Arte & Literatura

No Dia da Mulher, Fabiane Pereira entrevista a escritora Alexandra Lucas Coelho: uma portuguesa com coração carioca

No Dia Internacional da Mulher, nossa colunista deluxe conversa com a jornalista e escritora portuguesa que mais escreve sobre o Brasil e aponta, com imparcialidade, nossas atrocidades sócio culturais e políticas. Aqui, Alexandra Lucas Coelho explica algumas passagens do seu excelente, e recém lançado, livro "Deus-dará" (Ed. Tinta da China), fala sobre o Rio, cidade que chama de "casa", feminismo e as idiossincrasias brasileiras

Publicado em 8 de março de 2017 | Por Junior de Paula

*Por Fabiane Pereira

Temos um bom número de amigos em comum. Estive no lançamento do seu livro “Vai, Brasil”, na Travessa de Botafogo, em 2013, e na ocasião trocamos poucas palavras. Anos depois, quando comuniquei aos meus amigos que passaria uma temporada em Portugal por causa de um mestrado, muitos disseram: “procure pela Alexandra”. Trocamos alguns emails quando cheguei aqui mas só nos conhecemos pessoalmente numa noite promovida pelo músico Luca Argel, em Lisboa. Entre amigos, novos e velhos, pude dizer à ela o quanto admiro sua escrita.

Alexandra Lucas Coelho é escritora e jornalista portuguesa. Semanalmente publica uma coluna no jornal português “Público” mas já trabalhou como correspondente em várias zonas de conflitos, sobretudo no Oriente Médio, Ásia Central e Brasil. Também já ganhou vários prêmios de jornalismo e boa parte de seus livros estão publicados no Brasil.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, esta coluna dá voz a uma das jornalistas estrangeiras que mais escreve sobre o Brasil e aponta, com imparcialidade, nossas atrocidades sócio culturais e políticas. Aqui, Alexandra Lucas Coelho explica algumas passagens do seu excelente, e recém lançado, livro “Deus-dará” (Ed. Tinta da China), fala sobre o Rio, cidade que chama de “casa”, feminismo e as idiossincrasias brasileiras.

Ressalto que preservei nas respostas da Alexandra sua sintaxe e vocabulário.

FP: Quando a escrita entrou, profissionalmente, em sua vida?
ALC: Aos 18 anos, quando publiquei o primeiro texto.

FP: Entre 2010 e 2014, você morou no Rio de Janeiro. A escolha de morar no Rio foi pessoal ou o trabalho lhe trouxe como ocorreu em outros lugares (Oriente Médio e Ásia Central)?
ALC: A escolha do Rio foi pessoal. Propus à direcção do “Público” (diário português onde era jornalista) morar lá como correspondente. Anos antes, quando fui morar uma temporada para o Médio Oriente, a proposta também foi minha. As viagens ao Afeganistão, México, Praça Tahrir, de que resultaram livros, começaram por ser igualmente sugestões minhas de reportagem.

FP: Sua passagem pela cidade rendeu dois livros e inúmeras crônicas (“Vai, Brasil” – 2013 l “Deus-dará” – 2016). Recentemente, você publicou no jornal português “Público” uma crônica sobre a desastrosa entrega do Prêmio Camões a Raduan Nassar. Você é (talvez) a jornalista estrangeira que mais escreve sobre o Brasil e suas atrocidades políticas. Como você vê o período que o país atravessa já que viveu aqui em uma época bastante diferente, politicamente?
ALC: Vivi no Rio de 2010 a 2014. Quando deixei de ser moradora, o clima na cidade já era muito convulso, bem longe da euforia (sempre contraditória) em que eu aterrara. Depois disso, passei duas longas temporadas no Brasil em 2015 e 2016-2017, e mesmo à distância a minha cabeça nunca saiu de lá, por estar a escrever um longo romance, “Deus-dará”, passado na cidade. Enquanto “Vai, Brasil” reúne crónicas de um período brasileiro mais optimista (embora a explosão nas ruas de 2013 já apareça no final), “Deus-dará” (escrito entre 2013 e 2016) percorre o arco entre a euforia e o caos.

