Arte & Literatura

Após funcionários do Theatro Municipal do Rio ficarem quatro meses sem receber, Ana Botafogo encabeça campanha com venda de camisetas e comenta convite para assumir a presidência da casa: “Na verdade, eu aceitei”

Em um dos modelos, a primeira bailarina estampa as palavras dança, cultura e dignidade. "Foram momentos muito críticos em que nos apoiamos na solidariedade das pessoas. Eu sei que a campanha da venda das camisas não é suficiente para solucionar, mas, se cada um tentar ajudar um pouquinho, amenizamos a situação de quem mais precisa"

Publicado em 25 de Janeiro de 2018 | Por Julia Pimentel

Dança, cultura e dignidade. As três palavras traduzem um sentimento coletivo que permeia o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e estampam uma camisa com status de esperança para esses personagens da vida real. Com salários atrasados, os funcionários do histórico templo da arte e da dança carioca tiveram um respiro em uma ação coordenada pela primeira bailarina do Theatro, Ana Botafogo. Em sua loja, a artista está vendendo 4dois modelos de blusas com o lucro totalmente revertido para ajudar os servidores. Além da camiseta com “Dança, Cultura e Dignidade”, a campanha também lançou um modelo com a hashtag #SalveOTheatroMunicipal, todas por R$ 99 e disponíveis nas cores preta e branca.

Leia também: Fernando Bicudo assume a presidência do Theatro Municipal e conta ao site HT como será sua gestão: Uma luta e uma missão divina”, afirmou o artista

Para Ana Botafogo, a iniciativa é uma tentativa de minimizar os problemas financeiros recentes. “Nós ficamos quatro meses sem receber e, mesmo a situação se normalizando agora, teve gente que ficou em uma situação muito difícil. É importante que eles tenham essa ajuda e, por isso, precisamos continuar a campanha. Foram momentos muito críticos em que nos apoiamos na solidariedade das pessoas. Eu sei que a campanha da venda das camisas não é suficiente para solucionar, mas, se cada um tentar ajudar um pouquinho, amenizamos a situação de quem mais precisa”, disse Ana Botafogo.

Os modelos são vendidos na loja e site da bailarina e custam R$ 99 (Foto: Carol Lancellotti)

Neste sentido, a primeira bailarina do Theatro Municipal lembrou que os funcionários receberam ajudas financeiras e de mantimentos de gente até de fora do Rio. “Tudo isso ajudou muito. A gente distribuiu as doações nos últimos meses para que os funcionários tivessem o mínimo e conseguissem pagar passagem para vir trabalhar. Então, eu sinto que cada contribuição, assim como está sendo com a venda das camisetas, é um frescor, um respiro de esperança para essas pessoas”, analisou.

Dedicada às pessoas e à importância do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para a cidade, Ana Botafogo foi, inclusive, convidada a assumir a presidência do espaço em meio a crise. No fim do ano passado, a bailarina disse que apenas aceitaria o cargo se algumas reivindicações fossem atendidas. Entre elas, a regularização dos pagamentos. “Na verdade, eu aceitei. Porém, listei algumas condições para que pudesse fazer uma gestão viável. No entanto, eles não poderiam atender a tudo e precisavam de um nome para a presidência antes da virada do ano. E aí, o Fernando Bicudo, que é alguém que também ama o Theatro, assumiu”, contou Ana que, agora, disse que está trabalhando de forma coletiva nos bastidores da presidência. “Estamos todos unidos para trazer os momentos de glória do Theatro de volta. Queremos resgatar a felicidade que foi perdida nesse último ano em meio a tantas dificuldades”, contou.

O atual presidente do Theatro Municipal é Fernando Bicudo (Foto: Carol Lancellotti)

E, para isso, a primeira bailarina, que também é diretora artística do balé do Theatro Municipal, contou que a missão é resgatar o fôlego da companhia. Embora os bailarinos não tivessem parado de praticar durante os meses de baixa, Ana Botafogo explicou que a falta de espetáculos atrapalha o rendimento de um artista. “O balé do Theatro Municipal sofreu muito porque não conseguiu segurar alguns integrantes que acabaram indo para a Europa. E, os que ficaram, não tiveram espetáculos para fazer. O bailarino é como um atleta de alto rendimento. Se ele para um mês, precisa de dois para voltar ao nível. E nós crescemos e nos aperfeiçoamos quando estamos no palco”, explicou.

No entanto, esta escassez deve estar com os dias contados. Na presidência, a ideia de Fernando Bicudo, e com o incentivo de Ana Botafogo, é fazer uma programação dinâmica para o novo ano. “Nós estamos trabalhando para o público voltar a nos ver no palco do Theatro Municipal, que é tão maravilhoso”, destacou Ana que acredita estar estreando um novo espetáculo no final de fevereiro. Mas, para isso, a primeira bailarina ressaltou a importância de o público carioca também comparecer ao Theatro Municipal da cidade. “As pessoas podem nos ajudar indo nos ver dançar. Nós estaremos no palco agradecendo toda a solidariedade e incentivo a arte”, garantiu.

De acordo com Ana Botafogo, a ideia é retomar a programação do Theatro este ano após a crise de 2017 (Foto: Carol Lancellotti)

E é assim que Ana Botafogo segue na carreira. De acordo com a primeira bailarina, o Theatro Municipal é hoje, sim, a sua principal dedicação. É ao palco que a coroou que a artista entrega suas energias para garantir que a sociedade continue tento dança, cultura e dignidade. “O meu grande foco profissional é o Theatro Municipal. Agora estamos lutando para ter uma reabertura depois de um ano complicado e de temporada escassa”, contou Ana que, além disso, também tem viajado dando palestras e feito algumas participações em um espetáculo da Cisne Negro Cia de Dança.

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