Arte & Literatura

A correria do transporte público virou inspiração para o primeiro livro de romance adulto de Erika Balbino, que relata a sua visão sobre a sociedade

O exemplar O Osso: Poder e Permissão mostra as diversas relações que ocorrem dentro do metrô todos os dias. Um empresário e um lojista se tornam apenas mais uma pessoa dentro daquele espaço habitual do cotidiano. O texto foi escrito em um momento conturbado na vida da autora

Publicado em 6 de dezembro de 2017 | Por Ana Clara Xavier

Quem possui hora exata para sair de casa todos os dias com certeza já encontrou alguns rostos conhecidos no caminho até o trabalho, a faculdade ou a escola. A autora Erika Balbino já passou por isso em 2006 quando pegava o metrô para trabalhar no consulado da França em São Paulo. Naquele ano, ela enfrentou uma longa crise de insônia que a levava a dormir cerca de três a quatro horas por noite sem se sentir cansada no dia seguinte. “O sono tinha sumido. Era tão desesperadora a sensação de contar as horas para o dia amanhecer que comecei a escrever um livro enquanto estava acordada”, lembrou. Exatos 11 anos depois, Erika lança o exemplar O Osso: Poder e Permissão que é resultado destas noites em claro.

Capa aberta do livro O Osso: Poder e Permissão que constroi um relato filosófico sobre o dia a dia (Foto: Divulgação)

Complexidade é uma palavra que pode resumir bem o primeiro romance adulto de ficção da paulistana. Para quem está de fora, o título da história pode não dizer muita coisa. No entanto, a filosofia por trás do mesmo consegue resumir o objetivo da autora através deste exemplar. “O livro mostra como, a partir da consciência do nosso corpo (osso), podemos nos manifestar por meio dele. É algo quase filosófico. Mesmo que alguém tenha um cargo chefe em uma empresa importante, quando pegar o metrô ele irá ter contato com outras pessoas através do físico. Através desta troca, sempre lidaremos com relações de poder e permissão, porque sempre haverá alguém querendo impor as suas vontades sob o outro e cabe a cada um escolher ser permissivo”, explicou Erika. Todos os livros da escritora, ela busca fazer alguma associação com a capoeira ou as religiões de matriz africana. Em O Osso: Poder e Permissão não foi diferente. Esta ideia de que o corpo político, apesar de pertencer a uma classe superior, se torna apenas mais um no transporte público se aplica à interação nas rodas de capoeira. Não existe diferença entre um advogado ou um atendente de loja quando eles entram na roda.

A partir desta ideia de que todos as pessoas são apenas mais uma no transporte público, a autora pretende trazer um discurso questionador sobre os habitantes da periferia. Através de seu ponto de vista, mostra situações que a mesma já viveu de forma direta ou indireta. O objetivo não é trazer uma verdade, mas apenas mostrar como diversas situações que passou em seu dia a dia a afetaram. “Se colocarem uma lente de aumento sobre São Paulo, perceberemos que ainda é uma grande roça caipira. As pessoas que moram em bairros periféricos, por exemplo, costumam dizer que vão ‘à cidade’ quando estão indo para o centro. Isto só mostra o quão grande e diferente é este lugar”, afirmou Erika.

O livro mostra personagens guerreiros e contraditórios que precisam lidar com as próprias decisões
(Foto: Gal Oppid)

Sendo assim, o livro conta a história de pessoas completamente diferentes que vão desde um empresário até um ladrão. Nem todas as tramas se entrelaçam, mas o ponto de partida que une estas pessoas é o fato de transitarem pelo metrô da cidade grande. “Não fica claro para quem está lendo se as histórias acontecem na mesma hora ou se um personagem pode estar no mesmo vagão sem participar da cena. Na minha cabeça, todas estas pessoas, em algum momento, estão no mesmo lugar”, contou.

O fato do transporte público ser o ponto de partida para contar esta história é muito óbvio, afinal, durante a escritora transitava por aquele espaço todos os dias e pode observar diferentes momentos do cotidiano. “Em São Paulo, quem pega o metrô sempre no mesmo horário acaba escolhendo o mesmo vagão. Dessa forma, as pessoas acabam criando uma certa zona de conforto, porque sempre é possível cruzar com, no mínimo, quatro rostos familiares. Ao mesmo tempo que o corpo está condicionado a ir para aquela plataforma, o instinto animal está procurando por um grupo de sobrevivência”, sugeriu. Para completar, todos os capítulos são extremamente curtos, porque gostaria que fossem passíveis de serem lidos no curto intervalo de tempo até o trabalho.

