Arte & Literatura

Em espetáculo cheio de brasilidade, Deborah Colker interpreta poema “Cão sem Plumas” e apresenta combinação de dança e cinema de tirar o fôlego: “Não tinha como não fazer algo denso, intenso e profundo”

Além da arte, a coreógrafa contou que tem dividido seu tempo com a ciência em um trabalho de terapia genética. Com a doença do neto Theo, que tem epidermólise bolhosa, Deborah incorporou a pesquisa como uma missão em sua vida. "Quando eu estou nos laboratórios e vejo aqueles cientistas sensacionais no Brasil e no mundo, eu digo que vou largar a arte. A ciência é fundamental para a vida"

Publicado em 28 de julho de 2017 | Por Julia Pimentel

O centenário Theatro Municipal do Rio ficou de pé para aplaudir o espetáculo “Cão sem Plumas” de Deborah Colker. Em uma curta temporada de apenas cinco apresentações, até 30 de julho, a coreógrafa leva ao palco um intenso e profundo número inspirado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto. “Cão sem Plumas” é o primeiro espetáculo de temática explicitamente brasileira de Deborah e traz a seca e a pobreza da população ribeirinha do rio Capibaribe como referência. Para tal, a coreógrafa prende o fôlego do público por 70 minutos em um misto de intensidade, angustia e dramaticidade.

A seca e o drama desta realidade brasileira são representados através dos corpos cobertos de lama de 13 bailarinos da companhia que abusam de sua arte para representar a situação. Norteada pelas palavras de João Cabral, Deborah conta que não poderia deixar de emprestar a sua interpretação ao intenso poema do autor pernambucano. “Essa obra fala que o rio é real e espesso. Quando ele diz isso, João Cabral está falando de todos os rios. Da mesma forma quando ele cita os ribeirinhos, está falando de todos que vivem naquela situação. É um poema que fala de pessoas, do descaso com o que é vivo, da natureza e da terra, que é o nosso lugar e é nossa por direito. É isso. Eu não tinha como não fazer um espetáculo denso, intenso e profundo com essas palavras. Então, eu fiz dança, cinema e poesia. Essa foi a maneira que eu encontrei de traduzir essas palavras”, explicou.

O espetáculo “Cão sem Plumas” está em cartaz no Theatro Municipal até este domingo, 30 (Foto: Cafi/Divulgação)

Exatamente. Em “Cão sem Plumas”, Deborah Colker incorpora a tecnologia em prol da sua arte. Para potencializar a dança que apresenta no palco, o cinema ganha espaço em vídeos do cineasta Cláudio Assis na fonte da inspiração. “Esse poema é muito geográfico. Então, os lugares são muito importantes para o enredo. Quando eu fui para Pernambuco fazer a residência, eu já tinha um espetáculo. Nós apenas o colocamos nesses lugares. O filme fala da geografia do poema, a dança está na tela e no palco, a poesia está em tudo. Está tudo muito interligado. Mas eu acho que o cinema era muito importante para localizar, potencializar e trazer o preto e branco, o cru e a lama”, disse.

Com o cinema, a dança e a poesia para comandar, Deborah Colker contou que o espetáculo teve um capitão que norteou o seu trabalho. Assim como João Cabral foi a fonte da coreógrafa em “Cão sem Plumas”, o autor pernambucano também foi o maestro da apresentação. Mas não só ele. “O espetáculo tem dois capitães: João Cabral e a dança. Quem manda em tudo o que apresentamos são eles. O cinema, a música e a poesia apenas obedecem à dança. Só quem não obedece é o autor. Eu casei João Cabral com a dança e tudo veio a serviço disso”, explicou Deborah que dedicou o sucesso e a intensidade de “Cão sem Plumas” ao neto Theo, de sete anos. “Eu acho que sem ele eu não faria uma conexão tão profunda, como a Fernanda Montenegro me falou. É preciso sentir na pele”, disse sobre o encontro que teve com a atriz na estreia da temporada no Rio de Janeiro.

No fim do espetáculo, Deborah Colker dedicou a apresentação ao neto Theo, de nove anos (Foto: Cafi/Divulgação)

Nisso tudo, a emoção ainda é um tempero forte no espetáculo de Deborah Colker. Não só para que assiste, mas também para quem transmite essa mensagem através de seus corpos e expressões. Integrante da companhia da coreógrafa há três anos, a uruguaia Rosina Gil destacou que “Cão sem Plumas” a apresentou para um cenário desconhecido. “Para mim foi uma imersão muito profunda. Nós ficamos três semanas em Pernambuco e eu descobri um universo que eu não conhecia e paisagens que eu nunca tinha visto. Fora que nós vimos pessoas muito resistentes e artísticas também, que dançavam coco e maracatu apesar de tudo”, lembrou.

