garanto que terei um 2018 cheio de trabalho”, afirmou Fause Haten.

SERVIÇO: La Belle Hélène, de Jacques Offenbach – obra em três atos

Datas: 29 de novembro, 1, 3, 5 e 7 de dezembro
Horários: 20h exceto domingo, às 17h
Local: Theatro São Pedro
Endereço: Rua Barra Funda, 161 – Barra Funda, São Paulo/SP
Ingressos: R$ 30 a R$ 80
Plateia: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
1º Balcão: R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia)
2º Balcão: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Mais informações: (11) 2122-4070
Duração: 160 minutos com 2 intervalos
Classificação indicativa: 12 anos
Capacidade: 636 lugares
Acessibilidade: Sim

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