A ideia central deste romance é a de que o apocalipse já é aqui, agora, no quotidiano de milhões. Já era lá, nos anos pré-Copa, nas contradições brutais de uma cidade que vive todo o tempo entre génesis e apocalipse, sempre à beira de ser engolida pela selva, de cair do morro, de morrer de bala perdida, e ainda assim dança sobre a ruína, e sobre tantos milhões de mortes violentas desde 1500.

Os anos de imersão em que morei na cidade foram sobretudo a experiência de ser atravessada pelo presente, e pelas dobras de uma língua que era a minha, mas não exactamente, em muitas direcções. Durante esse período também viajei do Rio Grande do Sul à Amazônia, prismas decisivos para olhar presente, passado e futuro, como só o Rio não permitiria.

“Vai, Brasil” foi o resultado mais imediato de tudo isso. “Deus-dará”, começando por ser um tributo à cidade onde morei, transformou-se numa espécie de exumação do passado colonial que eu tinha diante dos olhos e debaixo dos pés, essa corda de mortos que une Portugal e Brasil, desde o (pelo menos) milhão de ameríndios que morreram na sequência da chegada do colonizador, até aos milhões de africanos que Portugal tirou das costas de África e levou para o Brasil.

Escrever “Deus-dará” foi perceber que qualquer tributo meu àquela cidade passava por um tributo aos índios e aos negros em cima dos quais assentou a colonização do Brasil, uma história da violência que até hoje Portugal tem dificuldade em fazer, relegando-a para uma espécie de tempo abstracto, em que supostamente as coisas eram assim. Com o tamanho que tem, Portugal foi o maior esclavagista do Atlântico, e o Brasil o destino principal desses escravizados. Portanto, para mim, portuguesa, olhar o Rio, e através dele o Brasil, num arco que vinha de 2010 e veio até 2016, era ver no caos do presente os fantasmas do passado, nas estruturas repressivas de hoje as bases da construção escravocrata. Os ecos do Brasil de 2017 remontam a esse fim-do-mundo que foi Abril de 1500. E é o milagre-ao-segundo de quem, ainda assim, emenda o princípio no fim, e um deus no outro, índio, negro, branco, transgénero. Uma história permanente de resistência, como o Carnaval acaba de comprovar. Alegria forjada na maior dureza.

FP: “Vai, Brasil” e “Deus-dará” são (ótimos) livros que falam muito de um Rio que até cariocas como eu pouco conhece. Muitas passagens, inclusive, parecem ter sido escritas por uma “carioca da gema”. Você acha que eles seriam muito diferente se sua estadia pela cidade tivesse sido por um período menor ou se você tivesse circulado por outras áreas?
ALC: Circulei por outras áreas do Brasil e isso foi fundamental para pôr o Rio de Janeiro em perspectiva. Especificamente, a viagem pela Amazónia em 2011, do sudeste do Pará ao noroeste do Amazonas, foi um curto-circuito para entender o que estava para trás, nas dobras da história, e o que pode estar para a frente. Tal como ir repetidamente a São Paulo ou passar longas temporadas no interior de Minas Gerais foram contrapontos vitais.

Quanto à duração das estadias, “Vai, Brasil” abarca vários anos em crónicas, de outra forma não seria o mesmo livro. E “Deus-dará” não poderia existir sem o tempo primeiro vivido, e depois os três anos e meio em que foi escrito: é um livro que começa quando eu já me libertara dos dois anos iniciais na cidade, da primeira camada de equívocos de um português, esse estrangeiro-parente. E parte daí para escavar camadas que uma curta estadia não teria pressentido (e que acabaram por levar também a meses de pesquisa, história do século XVI, história do Rio de Janeiro, antropologia contemporânea, imagens, etc).

Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora (Foto: José Carlos Carvalho)

FP: Hoje é “Dia Internacional da Mulher” e apesar dos inúmeros avanços ainda vivemos num mundo extremamente machista. Em vários países, mulheres estão indo às ruas exigir a igualdade de gênero entre outros direitos. No Brasil, o movimento feminista cresceu muito nos últimos anos e tem lutado muito contra a política e os movimentos mais conservadores. Como o movimento feminista atua em Portugal e como ele afeta você?
ALC: Aos 18 anos eu achava que era pós-feminista. Aos 49 sou feminista. O machismo foi muito menos lento a desaparecer do que eu achava que seria. Em largos espaços do planeta continua a ser mortal, destruidor. Noutros, houve uma regressão brutal. É um trabalho contínuo, começando por nós mesmas, incluindo a forma como continuamos a reproduzir estereótipos cristalizados pela linguagem. E que nos implica à escala global, dos confins da América às montanhas do Afeganistão. O caso brasileiro foi muito inspirador. O Brasil urbano a que cheguei em 2010 era uma paisagem bem mais estagnada em relação a um lugar da mulher. Ver como a partir de 2013 as ruas e as redes se fortaleceram com lutas anti-machistas, e tantas mulheres não-brancas, vindas das periferias, foi das boas alegrias por entre o caos.

