Arte & Literatura

Em sua primeira mostra individual, Luiz D’Orey apresenta olhar sobre a simbiose do caos urbano com a organização arquitetônica: “Comportamento das pessoas no ambiente urbano”

Até o final deste mês, o artista plástico carioca radicado em Nova York expõe 15 obras da série “Quase Plano” na galeria Mercedes Viegas, na Gávea. Por lá, Luiz apresenta o seu olhar sobre uma combinação improvável entre a bagunça dos lambe-lambes colados nos tapumes com a linearidade milimétrica da arquitetura nova-iorquina

Publicado em 6 de setembro de 2017 | Por Julia Pimentel

O cenário podia parecer normal e corriqueiro para um olhar menos atento em meio a correria do dia-a-dia. Mas, quando se trata de um artista, tudo ganha status de obra de arte. Foi isso o que aconteceu com Luiz D’Orey, de 23 anos, que está em cartaz com sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. Até o final deste mês, o artista plástico carioca radicado em Nova York expõe 15 obras da série “Quase Plano” na galeria Mercedes Viegas, na Gávea. Por lá, Luiz apresenta o seu olhar sobre uma combinação improvável entre a bagunça dos lambe-lambes colados nos tapumes com a linearidade milimétrica da arquitetura nova-iorquina. “A ideia inicial deste meu trabalho era fazer um embate entre esses dois espaços da cidade. De um lado, os tapumes em que todos metem a mão e interferem nas colagens dos avisos e imagens. Do outro, ou no fundo, os prédios que são super calculados e geométricos. Então, com esse trabalho, eu quis mostrar os dois comportamentos opostos das pessoas em um ambiente urbano: aquele sem regras e o outro super respeitado”, contou.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Embalado por este conceito, Luiz ficou dois anos mergulhado no projeto até lançar a série na galeria carioca no mês passado. Neste tempo, o artista plástico traduziu sua vivência e percepção do estilo de vida de Nova York, onde mora há cinco anos, em obras abstratas e figurativas, que permitem diferentes interpretações. No total, são 15 telas expostas na Mercedes Viegas que, além de revelar esta visão do jovem artista, ainda representam a estreia de Luiz D’Orey em uma mostra individual. “Está sendo uma experiência bem especial. É muito diferente participar de uma exposição coletiva, quando você tem apenas um trabalho entre tantos outros, de uma só sua. Quando é algo em que você é o responsável, além da preocupação com as obras em si, ainda preciso construir grupos de trabalho, definir escalas, cores e tudo mais. Se fosse em uma mostra coletiva, teria um curador para assinar essa parte”, disse.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Mas ele vem honrando com a oportunidade. Ainda mais em sua cidade. Carioca, Luiz D’Orey mora em Nova York há cinco anos, onde se formou na School of Visual Arts no ano passado. De acordo com o artista plástico que, apesar de já talentoso e respeitado no meio artístico ainda é um jovem de 23 anos, a experiência longe de casa foi fundamental para o desenvolvimento de sua habilidade como profissional. “Quando a gente sai do nosso país e passa a morar em um lugar novo, nós automaticamente saímos da nossa zona de conforto. Isso faz com que a gente precise estar mais atento ao que nos cerca. Fora que eu fui para estudar. Então, todos os meus amigos nessa vida nova tinham gostos e interesses parecidos”, destacou Luiz que considerou essa experiência como uma imersão total no meio artístico. “Nova York tem tudo o que um profissional ou apreciador de artes gosta. Quando eu comecei a trabalhar com os pôsters, eu encontrei uma artista da Califórnia que tinha um trabalho muito interessante e descobri que dois meses depois ela estaria em Nova York expondo. Ou seja, tudo o que a gente quer está ao nosso alcance”, disse.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Panorama este que não é muito comum por aqui, como reconheceu Luiz D’Orey. “Em Nova York, realmente, é bem mais desenvolvido que no Rio de Janeiro. Mas eu não acho que o norte-americano tenha um interesse em arte maior que o brasileiro. A diferença é que lá as informações circulam mais facilmente e de um jeito dinâmico. Em breve eu acho que este comportamento e este interesse pelas artes plásticas também devam chegar por aqui”, apontou Luiz que acredita que, para isso, seja necessário estimular uma cultura de exposições e mostras artísticas.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Desde pequeno, Luiz D’Orey contou que tinha a arte como companheira. No entanto, a paixão pelos desenhos só virou profissional quando o artista plástico conheceu a enormidade da profissão na escola norte-americana. “Eu adorava pintar e desenhar, mas, para mim, isso era só um hobby. Apesar de eu nunca ter pensado em me profissionalizar, eu sempre soube que queria trabalhar com artes. Foi então que eu fui para a School of Visual Arts e o que era apenas uma brincadeira se tornou algo sério na minha vida”, lembrou o artista plástico que define sua identidade criativa como um reflexo de sua paixão pela profissão. “Eu acho que a minha maior facilidade é porque eu gosto muito do que eu faço. Isso faz com que seja fácil e prazeroso eu trabalhar e ficar horas dedicado a um projeto. Então, como é algo feito com amor, eu acho que deixa de ser trabalho e passa a ser uma obsessão mesmo. Eu nunca deixo uma obra sem que eu esteja 100% satisfeito com o resultado”, explicou.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Nesta viagem a Nova York, que foi muito mais que geográfica na vida de Luiz D’Orey, ele cresceu, estudou, se profissionalizou e hoje é considerado um dos nomes mais relevantes de sua geração no mercado artístico brasileiro. Sobre o título que vem acompanhando sua carreira, ele confessou que procura não ligar. “Não depende de mim. Quem diz isso são as pessoas que veem o meu trabalho e gostam do que eu faço. Se eu ficar pensando nisso todos os dias, quando eu estiver bem irá inflar o meu ego e, quando estiver mal, vai me afundar. Então, eu prefiro me dedicar apenas à minha arte e, quando for para ouvir alguém, que sejam as pessoas próximas de mim”, argumentou.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