Aliás, os personagens reais desta situação apresentaram mais do que sua vivência para os personagens da ficção. De acordo com Uatila Coutinho, um dos 13 bailarinos do espetáculo, a experiência imersa em meio ao que João Cabral narra no poema o aproximou de um lado mais humano, que havia ficado esquecido em meio a correria da cidade. “Nós que vivemos na correria da cidade, muitas vezes não paramos para nos colocar desta forma no lugar de tantas outras pessoas. Ver tudo aquilo nos faz acordar para o que queremos, acreditamos e pensamos da vida. É claro que a gente nunca vai conseguir se colocar no lugar deles e entender o que eles sofrem de fato. Mas essa experiência foi transformadora”, disse o bailarino que é do interior de Minas Gerais e se identificou com a pobreza da seca Pernambucana. “Foi algo que acrescentou muito para mim e para todos da companhia”, completou.

Para os 13 bailarinos que apresentam “Cão sem Plumas”, a experiência in loco em Pernambuco foi além da inspiração artística (Foto: Cafi/Divulgação)

E é isso o que Deborah Colker quer com a sua arte. Referência mundo afora, a coreógrafa leva para o palco a essência de um Brasil esquecido. Mais que isso. Deborah resiste à crise e faz arte com o que muitas vezes nem merece destaque no dia-a-dia tupiniquim. “Eu acho que essa é a cultura do nosso Brasil que representa a nossa arte, quem nós somos e qual berro temos que dar. Eu acho que nós temos que continuar trabalhando. O que não pode é parar. Eu sou contra isso. Para mim, temos que fazer, nos adaptar, brigar. É isso”, sintetizou.

Parar não é mesmo com ela. Paralelo ao espetáculo “Cão sem Plumas”, Deborah também está levando “Vero” para a Europa e Ásia. A apresentação, que já passou pelo Brasil e foi sucesso nacional, combina dois números tradicionais da carreira da coreógrafa: “Velox” e “Rota”.  Mas se Deborah leva arte para fora do Brasil, ela também traz coisas boas para as fronteiras nacionais. Porém, não na dança.

Para além dos palcos, Deborah Colker tem se dedicado à ciência. Assim como “Cão sem Plumas” foi uma homenagem ao neto Theo, o mergulho da coreógrafa nos laboratórios pelo mundo também tem sido em prol do menino. Com nove anos, Theo possui uma doença genética não contagiosa, a epidermólise bolhosa, que dá grande sensibilidade na pele dos pacientes. “A gente está lutando para conseguir trazer uma tecnologia da Universidade de Minnesota que é incrível. Eles estudaram a edição genética, a correção de células e a terapia genética. No começo, eu me aproximei muito disso por causa do meu neto. Mas, hoje, isso está além dele. É uma missão que eu tenho na minha vida”, disse.

Além da dança, Deborah também tem se dedicado ao trabalho de terapia genética (Foto: Cafi/Divulgação)

Missão esta que tem motivado a coreógrafa a correr atrás de novas pesquisas diariamente. Tão inserida no ambiente científico, a doença do neto de Deborah a aproximou de um cenário que a deixou encantada e fascinada. Aliás, até demais. “Quando eu estou nos laboratórios e vejo aqueles cientistas sensacionais no Brasil e no mundo, eu digo que vou largar a arte. A ciência é fundamental para a vida. Mas aí, eles me animam a continuar fazendo meus espetáculos. Eu acho que quando temos um nome com um certo prestigio, temos que usá-lo para o nosso lado também. É um grito para, por exemplo, o pessoal que tem dinheiro no Brasil coçar o bolso e querer investir para melhorar a vida”, argumentou.

Mesmo assim, a coreógrafa, que tem seu trabalho hiper reconhecido no Brasil e no mundo, não escondeu a dificuldade dos tempos modernos. Mergulhada em duas atmosferas que sentem o impacto da crise, Deborah Colker acredita que possui estímulos maiores que nunca estacionarão sua coragem para seguir em frente. “Tudo é difícil. Porém, hoje, a minha missão com a ciência é muito complicada. Nos anos 1990, quando eu disse para a minha mãe que queria abrir uma companhia de dança contemporânea, ela disse que ninguém sabia o que era isso e que era para eu me dedicar a dança de salão ou samba. Agora, que eu resolvi trabalhar com terapia genética, ela disse que agora que eu tinha conseguido meu espaço na arte eu ia me aventurar em um novo meio. E sim, é isso. Agora que eu consegui o meu prestígio com a dança, eu quero outra coisa. E ai de quem falar que eu não vou conseguir. Pode escrever aí”, afirmou assertiva. Alguém duvida?

Serviço: “Cão sem Plumas”

Data e horário: Sexta, 28 de Julho de 2017 às 20h30 – Sábado, 29 de Julho de 2017 às 17h e às 20h30 – Domingo, 30 de Julho de 2017 às 17h
Local:  – Praça Floriano, S/N – Centro, Rio de Janeiro – RJ
Ingressos:  – Galeria Lateral R$ 40,00 inteira / R$ 20,00 meia-entrada – Galeria Central R$ 50,00 inteira / R$ 25,00 meia-entrada – Balcão Superior Lateral R$ 60,00 inteira / R$ 30,00 meia-entrada – Balcão Superior Central R$ 80,00 inteira / R$ 40,00 meia-entrada – Balcão Nobre R$ 120,00 inteira / R$ 60,00 meia-entrada – Plateia R$ 120,00 inteira / R$ 60,00 meia-entrada

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