Arte & Literatura

Com exclusividade para o site HT, a escritora consagrada Thalita Rebouças entrevista a estreante na literatura Fabiane Pereira

Sobre o título do livro,"amadorA", que chega ao mercado pela editora Galateia, Fabiane explica: "sou uma amadora da escrita. Não sou escritora profissional embora escreva todos os dias desde que fui alfabetizada mas só agora decidi assumir meus rascunhos como versões originais"

Publicado em 29 de junho de 2017 | Por Junior de Paula

Nossa colaboradora e parceira de todas as horas Fabiane Pereira faz sua estreia na literatura. A jornalista e apresentadora do programa de rádio FARO – antigo Faro MPB, agora na rádio carioca Paradiso -, reuniu suas “crônicas, reflexões e desabafos” publicados em diversos sites e outros textos inéditos no recém-lançado “amadorA” (Editora Galateia). “A palavra vai além do feminino de amador”, enfatiza a escritora. Com ilustrações de Roberta Ferro, na capa e no miolo, e prefácio assinado por Thalita Rebouças, a publicação tem um tom claramente autobiográfico, no qual ela passeia por assuntos de seu cotidiano divididos em duas partes: afetO e afetA.

Fabiane Pereira (Foto: Larissa Abbud)

Fabiane fala de maternidade, mesmo ainda não sendo mãe, da admiração pelos melhores amigos, da conjuntura política, de feminismo e feminino. Fala de si mesma sem entraves, como quem não teme ser vulnerável, inclusive ao colocar a cara a tapa nas livrarias de todo o Brasil. “E é aí que eu me encaixo: sou uma amadora da escrita. Não sou escritora profissional embora escreva todos os dias desde que fui alfabetizada mas só agora decidi assumir meus rascunhos como versões originais”, explica a autora. “Experimenta pedir ao Google o significado da palavra ‘amadora’. Nas primeiras dez páginas de buscas, todos os significados passam longe da beleza do feminino de amador. ‘Amadora’ ganha conotação sexual dentro de uma categoria mezzo orgia mezzo depravação total que jamais é cogitada quando o termo buscado é do gênero masculino”, desabafa Fabi na crônica que dá nome ao livro. E para saber mais sobre esse processo, sobre o significado, significante e conteúdo de sua escrita, convocamos ninguém menos que Thalita Rebouças para fazer dez perguntas para Fabiane.

Fabiane Pereira e Thalita Rebouças

Fabiane Pereira e Thalita Rebouças

O resultado da conversa, você pode ler agora:

TR: Você sempre gostou de escrever? 
FP: Sempre. Desde que fui alfabetizada. Quando criança e adolescente escrevia em diários (aqueles que vinham com “cadeados”…rs!), tenho guardado uns dez desta época. Sinto-me mais confortável escrevendo do que falando quando desejo expressar sentimentos ou incômodos mais profundos.

TR: Como se descobriu escritora?
FP:
Acho que escrevo crônicas porque ela é a mais gentil dos gêneros literários. Ela é coloquial, me ajuda a rir de mim mesma e a prestar atenção aos detalhes que as mazelas das grandes cidades insistem em esconder. Acho que escrevo crônicas porque, de certa forma, ela não me impõe o crédito de escritora. Penso que seria presunçoso demais ter a mesma profissão de Saramago, Clarice, Lygia e sua.

TR: Quem são suas referências na literatura?
FP:
Leio mulheres há muitos anos. Path Smith é, talvez, a referência mais antiga. Adoro Cecília Meireles, Ana Cristina César e Virgínia Woolf também. Entre minhas contemporâneas, leio tudo que a Tatiana Salem Levy publica. Já entre os homens, sou apaixonada pela escrita do escritor português João Tordo. Gosto muito do Paulo Scott e do João Paulo Cuenca, além, claro dos clássicos Machado de Assis, Lima Barreto, Saramago e Pessoa.


