Arte & Literatura

Após oito anos em um escritório como engenheiro, Ricardo Penna resgata paixão pela fotografia e hoje é nome de peso no cenário da moda e publicidade

Em entrevista, o fotógrafo contou que buscar novos experiências para além do computador foi uma saída para fugir do estresse do dia-a-dia. Antes da fotografia, ele passou pelo mergulho e alpinismo, até que ficou na monotonia nos esportes. "Agora, como estou todos os dias com pessoas e em ambientes diferentes, fica um pouco difícil cair nesse marasmo"

Publicado em 30 de Janeiro de 2018 | Por Julia Pimentel

O figurino era terno e gravata e a posição atrás de um computador. Hoje, até a bermuda é possível como roupa de trabalho e seu lugar passou a ser atrás da lente de uma câmera fotográfica. A profissão de Ricardo Penna mudou e, com isso, sua vida, humor e rotina também. Formado em Engenharia, o fotógrafo abriu mão de um emprego estável em uma multinacional para se dedicar a um lifestyle prazeroso, que atravessa a arte em um cenário de criação. E foi isso o que ele fez os belíssimos editoriais com Vanessa Gerbelli e Julia Konrad por aqui. Nas fotos, Ricardo Penna garantiu personalidade e sofisticação ao ensaio que publicamos.

Ricardo Penna, fotógrafo (Foto: Reprodução)

Entre um clique e outro, Ricardo contou de sua história de coragem para mudar. Desde a infância, a fotografia sempre foi algo presente na vida dele, porém apenas com status de diversão. “Eu fiz Engenharia na PUC e trabalhei durante oito anos em uma multinacional de telecomunicações na parte de TI. Mas era muito estressante. Aí, o médico disse para eu procurar experiências diferentes. Foi aí que comecei a fazer mergulho, até que ficou monótono e mudei para alpinismo. Escalei diversas montanhas, todas as do Rio de Janeiro, e ficou sem graça também”, lembrou Ricardo que, em determinado momento, ficou na dúvida entre windsurf, kitesurf e fotografia. “Nessa época, uma amiga do pré-vestibular me procurou dizendo que tinha largado a Engenharia para ser atriz e me mandou as fotos que tinha feito. E estavam horríveis. Sendo que eu nem era fotógrafo para analisar”, contou.

Sophia Abrahão por Ricardo Penna (Foto: Ricardo Penna)

Foi aí que Ricardo juntou a câmera do cunhado com suas habilidades do passado e se aventurou em ajudar a amiga. E o resultado surpreendeu. Depois de dois rolos de fotos, um ensaio bem sucedido e uma nova motivação, Ricardo Penna se decidiu entre as três opções de experiências para além do escritório de telecomunicação. “Como eu gostei daquela brincadeira, comprei uma câmera e fui fazer um cursinho para começar. Aí fiz o básico, intermediário, avançado, de iluminação e fui crescendo como passatempo”, disse Ricardo que começou conciliando o trabalho com alguns books para modelos. “Eu fui ganhando espaço na fotografia como um hobby e, paralelo a isso, estava cada vez mais estressado como engenheiro no escritório. Já estava desanimado, até que eu pedi demissão e virei fotógrafo”, contou.

Campanha com Laura Fernandez (Foto: Ricardo Penna)

No entanto, esta não foi uma decisão muito simples. Como consequência, Ricardo contou que teve que explicar para seu pai que a brincadeira havia ficado séria e que fotografia também é uma profissão importante. “Meu pai ficou um pouco assustado na época, porque ele é muito conservador. Na nossa família, minha irmã é médica, meu irmão é advogado e eu era engenheiro, assim como ele. Então, ele ficou um pouco em choque porque eu era o filho que tinha me formado na mesma faculdade e estava seguindo a profissão dele”, explicou o fotógrafo que, por outro lado, reconheceu que o lado paternal também falou mais alto. “Ele viu como eu estava infeliz e insatisfeito com o trabalho. Eu não nasci para ficar trancado em um escritório por oito horas na frente de um computador com gente berrando no meu ouvido”, destacou.

Vanessa Gerbelli em editorial exclusivo para o site HT (Foto: Ricardo Penna)

Porém, mais do que reconhecer, tudo ficou ainda mais especial quando Ricardo Penna virou motivo de orgulho na fotografia. Entre tantos trabalhos importantes que ele já assinou, o primeiro de grande repercussão foi um marco para consolidar o passatempo como profissão. “Meu pai só me viu como fotógrafo quando eu fiz uma exposição e dei entrevista para a Ana Furtado na televisão e apareci em fotos ao lado dela e da Isabel Fillardis em uma página inteira da Caras. E aí minhas tias ligavam para o meu pai porque viam a revista e ele ficava todo orgulhoso. E foi aí que ele me aceitou”, contou.

Campanha com cliques de Ricardo Penna (Foto: Ricardo Penna)

E, diferente do mergulho e do alpinismo, que viraram monótonos na vida de Ricardo Penna, a fotografia não seguirá o mesmo caminho, como ele garantiu. Além de esta ser hoje a profissão dele, é ainda um ofício de descobertas constantes. “Virou profissão e agora eu não posso mais largar. Às vezes eu até me sinto na zona de conforto e, por isso, vou buscar criar e montar novos ensaios. Mas eu estou o tempo todo tentando me redescobrir na profissão para não ficar monótono. Porém, como estou todos os dias com pessoas e em ambientes diferentes, fica um pouco difícil cair nesse marasmo”, analisou.

Julia Konrad em editorial exclusivo para o site HT (Foto: Ricardo Penna)

Outro ponto que garante o status de renovação são os avanços da tecnologia. Este, aliás, é um quesito que Ricardo Penna tira de letra. Para quem pensou que a Engenharia havia ficado no passado na vida do fotógrafo, ele comentou que os conhecimentos em física são fundamentais para o clique perfeito. “Como eu trabalhava com tecnologia, quando eu mudei para a fotografia e os equipamentos digitais eu tive uma certa facilidade. Ninguém nunca me ensinou a trabalhar no Photoshop e muita gente diz que o meu tratamento é um dos melhores do Rio de Janeiro”, comemorou.

O lado negativo disto tudo é a facilidade à mão de todos, como apontou o fotógrafo. “Como tudo está avançando e ficando mais acessível, hoje, qualquer pessoa pode pegar uma câmera e dizer que é fotógrafo. E isso é um pouco frustrante. A gente passa um orçamento em cima de uma experiência, know-how e conhecimentos, enquanto o outro só tem uma câmera no automático e nunca nem leu o manual”, analisou o fotógrafo que destacou que, em um país em crise, essa diferença fica ainda maior. “Fica muito difícil, mas a gente sobrevive porque ainda existem poucas pessoas que têm um olhar sobre a qualidade e identificam a diferença entre os trabalhos”, apontou Ricardo Penna que, na profissão, possui ainda diversos projetos misteriosos para o futuro. O que será que vem por aí?

Pesquisas relacionadas