FP: Quais são, na sua opinião, as maiores limitações impostas pela sociedade portuguesa a uma mulher (seja ela escritora/jornalista ou não)? E de que maneira você acha que se pode mudar esta conjuntura?
ALC: Não me lembro de sentir, nas redacções de rádio e jornal onde trabalhei desde o fim dos anos 1980, discriminação/limitações por parte de chefias ou colegas por ser mulher. Como repórter enviada a diversos cenários de conflito, também não. Idem em contextos de relações amorosas e de amizade. De resto, no quotidiano, como todas as mulheres, suponho, senti e sinto esse machismo de forma mais ou menos explícita. Como escritora, desde que comecei a publicar livros, também aconteceu isso manifestar-se, quer, por vezees, numa certa condescendência, quer em relação a conteúdo mais directamente feminista. A minha forma de tentar mudar isso é continuar a escrever, crónicas e livros.

FP: Em “Deus-dará”, você diz que:

a) não se dorme no Rio de Janeiro. Se não é a obra, é o vizinho, o ônibus, o diabo.

b) já entendi aquela cena do Rio de Janeiro não ser para principiantes.

c) cariocas são peritos em contornar problemas.

Gostaria que você explicasse/comentasse estas três afirmações.

ALC: Atenção, não sou eu que digo essas frases. “Deus-dará” é um romance, então quem as diz é por vezes o narrador, por vezes as personagens. E a autora pode não concordar com nenhum deles (risos). Isto dito:

a) O Rio de Janeiro é uma cidade ruidosa. Vozes altas, barulho de obra, de festa, de radinho, de gerador arcaico, de ônibus tonitruante, de paredes demasiado finas, se você morar no morro.

b) O Rio não é para principiantes porque é uma cidade labiríntica, cheia de camadas, de protocolos, de jeitinhos, demora a decifrar, a subir, a descer. E é tão milagrosa quanto violenta, produz uma alegria que vem do fundo, da maior dureza. Se o Rio não é para principantes, a soberana alegria do Rio certamente não é de principiantes.

c) A frase sobre cariocas serem peritos em contornar problemas vem numa passagem sobre a quantidade de morros e túneis da cidade. A ironia, amorosa, é que a própria topografia da cidade contribuiu para produzir um carácter, o carioca, que desde sempre contornou problemas. No sentido de não os afrontar, não os derrubar, de eles continuarem a existir, sempre se dando um jeito de ir em volta, ou através, sem que nada se desmorone, e ninguém se zangue.

FP: Também em “Deus-dará”, o personagem Karim pergunta: “Como deixar o Rio de Janeiro? “. Aqui, quase lhe transfiro a mesma pergunta: Foi difícil deixar o Rio de Janeiro?
ALC: A pergunta seguinte a essa no livro é: “E como não deixar o Rio de Janeiro?” A vida no Rio parecia-me sempre no balanço entre ficar/partir, amar/exasperar.

FP: Por fim, pretende voltar a viver no Rio?
ALC: Continuo a pensar nisso dia sim, dia não, a sentir o Rio como uma casa. Se não houvesse o drama do visto, da burocracia que um português tem de enfrentar para morar lá (e um brasileiro aqui), e os preços não continuassem tão absurdos, gostaria certamente de pelo menos morar uma parte do ano no Brasil. É um amor irreversível.

*Fabiane Pereira é jornalista, pós graduada em “Jornalismo Cultural” e “Formação do Escritor”, mestranda em “Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação” no Instituto Universitário de Lisboa. Curadora do projeto literário “Som & Pausa” e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação, especializada em projetos musicais e literários. Foi apresentadora do programa Faro MPB na MPB FM por quatro anos e, depois, comandou o boletim “Faro Pelo Mundo” na emissora de rádio carioca. 

 

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