TR: Fale um pouco do título. É curioso, termina com um a maiúsculo.
FP:
Às vezes, não basta apenas colocar um ‘a’ no final de uma palavra pra torná-la feminina. É preciso explicar. Por exemplo, presidente e presidenta. A palavra existe e está correta dentro da norma culta da língua portuguesa apesar de muitos insistirem que não. Nestas horas, dou play no vídeo que vaga pelo youtube com a Pilar Del Rio, viúva de Saramago, e me certifico que presidenta é uma palavra linda, é feminino de presidente sim e também é sinal que uma mulher chegou ao mais alto cargo de uma empresa ou de um país. E quando lembro disso, percebo o quanto precisamos do feminismo. E foi quando entendi que empoderamento não era apenas uma palavra da moda, que a palavra “amadorA” me arrebatou. “amadorA” vai além do feminino de amador. “amadorA” é o adjetivo usado para indicar alguém que gosta muito de alguma coisa. Pode ser utilizado também para definir àquele que não é profissional em determinado ofício. E é aí que eu me encaixo: sou uma amadora da escrita. Não sou escritora profissional embora escreva todos os dias desde que fui alfabetizada mas só agora decidi assumir meus rascunhos como versões originais.

TR: O que sentiu quando a editora disse “sim, vamos publicar seu livro”?
FP:
“amadorA” é meu primeiro livro de crônicas mas minha segunda aventura literária porque em 2015 fiz o projeto e a curadoria do livro “Som & Pausa” que foi publicado pela editora Guarda Chuva. É sempre muito gratificante saber que alguém aposta num projeto idealizado por você. A Galateia é uma empresa pequena voltada para publicações femininas então o conceito do livro e da editora têm total sinergia e estou muito feliz com esta parceria.

TR: Como é seu processo criativo?
FP:
Sou a rainha dos bloquinhos. Eu anoto tudo o tempo todo. E quando não consigo anotar, fotografo o que li ou gravo o que pensei. Mas, neste momento, minha vida – na verdade, de 5 anos pra cá – não está permitindo que eu tenha uma rotina de escrita como eu espero ter um dia. Faço um mestrado em Lisboa e, paralelo ao curso, estou concebendo um novo FARO (programa de música que apresentava na rádio MPB FM e que em agosto estreia na Paradiso), fazendo a curadoria e a produção do projeto TrampoliM que desde maio acontece em São Paulo e ainda colaborando com conteúdo para vários sites. Então, meu processo criativo tem sido “startado” pelo dead line.

TR: Em que se inspira para escrever?
FP:
Nos afetos e em tudo que me afeta.

TR: Sua família te incentivou nessa nova carreira?
FP:
Não encaro a escrita como uma nova carreira porque como jornalista já escrevo há muitos anos e ser jornalista é meu ofício principal e sempre vai ser. Mas minha família apoia todas as minhas decisões, até as mais estapafúrdias. Minha mãe é feminista (embora, ao contrário de mim, não levante bandeiras) e soube educar a mim e ao meu irmão a base de muito diálogo. Já meu pai, falecido há 12 anos, sempre me disse: “estou aqui pra dar linha à sua pipa”. Então é fácil voar tendo uma família assim.

TR: Pretende lançar mais livros?
FP:
Clarooo! Não tenho a pretensão (mentira, tenho sim!! rs!) de me tornar uma best seller como você mas quero lançar ainda muitos livros.

TR: O que você gosta de ler?
FP:
Assim como na música, sou bastante eclética. Gosto de romance, poesia, contos, gibis e leio dois ou três livros simultaneamente. Mas confesso que tenho uma queda pelas crônicas. Sou devota do Antônio Prata (para citar um dos vários bons escritores da minha geração).

TR: Por que chamar essa Thalita Rebouças pra escrever sobre seu livro? 🙂
FP:
Porque a gente costuma chamar pessoas queridas e próximas para batizarem nossos filhos, né?? Sua generosidade me emociona.

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