Ao trazer o seu ponto de vista sobre os acontecimentos cotidianos da época, o livro se torna um grande objeto bibliográfico para entender de que forma a sociedade brasileira está se desenvolvendo nos últimos anos, afinal, muita coisa mudou neste período. “Acho interessante que quem for avaliar a relação do cotidiano de dez anos atrás, vai perceber que as situações não mudaram. Na verdade, foi ao contrário, apenas piorou. Acredito que isto tem uma relação com o fato dos indivíduos se reconhecerem mais como consumidores do que cidadãos. Existe uma passagem que fala sobre uma trabalhadora que foi demitida e, a partir deste momento, ela tenta se redescobrir como pessoa que não é mais amparada por uma empresa”, criticou Erika.

O livro de Erika Balbino mostra o cotidiano da cidade de São Paulo em 2006 (Foto: Gal Oppid)

Entre as diversas questões sobre as relações humanas expostas no livro, uma das mais importantes para a autora são as decisões tomadas. Seja o ladrão que escolhe assaltar ou uma mulher que precisa aceitar o emprego, Erika Balbino mostra que qualquer passo que damos na nossa vida pode gerar consequências, até mesmo de vida. “O meu livro mostra o tempo inteiro que somos obrigados a fazer escolhas. Estas podem sérias ou simples, mas que no futuro serão importantes, afinal, pode afetar a nossa vida. Ao mesmo tempo, não conseguimos imprimir o verdadeiro valor para cara decisão por ser cobrada de nós a rapidez, com isso acabamos fazendo tudo de forma atropelada. Em algum momento, seremos surpreendidos pelo nosso corpo e o nosso instinto que está reagindo aos atos do cotidiano, como aconteceu comigo”, afirmou.

A primeira coisa que o leitor irá se deparar ao abrir o livro é o prefácio do rapper GOG. O artista foi escolhido para escrever este início devido a sua familiaridade com a periferia exaltada na publicação. “Ele é super conhecido no mundo o rap como um poeta. Nomes como Caetano Veloso, Maria Rita e Chico Buarque já liberaram músicas para ele ampliar. O rapper escreve canções com intensas críticas sociais, sou viciada em algumas letras dele como Desconstrução, Quando o Pai se Vai , e Brasil com P “, comentou. Enquanto GOG ficou responsável pelo prefácio, o professor, tradutor e escritor José Arrabal foi quem teve a tarefa de apresentar a escrita de Erika. “Ele foi um preso político na época da ditadura militar e, além disso, é um professor muito conhecido aqui em São Paulo. Já deu aulas na PUC e no Mackenzie, inclusive, para a minha turma”, comentou.

A construção de seu primeiro livro adulto foi bastante simples. A escritora usou uma linguagem informal nos diálogos e apostou em algumas gírias quando se tratava de pessoas mais novas. Todos os personagens são trabalhadores e muito guerreiros. No entanto, Erika mostra que ninguém é perfeito trazendo figuras contraditórias. “Sempre escrevo o primeiro e o último capítulo de um romance. Utilizei este processo em todos os livros que escrevi até agora. É algo muito particular da minha escrita”, explicou. A autora garantiu que a escrita não está muito diferente de sua primeira publicação, Num Tronco de Iroko Vi a Iúna Cantar, porque apesar do primeiro ser voltado para o público infatojuvenil ele seguia a mesma estratégia literária do segundo. “A editora queria diminuir o texto do meu primeiro livro, mas não consegui porque escrevo muito. Mesmo assim, o exemplar acabou saindo e esgotou. O sucesso foi, em grande parte, porque o público adulto também se identificou com aquela história”, acrescentou. Este primeiro possui três mil exemplares vendidos e atualmente está esgotado.

Os trabalhos de Erika Balbino não vão parar por ai. Ela contou que ainda tem dois livros na gaveta. Um deles fala sobre o universo machista que existe dentro da capoeira através do olhar de uma menina que pratica. O próximo segue a linha densa desta segunda publicação ao falar sobre como o negro usou o seu corpo no meio político ao longo dos anos.

 

 

 

Pesquisas relacionadas