E que time espetacular ele tem por perto. Além dos amigos e familiares, Luiz D’Orey ainda conta com nomes como Raul Mourão e Carlos Vergara como colegas íntimos de profissão. Em sua trajetória, o artista foi assistente pessoal dos dois gênios e, nesta experiência, adquiriu um conhecimento que, como ele definiu, foi essencial para o momento que vive hoje – e para o futuro, claro. “Nos Estados Unidos, as minhas férias de Verão eram enormes. Eu ficava quase quatro meses aqui no Rio. Quando eu vinha para o Brasil, eu queria fazer algo que fosse acrescentar a minha carreira e comecei a tentar ser assistente. E foi uma experiência única. Enquanto na escola em Nova York eu aprendia sobre pintura, com eles, eu via como era viver daquilo diariamente”, disse Luiz que desmistificou sua visão de ateliê. “Quando a gente imagina, parece que são espaços super românticos e organizados. Não necessariamente”, brincou o artista plástico que conheceu a realidade da profissão neste trabalho com Vergara e Mourão.

Série “Quase Plano” de Luiz D’Orey (Foto: Divulgação)

Com esta bagagem no passado e uma super expectativa sob o futuro, Luiz D’Orey segue uma caminhada promissora nas artes plásticas – aqui e mundo afora. Se o Rio de Janeiro foi o palco para sua primeira exposição individual, Nova York será a cidade que terá seu primeiro trabalho remunerado. Em outubro, Luiz D’Orey irá entregar um super mural de sua série “Quase Plano”, de 2m x 3m, que ficará exposto no prédio que lhe serviu de inspiração. “Um construtor me convidou para expor esse meu trabalho sobre construções no hall desse prédio. Ele visitou o meu ateliê, viu que era o prédio que ele estava construindo e me encomendou essa pintura enorme”, comemorou Luiz D’Orey que, na sua agenda, ainda tem a próxima edição da Art Rio e uma exposição coletiva em Nova York em novembro. Voa alto!

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